Antropologia

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    • Honra, dignidade e reciprocidade.

      Com a transformação da noção de honra em dignidade na modernidade (Berger 1983; Taylor 1994), e o desenvolvimento da ideologia individualista no ocidente (Dumont 1977; 1986; 1991), o processo de institucionalização da cidadania passou a articular de maneira cada vez mais próxima demandas por direitos (Marschall 1976) com demandas por reconhecimento de identidades . Toda a discussão sobre multiculturalismo nos Estados Unidos assim como os debates em torno do tema no Quebec e na Catalunha são bons exemplos deste processo. O eixo da demanda por reconhecimento, como um direito ou condição para o exercício pleno da cidadania nestes casos, gira em torno das dificuldades encontradas na formulação de um discurso legitimador para a institucionalização de direitos não universalizáveis, que visam contemplar a situação singular de grupos específicos — minorias étnicas ou nacionais — cujo valor ou mérito é reivindicado como característica intrínseca de suas identidades enquanto tais. De outro ângulo, a dificuldade também está presente no esforço em dar visibilidade ao insulto ou ato de desconsideração — decorrente da falta de reconhecimento — como uma agressão objetiva, merecedora de reparação.

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    • Individualismo, identidades colectivas e cidadania: os Estados Unidos e o Quebec vistos do Brasil

      Os Estados Unidos têm sido, recorrentemente, um contraponto ou uma referência comparativa estimulante para cientistas sociais brasileiros refletirem sobre a democracia e a cidadania no Brasil. De Sérgio Buarque de Holanda (1936/1963), passando por Oracy Nogueira (1954/1985), até o trabalho mais recente de Roberto da Matta (1979; 1991). Neste sentido, o individualismo americano tem sido o centro da preocupação destes autores e uma grande fonte de insights em suas análises sobre o Brasil, onde noções como personalismo, complementaridade, hierarquia e tradição são enfatizadas na comparação como características do contexto brasileiro, em oposição aos ideais de individualidade, autonomia, igualdade e modernidade encontrados nos EUA. Inspirando-me neste quadro, gostaria de acrescentar o Quebec a minha investigação e reverter o foco da análise para examinar certos aspectos dos direitos individuais, das identidades coletivas e da cidadania nos EUA e no Quebec a partir do Brasil.

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    • Justiça, solidariedade e reciprocidade: Habermas e a antropologia.

      Nos últimos vinte e poucos anos, i.e, após a publicação de Conhecimento e Interesse (1968/1972), Habermas abandona seu debate com a filosofia da ciência e dirige seus esforços de fundamentação de uma ciência social não positivista para a elaboração de uma teoria social, cuja formulação é concluida com a publicação de sua Teoria da Ação Comunicativa (1981/1984 e 1981/1987) no início dos anos oitenta. Neste processo, a dimensão normativa da interpretação sociológica, bem como sua relação com problemas de legitimação, vai ficando cada vez mais clara, dando lugar a uma preocupação com questões de moralidade (1983/1989) e a um interesse no Direito (1992) como esfera de investigação privilegiada para a compreensão de alguns dos problemas centrais que afligem a sociedade moderna.

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    • Legalidade e eticidade nas pequenas causas.

      Uma das principais características dos Juizados de Pequenas Causas nos EUA é o fato de que numa parcela significativa das disputas que lhe são encaminhadas o cerne do conflito não é de ordem legal, mas sim do que seria mais adequado definir como questões de natureza ético-moral. Isto é, apesar das causas serem formalizadas em termos estritamente legais, onde a demanda é sempre expressa através de um valor monetário, caracterizando uma compensação financeira pela agressão ou perda sofrida, a principal motivação para dar início ao processo jurídico-legal está freqüentemente em outro lugar: seja na percepção de desrespeito a um direito não monetizável; ou ao que gostaria de designar como um insulto moral. Inspirando-me na Teoria da Ação Comunicativa (TAC) e na Ética do Discurso (ED) de Habermas (1981/84 e 1983/89), propus uma classificação de decisões judiciais e de acordos mediados no âmbito do Juizado, conforme o grau de satisfação das pretenções de validez normativa das soluções encontradas (Cardoso de Oliveira, 1989).

