A cara do Brasil

Na verdade, o Brasil, o que será?
Brasil é o homem que tem sede ou o que vive da seca do sertão?
Ou será que o Brasil dos dois é o mesmo que vai, é o que vem na contra-mão?
Brasil é o que tem talher de prata ou aquele que só come com a mão?
Ou será que o Brasil é o que não come, Brasil gordo na contradição?
Brasil que bate tambor de lata ou o que bate carteira na estação?
Brasil é o lixo que consome ou tem nele o mana da criação?
Brasil é uma foto do Betinho ou um vídeo da Favela Naval?
São os Trens da Alegria de Brasília ou os trens de subúrbio da Central?
Qual a cara da cara da nação?
A Cara do Brasil (Celso Viáfora)

Vamos tentar desvendar a última pergunta da nossa epígrafe tomando-a como tema. Tendo isto em conta, o objetivo do presente trabalho é mostrar como é que o brasileiro percebe o seu país e seu povo, segundo ele fotografa-o através da música.

Recortamos o universo de discursos à música por tê-la considerado como base para a pesquisa sobre a idiossincrasia do povo brasileiro, já que como disse Furlanetto (2003) "pensa-se essas práticas como associadas necessariamente às comunidades que as realizam" e diferencia-se de outros tipos de textos como por exemplo da literatura porque esta afasta-se mais da realidade do que a música, aliás o número de pessoas que escreve ou lê literatura é menor do que o número de pessoas que escreve, canta, ou ouve música. Logo, a música é mais popular. No enquanto as músicas ao serem mais sociais e atuais têm uma aproximação à realidade mais cru e direta, é feita e ouvida por todos os estratos sociais além do gênero ao qual pertençam.

Começou-se pesquisando em quatro sítios do Internet as músicas que tiveram em alguma parte de seu trecho o termo "Brasil", seleção que abrange também sua família de palavras. Após tirados 403 músicas se fez a primeira seleção tendo em conta os seguintes critérios: que a música falasse do Brasil como país na sua maior parte e que falasse da idiossincrasia do povo brasileiro. Das 81 que ficaram com esses critérios e ao serem muitas ainda, se escolheram e dividiram por tópicos. A segunda seleção foi mais direta (os trechos que tem especificamente os termos Brasil e brasileiro) e indireta (quando faz alusão), logo separaram-se os trechos por tópicos tendo em conta a sua pertinência. No presente trabalho utilizam-se sessenta delas.

Preciso é aclarar que na escolha não se consideraram questões tais como o gênero musical, a cifra em si mesma, nem a época e o lugar no qual foram escritas senão que se tomaram as letras das mesmas isoladamente tentando que falassem por se só. "Também os gestos auxiliam a conversação, e não serão objeto de nosso estudo. Trataremos do texto, puro e simples, sem figura e sem presença viva do interlocutor" (AAVV; sd; 11)

Mais de 500 anos passaram no Brasil e ainda ignorância, exploração infantil.
Depois de tanto tempo não conseguiram acabar com toda fome, com a miséria do lugar.
Mais de 500 anos passaram no Brasil e ainda intolerância, cocaína e fuzil.
Depois de tanto tempo cadê a evolução, trabalho como escravo sem devolução
Mas eu sei que não, por mais que diga, eu sei que não. Mas eu sei que não, não muda não.
Não tenha dinheiro. Não queira viver. Não tenha direito. Não queira saber. Não tenha lazer.
Mais de 500 anos passaram no Brasil e o país abençoado não e esse Brasil.
Eu tenho muito mais a declarar me condenem mas não dá pra calar
500 Anos (J. Neto Sollo)

O brasileiro descreve o seu país nas mais variadas maneiras, sua "terra firme, livre" é a sua "mãe gentil" e a "terra de Nosso Senhor". Apresentam o Brasil com as características que são reconhecidas no mundo inteiro como cartas de apresentação. Por exemplo através o seu futebol, seu carnaval, sua música e suas mulheres. Segundo Furlanetto (2003) "toda manifestação de discurso (na forma de textos) é vista como acontecimento de caráter social e histórico ... é tambén nesse espaço que se encontram as possibilidades de circulação e de conservação dos discursos" Nesse contexto, é nas letras das músicas onde podem se conservar tanto os discursos sociais quanto históricos que fazem parte da cultura de um pais.

No discurso não podem se divorciar as questões sociais das históricas. A sociedade ao mesmo tempo que faz cultura, escreve a sua história. É parte da idiossincrasia brasileira o futebol, o carnaval, o samba "bom no pé, deita e rola, ele é mesmo bom de samba e de bola"; "o Brasil, samba que dá, bamboleio, que faz gingá... é o meu Brasil brasileiro, terra de samba e pandeiro"; "Oh! Meu Brasil, Brasil, esquentai vossos pandeiros, iluminai os terreiros."

Este "gigante de um continente, é terra de toda gente e orgulho dos filhos teus" tem mais a ver aliás do que é conhecido no mundo "as casas, as cidades, as calçadas, as mulecadas, as esquinas, os buracos, balas perdidas, os telhados no Minhocão, a multidão, favelas, galera na madrugada, a gingada é o Brasil, país porrada. Os botecos, concreto, as raízes, as cicatrizes, Cristo Redentor, sol nascente, Salvador, Nas Gerais, as catedrais, Pelourinho, Aleijadinho, na Baixada, as peladas, é o Brasil, país porrada" elementos não esquecidos e que são parte na interação cotidiana da idiossincrasia do povo.

"É, paixão, primeira" mais o brasileiro sabe que "Nada nesse mundo é perfeito. Meu país não foge as regras... Depois de tudo que sofreu, foi explorado, colonizado" e que este "país da democracia racial, da mulata exportação, da beleza natural. Brasil! Nação feliz, um país tropical, país da pedofilia, futebol e carnaval. Brasil, que nos condena a viver como animal irracional. Vamos fingir que vai passar, vamos fingir que é natural!"

Para Analise do Discurso as posições que os sujeitos ocupam em uma dada formação social condicionam as condições de produção discursivas, definindo o lugar por ele ocupado no discurso. É neste espaço que o autor produz o sentido desejado que pode ir desde o a propaganda até o protesto. "A verdade é que o Brasil fecha os olhos para não ver que aqui é uma nação boa para se viver" "Todo dia às sete eu ligo meu rádio para ouvir hipnotismo nacional. Todo dia às sete eu ligo meu rádio para ouvir lavagem cerebral" "Aqui é o centro da corrupção. Aqui é o país da exploração. Aqui é a lixeira do 1º mundo. Aqui o povo não tem cultura."

"Brasil, mostra tua cara. Quero ver quem paga pra gente ficar assim. Brasil, qual é o teu negócio? O nome do teu sócio? Confia em mim. Grande pátria desimportante, em nenhum instante eu vou te trair" O autor assume a função social de organizar e assinar determinada produção escrita como um indivíduo inserido num determinado contexto histórico-social (sujeito em si) e como sujeito enunciador, autor –segundo Foucault-, posição que assume enquanto produtor de linguagem.

É essa terra "onde eu vejo a raça forte no sorriso da massa. A força desse grito que diz: ‘É meu país’" tem "a resistência de um povo que sempre foi a extremidade de um pavio que graças a Deus, foi aceso e com humor e esperança apagamos todo dia na hora de estourar!" Vei-se o posicionamento do autor como sujeito criador de discurso. A nação cujos filhos "deram o sangue pro país" e que sabe que "só quem leva no peito esse amor, esse jeito, sabe bem o que é ser gbrasileiro" "Eu vou me embora pois chegou a hora de cumprir obrigação, defender nosso torrão, Brasil esta chamando, sou brasileiro já vou chegando"

O músico, autor e criador, adota a posição que lhe foi dada, a do povo brasileiro, que tem "mil talentos, mil defeitos, e a gente sempre dá um jeito de voltar a ser feliz" "é também um povo de uma raça que não tem medo de fumaça, e não se entrega não".