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    • O lugar (e em lugar) do método

      Dizer que sociologia, enquanto ciência, surge como um exercício de método, é o que se pode depreender da leitura das Regras do Método Sociológico (1895) que neste ano completa o seu centenário.1 E para compreendermos bem qual o lugar do método na sociologia e em disciplinas afins, ou o porquê de sua necessidade - para aludirmos a nossa epígrafe cartesiana -, não podemos deixar de enfrentar a questão do cientismo, particularmente em sua feição racionalista, que secularmente tem preocupado os cientistas sociais. Diante disto, procurarei, em primeiro lugar, nesta comemoração dos cem anos dessa seminal obra de Durkheim, esboçar um quadro, ainda que muito sumário, da inserção da sociologia nascente na tradição do racionalismo francês. Em segundo, examinarei alguns aspectos da implantação da postura metódica numa sociologia imaginada como uma verdadeira ciência natural dos fatos sociais. Finalmente, tentarei mostrar, dentro de uma perspectiva que entendo moderna, os limites do método, ou de como em determinadas circunstâncias da investigação sociológica ou ainda, mais precisamente, em sua acepção antropológica, o que poderia estar em seu lugar.

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    • O velho cego: Uma reflexão krahó sobre o contato interétnico

      "O Velho Cego" é a versão Krahó do conto de João e Maria, dos irmãos Grimm, publicado em várias línguas e muito difundido no mundo ocidental como um todo. Embora a pesquisadora que publicou a estória afirme que esta versão se caracterizaria pela ausência de contribuição indígena (Chiara, 1961:356), o que nos chamou atenção no texto foi exatamente a articulação original de problemas indígenas com temas ocidentais, através da qual os Krahó procuram pensar a sua experiência. O que se segue é um exercício de análise estrutural onde, como em outras oportunidades, esta estratégia de análise revela grande rentabilidade para o desvelamento de dimensões significativas das relações sociais. Neste caso, aspectos importantes da visão nativa sobre o contato interétnico. Entretanto, ao invés de proceder a análise através da comparação da estória Krahó com as versões ocidentais do conto, privilegiando a unidade entre as diversas versões, optamos por tentar abstrair a estória do Velho Cego de suas congeneres ocidentais procurando fazer uma análise mais colada na mitologia do grupo e no contexto etnográfico.

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    • Pesquisas em vs. pesquisas com seres humanos.

      De fato, os esforços para a regulamentação de princípios éticos na prática de pesquisa têm suscitado questões polêmicas ainda pouco discutidas entre nós. Vou procurar tratar de pelo menos três ou quatro questões importantes e complexas no campo da ética na antropologia para dar início ao debate. Em primeiro lugar, gostaria de dizer que a resolução 196, que foi instituída pela Comissão de Ética em Pesquisa (CONEP) do Ministério da Saúde para regular a ética em pesquisa com seres humanos em geral, comete alguns equívocos graves. Ao regular toda e qualquer pesquisa com seres humanos a resolução sugere um certo exagero ou uma certa extrapolação de domínios. Neste sentido, me parece que a resolução 196 expressa o que gostaria de caracterizar como um certo “áreacentrismo” ou “biocentrismo” na visão sobre a ética, com implicações muito similares ao que nós na antropologia freqüentemente nos referimos através da noção de etnocentrismo e que um antropólogo como o Dumont, por exemplo, chama de sóciocentrismo para falar na dificuldade que os ocidentais têm em entender a sociedade de castas na Índia.