"É o nosso povo que nos faz pensar!" "Ninguém mais quer ser boneco. Ninguém mais quer ser controlado, vigiado, programado, calado, ameaçado" por isso o "tempo do conformismo já passou, não quero guerra, só quero amor.! Não temos armas, chega de horror, troque esse filme de terror" "Do que adianta vocês viverem assim? Ser prisioneiros dentro do seu próprio jardim" "A ignorância nos rodeia, somos levados como um bando de ovelhas guiado por um pastor, movidos por corrupção e trabalhamos feitos coitados - esperando a hora de sermos assados!".

O contexto sócio-histórico-ideológico, (Orlandi; 1999) é parte das condições de produção que fazem parte da exteroridade lingüística. É assim o alto compromisso social que tem o autor tanto com sua historicidade quanto com sua ideologia.

Para esta "brava gente brasileira!" "Brasil é tudo, nada igual nesse mundo" é "gente boa que se preze... Povo reza pra Deus ajudar, povo canta seus hinos, povo vai aprender a falar" "Eu vejo, eu ouço e posso falar mais tenho pouca liberdade me expressar." O "povo brasileiro sofredor com exemplo, enquanto haver a vida haverá esperança."

Coisa que o povo tem e muito é fé "Tudo o que temos é do bom. Tudo que Deus nos deu é um dom" "Tem bumbo, caixa, e tem fé em Deus. Dizem que ele é brasileiro. Mas não manda dinheiro não". Brasileiro "No domingo tem preguiça, vou com fé, eu vou à missa e na segunda ao candomblé";"é essa gente guerreira otimista e festeira que sintetiza a fé e os orixás" "Verde, amarelo, tenho a fé brasileira. Sei o que quero, tenho a minha paixão. Sou brasileiro, sacudindo a poeira. Ainda levando a fé para o coração" É a fé e a esperança que o leva sempre para adiante "não há limites para aquele que quer conquista. Com pessimismo não achará saída. Sai pra lá sai pra lá negativismo que aqui o lado é ativo e positivo" "tece em sua rede a confiança, nunca perde a esperança em ver a sua vida melhorar" E coisa que o brasileiro aprendeu foi a viver de esperança "Nos quatro cantos desta Terra pode-se ouvir alguém chorar são lágrimas de esperança por um futuro que já vai chegar"; "Encara Brasil, não me deixe na mão, eu amo você. Quero sentir teu calor pra que o sol e a liberdade possam ter a esperança perdida de um povo guerreiro que luta por nosso Brasil, um Brasil brasileiro. Se liga Brasil, eu sou brasileiro"; "Pois confiança no futuro nunca pode ser pior que o que passou."

"Um sujeito sempre se expressa a partir de uma posição social. E sempre se expressa através de textos que se conformam aos gêneros. Assim é que nunca se pode desligar o verbal do institucional. Por isso, a Análise do Discurso é bastante sensível à demanda social" (Furlanetto; 2003) O funcionamento das formações sociais está articulado com o funcionamento da ideologia, à luta de classe e às suas motivações econômicas. O músico ao falar desde sua posição social, toma postura desde a sua ideologia e desvenda as diferenças o os problemas sociais. "Passa tempo, passa estrada, passa toda a nação. Seguem iguais as diferenças, quer queira ou não. Corda no pescoço e o coração na mão, acordando de novo pra falta de opção" "Soldado da guerra ao favor da justiça, igualdade por aqui é coisa fictícia" "É uma guerra onde só sobrevive quem atira, quem enquadra a mansão, quem trafica... Quer seu filho indo pra escola e não voltando morto? Então meta a mão no cofre e ajude o nosso povo"