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    • Povos indígenas e mudança sócio-cultural na Amazônia

      O estudo da mudança sócio-cultural, como objetivo de uma antropologia moderna, não é uma empresa fácil. Por dois motivos. Primeiro pelo fato de ser um hábito bem enraizado na etnologia — particularmente na etnologia brasileira — de se fazer história mais, ou em lugar de, antropologia; entendendo-se por esta o estudo sistemático, nomotético, das realidades sócio-culturais. O traçado linear da mudança naqueles estudos históricos, implicando geralmente um antes e um depois, acarreta um outro hábito, igualmente corrente na antropologia — e não apenas brasileira — como o de fazer extrapolações entre esses dois momentos, entre o antes e o depois, ou, para falar com Barth, entre dois estados, ou mesmo de um único estado, para indicar o curso da mudança (Fredrik Barth, 1967: 661). O segundo motivo estaria, assim, no vício de extrapolações desse tipo a que se refere Barth. A solução que ele sugere não vamos examinar aqui senão dizer que ela diz respeito ao caráter da contribuição da antropologia social para a compreensão da mudança: como o de prover materiais primários para o entendimento de processos e, por conseguinte, permitir com isso a observação e a descrição de eventos de mudança como algo que está acontecendo agora e não como um produto secundário de dados graças à dedução ou à extrapolação (cf. Barth, idem). A solução que julgamos encontrar, particularmente no que concerne à compreensão da mudança originada pelo contato interétnico, prende-se à possibilidade de instrumentalização do modelo do “potencial de integração”, por mim proposto em 1967 no ensaio “Problemas e Hipóteses relativos à Fricção Interétnica” 1 e à utilização da noção de evento como a menor unidade de um fato, significativamente observável; i.e. a inteligência do que é observável o seria a partir do próprio modelo. É assim que vamos iniciar essa exposição por um exame desse modelo analítico e por uma avaliação de suas possibilidades para descrição e explicação do processo de mudança sóciocultural na Amazônia.

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    • Quando fazer é refletir. (Sobre a importância do ensino de Filosofia na formação do antropólogo)

      Em outras oportunidades, ao discutir as características do conhecimento ou da interpretação antropológica, tenho chamado a atenção para a importância da dimensão filosófica da antropologia. Deste modo, sugeri que a disciplina teria se desenvolvido a partir de um dilema constitutivo entre, de um lado, uma ênfase no carater ""local"" e contextualizado da interpretação etnográfica e, de outro, uma preocupação com questões de validade. Da mesma forma, indiquei que este dilema fazia com que o trabalho antropológico estivesse profundamente marcado por uma dialética radical entre a ciência e a filosofia, entre o empirismo e a metafísica, ou entre o dado e o significado.

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    • Racismo, direitos e cidadania

      O artigo discute a singularidade do racismo no Brasil como um tipo de discriminação cívica particularmente importante mas que, não obstante, reflete um padrão muito mais abrangente de desrespeito a direitos e de agressão à cidadania. Tendo como foco práticas discriminatórias na vida cotidiana, que seriam estimuladas pela desarticulação entre esfera pública e espaço público no Brasil, o autor identifica o potencial das “cotas” no plano simbólico como instrumento de combate ao racismo e de afirmação da cidadania.

      (Adicionado: 2ªf Abr 30 2007 | Visitas: 143 | Colocação: 0.00 | Votos: 0) Avaliar
    • Nem Santos nem demônios. Imagem social e auto-imagem dos deficientes físicos em São Paulo

      Em qualquer sociedade os valores culturais se concretizam no modo pelo qual ela se organiza. São valores que refletem uma imagem do e no pensamento dos homens. Uma das principais características dos valores é a de poderem ser expressos na forma de adjetivos. Sendo assim, o termo ""deficiente"" é um adjetivo que, como tal, adquire valor cultural de acordo com as regras, padrões e normas estabelecidas nas relações sociais, constituindo uma categoria capaz de agrupar, numa identidade comum, diferentes tipos de pessoas. Oficialmente, a Assembléia Geral da ONU, em 1975, proclamou no artigo I. que: ""O termo pessoas deficientes refere-se a qualquer pessoa incapaz de assegurar por si mesma, total ou parcialmente, as necessidades de uma vida individual ou social normal, em decorrência de uma de uma deficiência congênita ou não, em suas capacidades físicas ou mentais.” (grifos meus). A partir de então, passou-se a usar o termo deficiente para indicar todas as pessoas que apresentassem uma imperfeição física ou mental, preferindo-se deficiente visual a cego, deficiente físico a defeituoso, aleijado, deficiente mental a retardado etc. O termo parece opor-se ao adjetivo ""eficiente"". E portanto o termo deficiente significa, antes de tudo, ""não ser capaz"", ""não ser eficiente"". A ""ineficiência"", numa sociedade capitalista, de classes, de consumo, de exploração do trabalho, sociedade que ainda se pensa como um ""corpo"" faz, com a deficiência, um contraponto significativo, elaborado há muito tempo por instituições como a Igreja, o Estado e a família. O deficiente foi associado à anormalidade e os não deficientes à normalidade.

      (Adicionado: 3ªf Ago 29 2006 | Visitas: 226 | Colocação: 0.00 | Votos: 0) Avaliar
    • Tecnologias Digitais e Antropologia - Hipermédia e Antropologia

      Procuramos esclarecer o conceito de tecnologias digitais e teorias digitais a partir das práticas desenvolvidas no âmbito das actividades do projecto de investigação Tecnologias Digitais em Antropologia e das práticas sociais e culturais da sociedade actual. Propõem-se essencialmente duas perspectivas de abordagem da utilização das tecnologias digitais em antropologia, uma instrumental, resultante de convergência cultural, como forma de potencializar as tradições em antropologia - textual, imagética, armazenamento e tratamento de informação; outra, a de exploração de formas de integração destas práticas em forma de exploração hipermediática, resultante da presente pesquisa experimental. Apresentamos ainda as linhas gerais e objectivos do referido projecto de investigação e as instituições e os países no âmbito dos quais se realiza a pesquisa, o trabalho de campo e os protótipos resultantes da pesquisa. A investigação deverá dar origem à escolha e produção de software para o desenvolvimento do projecto, ao desenvolvimento de projectos individuais de pesquisa e à formação avançada neste âmbito.

      (Adicionado: 3ªf Ago 15 2006 | Visitas: 218 | Colocação: 0.00 | Votos: 0) Avaliar
    • A Resistência Waimiri-Atroari FrenteA Resistência Waimiri-Atroari Frente Ao Indigenismo De Resistênc

      O trabalho enfoca a questão da resistência do povo indígena Waimiri-Atroari numa situação em que a política indigenista do Estado tem sido subordinada aos interesses de grandes projetos de desenvolvimento econômico. Após uma longa história violenta de conflitos interétnicos, em que os Waimiri-Atroari tornaram-se um paradigma da resistência no indigenismo brasileiro, os sobreviventes de epidemias e massacres foram submetidos a uma política de "integração acelerada".

      (Adicionado: 3ªf Ago 08 2006 | Visitas: 211 | Colocação: 0.00 | Votos: 0) Avaliar
    • As Terras Indígenas No Brasil E A “Regularização” Da Implantação De Grandes Usinas Hidrelétricas E P

      Conforme a Constituição Federal do Brasil de 1988, a questão das terras indígenas toma precedência nos problemas fundiários no Brasil, considerando que em seu artigo 231 garante aos índios “os direitos originários sobre as terras que tradicionalmente ocupam”. Direitos que independem da existência ou não da demarcação ou qualquer reconhecimento formal das suas terras por parte do Estado. Os direitos dos índios são originários, decorrente da sua conexão sociocultural com povos pré-colombianos.

      (Adicionado: 3ªf Ago 08 2006 | Visitas: 199 | Colocação: 0.00 | Votos: 0) Avaliar
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