"O caráter histórico da língua está em ser ela um fato social" (Orlandi; 1996; 99) Para realizar esta análise do discurso... foram consideradas o seu contexto social (Orlandi 1996) sem negar a historicidade da linguagem que não pode-se isolar da sociedade na qual se insere. Na busca de produção do sentido é preciso considerar estas questões histórico-sociais. É a voz do próprio escritor que melhor expressa estas relações. "Pátria que me pariu. Quem foi a pátria que me pariu? A criança é cara dos pais mas não tem pai nem mãe Então qual e a cara da criança? A cara do perdão ou da vigança? Será a cara do desespero ou da esperança? Num futuro melhor, um emprego, um lar, Sinal vermelho, não da tempo pra sonhar Vendendo bala, chiclete, Num fecha o vidro que eu não sou pivete Eu não vou virar ladrão se você me der um leite, um pão, um videogame e uma televisão. Uma chuteira e uma camisa do mengão pra eu jogar na seleção, que nem o Ronaldinho Vou pra copa, vou pra Europa..." Com a língua serve não somente pra se expressar senão também para denunciar, para descrever a história, os conflitos sociais. Na busca da produção de sentido é o melhor expoente e o manifesta-se mais alto e claramente.

Há uma relação entre linguagem –enquanto produção social- e sujeito -entendido como uma construção polifônica, lugar de significação, historicamente constituído- que se dá a partir de um trabalho com a ideologia "ao asseverar que não há discurso sem sujeito nem sujeito sem ideologia." (Orlandi; 1996; 13) Alguns exemplos referem-se ao pensamento popular respeito do governo, dos políticos, da corrupção. "Brasil, o país do futebol Brasil, o país do carnaval Por que depois de tantas glorias Ainda há pessoas quem o torne infernal ... E veja que, se não fosse pelos políticos, esse seria um país perfeito. Hoje se não fosse esses ladrões disfarçados, seria muito mais glorificado"; "Tristeza e violência essa é nossa rotina será esse o sistema que preserva nossas vidas, morte por dinheiro e por ambição". "Nós somos povo, Deus, os donos da razão eles são réis, opressores, uma caixa de ilusão se não quiserem dividir o que é nosso, aquele abraço precisamos nivelar tudo por cima, sem esculacho". "Políticos ladrões enganam 170 milhões de brasileiros que não podem escolher" Nenhum sujeito pode separar de sua ideologia, embora se mostre uma face objetivista, na semanticidade do discurso pode se inferir sua ideologia.

Não podemos separar o discurso do seu sentido, temos de ser conscientes que os efeitos de sentido estão colados à formação discursiva –definida a partir de seu interdiscursividade- à formação ideológica e à interpretação. Embora tentemos procurar o seu sentido literal, devemos lembrar que operam como matriz de sentidos, podendo existir mais de um "no caso da indústria cultural, o texto está prenhe de outros sentidos que não a informação, efeitos esses tais como a persuasão, o nivelamento de opinião, a ideologia de sucesso, a homogeneização, etc." (Orlandi; 1996; 119) Por exemplo "Amargo diário brasileiro. A ira ainda é a mesma. Por aí rolam os milhões e as mentiras desses políticos ladrões. É a pôrra do Brasil. Batalhões da ditadura militar, foras da lei do governo parlamentar. Guerra civil, forças armadas, barões da era Vargas, Supremo Tribunal fascista. Presidente bandido, intentona comunista. Congresso nacional fodido. É a pôrra do Brasil. Jango, Barbalho, Geisel, Sarney, Itamar, Collor, Sudene, PT Esse é o nosso protesto, vão se foder FHC, que filho da puta é você! É a pôrra do Brasil. Brava gente brasileira. Longe vá temor servil. É a pôrra do Brasil!" Torna-se difícil perceber o real motivo deste discurso, há questões ideológicas muito mais profundas do que pode-se perceber, por exemplo poderia ser expressado desde uma ideologia nacionalista ou simplesmente desde o inconformismo. Outro exemplo de multiplicidade de sentidos seria a seguinte: "Ao permitir que num país como o Brasil Ainda se obrigue a votar, por qualquer trocado Por um par de sapatos, por um saco de farinha A nossa imensa massa de iletrados."

"Pêcheux afirma que as palavras, expressões, proposições, mudam de sentido segundo as posições sustentadas por aqueles que as empregam, sentidos esses que são determinados, então em referência às formações ideológicas nas quais se inscrevem estas posições." Por exemplo não é o mesmo o discurso de propaganda do orgulhoso brasileiro "O Brasil é tudo, nada igual nesse mundo. Supera essa casa. É futebol pentacampeão. É música que mexe com o coração. É fantasia e emoção. É tudo. Nada igual nesse mundo... Tudo o que temos é do bom. Tudo que Deus nos deu é um dom. Tenha orgulho do Brasil, isso será muito bom. Seja 100% brasileiro. Isso é um dom" ou aquele de protesto. "No peito queimado, trazendo o retrato caboclo nato, a cor do café! Esta terra é de todos um pouco: Brasil caboclo, ele é vosso e é meu!"; "Brasil vai ensinar o mundo a convivência entre as raças: preto, branco, judeu, palestino. Porque aqui não tem rancor e há um jeitinho pra tudo" "Uma esmola pro que resta do Brasil pro mendigo, pro indigente... Se o país não for pra cada um pode estar certo Não vai ser pra nenhum"; "Brasil, um país cheio de riquezas E o povo vivendo na pobreza".

"Hoje pensamos o processo ideológico (segundo Michel Pêcheux) como mecanismo para a produção de um imaginário na sociedade, para a produção de evidências –o que implica valores, crenças, hábitos e rituais, que são partilhados, e por serem partilhados podem motivar a reunião e união de sujeitos para obter certos efeitos" (Furlanetto; 2003) Segundo A. Schaff e citado por Orlandi "a comunicação efetiva, é antes de tudo compreensão... más além de se compreender um enunciado da mesma maneira, para que haja comunicação efetiva é preciso que os interlocutores partilhem as convicções relativas a ele" (Orlandi; 1996; 103) Em parte o êxito obtido pelas músicas de protesto tem a ver com isto, ou seja, as convicções que a população tem em comum e com as quais identificam-se porque as compartilham. "Miséria não! É sempre bom que seja tudo euforia, relevamos todo dia coisas como extermínio e chacina - tudo bem para alguns, a violência trai e vacina - para outros desespero, a vontade de fugir dessa sombra de ruindade proposta no nosso dia-a-dia!"; "problemas que afetam o povo da periferia, que se passa pela sua cabeça quando se está desempregado seus filhos passando fome uma grande família" "Não tinha para onde ir cansado de ser humilhado sua vida chegava ao fim não por usar drogas não por diversão não por bandidagem por obrigação Já não havia tempo pra voltar atrás mudar o destino nunca mais tanta desigualdade tanto preconceito... por tentar e não conseguir, vencer perdido sem saber para onde correr, cansado de esperar esse dia nascer, não vou esperar eu não vou esperar" "Favela que me viu nascer Só quem te conhece por dentro pode te entender"

"O discurso polêmico mantém a presença do seu objeto, sendo que os participantes não se expõem, mas ao contrário procuram dominar o seu referente, dando-lhe uma direção, indicando perspectivas particularizantes pelas quais se o olha e se o diz, o que resulta na polissemia controlada (o exagero é a injúria) " (Orlandi; 1996; 15) "De exemplo em exemplo aprendemos a lição: Ladrão que ajuda ladrão ainda recebe concessão de rádio FM e de televisão"; "A cura da AIDS morreu de fome no interior do Maranhão A cura do Câncer morreu de esquistossomose no interior de Minas Gerais Físicos, músicos, matemáticos sendo salvos da fome pelos caranguejos no mangue Crackolândia São Paulo Futuros empresários viram excelentes traficantes Assaltantes de banco caça seqüestráveis Desvio de verba leva à falta de opção gente boa vira ladrão Prêmio Nobel Brasileiro cheira cola, pede esmola no centro do Rio de Janeiro"; "Os ‘home’ não concorda com o holocausto brasileiro Vive no condomínio, limpa o rabo com dinheiro Quer o sangue do ladrão, bebendo seu whisky Protegido na ilusão, na grade da suíte"; "me deixem comer os restos dos ratos me deixem lustrar as graxas dos seus sapatos nascemos pra morrer feliz de fome nascemos sem se orgulhar do próprio nome"

Segundo Louis Althusser (citado por Furlanetto) a "ideologia representaria uma ‘relação imaginária’ dos indivíduos relativamente a sua existência, e que estaria materializada em aparelhos de controle (tais como a igreja, a escola, o Estado) e em práticas sociais" (Furlanetto; 2003) "Brasil, o país com a maior reserva d'agua do mundo Brasil, o país mais controlado por imundos Apesar do FMI, violência e corrupção Ainda acredito no futuro dessa nação" "A solução é alugar o Brasil! Dar lugar pros gringo entrar Esse imóvel tá pra alugar Os estrangeiros, eu sei que eles vão gostar Tem o Atlântico, tem vista pro mar A Amazônia é o jardim do quintal E o dólar deles paga o nosso mingau"; "No Brasil o crime comanda, e o governo não faz nada. Os traficantes, vendem, compram, matam, tudo pela droga Poder Paralelo no Brasil, acaba com a segurança e a polícia não reage pois está unida ao crime lutando pela grana. As pessoas no mundo só querem dinheiro E a vida pra elas não vale nada" "Dignificando e brigando por uma vida justa. Quem é mais bandido? Beira mar ou Sérgio Naya? Quem será que irá responder Governador, Senador, Prefeito, Ministro ou você? Que é caçado e sempre paga o pato. Erga sua cabeça pra não ser decepado."

"Numa sociedade há relações de classe que implicam certas posições políticas e ideológicas que, por sua vez, incluem formações discursivas interatuantes, e que determinam o que pode o que deve ser dito, considerando certas posições na conjuntura social. É através dessas formações discursivas (não estabelecidas de uma vez por todas) que se pode reconhecer, nos textos, o cruzamento de vários discursos e, ao mesmo tempo, a dominância de um discurso. É no espaço das formações discursivas, atravessadas pela dimensão ideológica, que se reconhece a manifestação de gêneros específicos: sermão, notícia, artigo científico. É também com relação a esses espaços de discurso que se processa o que se chama ‘assujeitamento’ –o condicionamento do sujeito à ideologia e ao inconsciente... os textos sempre dialogam com outros textos, manifestando-se neles a heterogeneidade". (Furlanetto; 2003) "Salve! Salve! Salve! Oh! pátria amada, mãe gentil Poderosos do Brasil Que distribuem para as crianças cocaína e fuzil" Temos neste exemplo uma referência paratextual ao Hino Nacional Brasileiro. "Minha terra tem palmeiras onde sopra o vento forte. Da fome, do medo e muito principalmente da morte" Parafraseando o poema de Gonçalves Dias. "A grana existe pra fazer progresso E o país continua no regresso Cadê a ordem e o progresso Se o Brasil sempre vive no recesso". Cruzamento feito com a frase da Bandeira Nacional. "Boi, boi, boi da cara preta, pega essa criança com um tiro de escopeta"

A história se organiza a partir das relações com o poder e está ligada não à cronologia, mas às práticas sociais. "Em tua história consagrada escreveram páginas de ouro, guias defensores do amanhã, futuros doutorandos do Brasil" "E a história não muda esse vai e vem será que no futuro tudo vai estar bem? Dizem que o futuro esta em nossas mãos atadas por algemas que não podemos ver"; "solidão acabou chegou ao fim, felicidade tem hora ainda há de ser favela, peça em museu de história"

"É a semântica o constituinte crucial do discurso, o qual, no objeto de análise, se dá como efeitos de sentido entre interlocutores. Na materialidade discursiva é a dimensão ideológica que institui em seu centro a historicidade, marcando trajetos de sentido" (Furlanetto; 2003) É conhecido que a ideologia via de mãos dadas com a história, salvo, talvez nos governos militares onde como a história não podia se deter, era detida a ideologia. "Nas favelas, no Senado Sujeira pra todo lado Ninguém respeita a Constituição Mas todos acreditam no futuro da nação Que país é este" "Não caia nessa que já conseguiu Mudar a cabeça do nosso Brasil Quem manda no povo é quem nunca se amou Os nossos direitos viraram favor Quem manda na gente é quem já conseguiu Roubar todo ouro que a gente ganhou Roubaram até nosso estado civil A ordem e progresso sei que acabou A nossa bandeira virou desamor que foi que fizeram com nosso Brasil Já não sei se ele é nosso Mas se não for ninguém viu" "Diante de tantos problemas um ato de expressão é o nosso lema" talvez por ser a música a única ou a melhor maneira de terem o povo brasileiro de se expressar ou seja de manifestar o que pensam.

O contexto sócio-histórico-ideológico (Orlandi; 1999) é parte das condições de produção que fazem parte da exterioridade lingüística. "Realidade dói: segregação, menosprezo é o que destrói. A maioria é esquecida no barraco que ainda é algemado, extorquido e assassinado. Não é moda quem pensa incomoda. Não morre pela droga, não vira massa de manobra, não idolatro a Mauricinho de TV, não deixa se envolver porque tem proceder Pra que? Porquê? Só tem paquita loira. Aqui não tem preta como apresentadora. Novela de escravo, a emissora gosta. Mostra os pretos, chibatadas pelas costas. Faz confusão na cabeça de um moleque que não gosta de escola. Quando for roubar dinheiro público vê se não esquece que na sua conta tem a honra de um homem envergonhado ao ter que ver sua família passando fome ‘Ordem e progresso e perdão’. Na terra onde quem rouba muito não tem punição."

A língua por si só cria identidade (Orlandi; 1996; 98). Então pode-se dizer que todo texto é língua em uso e que todo discurso é criador de identidade, motivo pelo qual pode-se afirmar que a música popular brasileira deve ser considerada não tão somente como uma expressão popular senão também como amostra da identidade do povo na qual se insere. "Não temos identidade própria copiamos tudo em nossa volta. Nunca fomos tão brasileiros"; "nossa identidade é nosso lar" A sociedade está condicionada lingüisticamente e as duas estão limitadas pela convenção (Orlandi; 1996; 105) "juntam-se premissas sociais, atitudes, convicções, que fazem parte do ato da linguagem, da comunicação" (Orlandi; 1996; 103) Manifestar opiniões através do gênero musical é aceita pela sociedade como manifestação cultural e é considerada como válida.

O Brasil tem mais a ver aliás do seu futebol, seu carnaval, sua música e suas mulheres.

Tem negro "cabelo crespo, e a pele escura, a ferida a chaga, a procura da cura, NEGRO DRAMA" "Forma de expressar, dignidade ao negro. Esse é que sentiu na pele toda a ignorância e o preconceito. Olhe bem para mim, minha pigmentação não é escura. Ignore minha cor, pense que viemos de uma mistura e contribua!" "Tenha qual for a pele aqui não se repele. É mistura a cor. Venha espantar essa dor. Preconceito aqui não pegou"

Tem índio. "Mas o Brasil vai ficar rico, vamos faturar um milhão quando vendermos todas as almas dos nossos índios num leilão". "Tribos de índios desapareciam e as selvas de pedra se construíam. Revolução industrial e desenvolvimento Começavam a surgir, matando nativos queimando nosso ouro. Por isso que vivemos hoje nesse sufoco Brasil!!! Terra de exploração..." "És no teu berço dourado índio civilizado e abençoado por Deus" "A nossa dor tem sangue negro, índio, branco, e tem você e eu."

Tem favela.... "Mas a necessidade diária cortava mais que o sol e a transação da muamba, meu velho, caiu na mão do menor" "Entendo esse mundo complexo. Favela é minha raiz Sem rumo, sem tino, sem nexo e ainda feliz. Nem sempre a maldade humana está em quem porta um fuzil Tem gente de terno e gravata matando o Brasil" "futuro do país pra poder comer eles te pedem dinheiro na rua você vira as costas e diz que a culpa não é sua esse é o futuro do país pisa neles hoje" "Como pode ser tragédia A morte de um artista E a morte de milhões, apenas uma estatística?"

Tem realidade. "Queria que a vida fosse como a novela jet-sky na praia, esquina moda européia, sem pai de família gritando assalto, sendo feito de escravo com 151 por mês de salário. Quem não enche nem metade do carrinho no mercado, não paga luz, nem água, nem o aluguel do barraco Aqui pro cidadão honesto ter um teto, só pondo o fogão na cabeça invadindo um prédio, saindo na mão com os PM do choque, sobrevivendo ao tiro da reintegração de posse" "Caos Urbano fruto plantado pelo ser humano! Também falta educação, escolas boas pro povão. Alguns hospitais decentes que não discriminem os clientes. Fome e mendigagem (pelas ruas do Brasil) Foi a única imagem (que o Brasil conseguiu)"; "vivem à margem do nosso país assaltando e ferindo quem passa. Tentam gritar do seu jeito infeliz que o país os deixou na desgraça. São alvos de uma justiça que só sabe falar. Será que a solução é exterminar... Mas dar uma esmola não é solução. Eles precisam de cultura e boa alimentação. Porque um povo sem cultura me dá insônia qualquer dia desses voltaremos a ser colônia" "Não tem pão para quem tem fome. Não tem casa para quem não tem teto. Não há emprego para quem quer trabalhar. Não há futuro para quem não tem dinheiro."

Tem vontade: "De dia à procura de comida à noite um lugar pra dormir, carrega no corpo feridas e ainda consegue sorrir. Dizem que o nosso país não vai mal porque o povo ainda faz carnaval" "Necessidade todo mundo passa, qualquer raça, qualquer massa. O português, o gringo, o italiano, o alemão, o índio, o africano. Somos todos os irmãos sob esse céu azul. Nós somos brasileiros" "De justiça e moral. Posso ver um país mais querido, democracia e igualdade" "Tudo em ti nos satisfaz: liberdade, amor e paz. No progresso em que te agitas, torrão de viva beleza, de fartura, de riqueza e de mil coisas bonitas."

Tem um sonho: "Senhor, olha o meu País como é linda a Tua criação. Senhor, nele eu sempre quis ver pulsar o Teu coração. Já posso ver Teu amor se espalhando nesta nação e ver as feridas curadas de um povo sedento do Teu perdão. Senhor, Tua palavra diz: Se o Teu povo se ajoelhar, vier a se arrepender e a Tua face buscar, do céu então ouvirás, nossa terra Tu sararás. Senhor, eu confio a Ti o Brasil, pois eu sei que assim farás. Opera em nós, no meu País"

"A produção de um texto exige certa configuração (gênero) orientada pela coerência semântica e discursiva (sentido), relativamente a certo momento e espaço histórico (situação); um texto traz marcas culturais e envolve um conjunto complexo de formulações subjetivas; sua emergência se dá como uma resposta às motivações que vêm também em forma discursiva (interação), podendo estar associadas às formulações não-verbais." (Furlanetto; 2003) Ao analisar os textos que foram apresentados precedentemente segundo os ângulos descritos por Furlanetto observamos que podemos entender cada discurso como uma peça de teatro, tendo em conta a definição de linguagem; constituem uma unidade de sentido; são objetos lingüísticos e históricos; são objetos de um processo autoral; relacionam-se com outros textos e com a memória dos discursos sociais -interdiscurso; pertencem ao gênero musical.

Concluindo, podemos afirmar que o Brasil não tem cara, tem caras. Toda e cada uma delas mostra um pouco dele. O brasileiro percebe o seu país e seu povo de inúmeras maneiras, tem uma clara visão da realidade, da sociedade na qual se insere e da história e posição que lhe toca viver. Apropria-se da sua ideologia a qual leva na frente. É capaz de retratar seu povo, seus costumes e criticar a sociedade à que pertence. Embora critique o mostre, algumas vezes a realidade nu, tem sempre presente no horizonte a fé em Deus e a esperança de que todo pode melhorar. É como bem diz o dito, eles sabem bem o que é "o jeito de ser brasileiro" e tudo isso é o Brasil.

Tem um Brasil que é próspero outro não muda,
Um Brasil que investe outro que suga,
Um de sunga outro de gravata,
Tem um que faz amor e tem o outro que mata,
Brasil do ouro, Brasil da prata,
Brasil do Balacouchê, da mulata,
Tem o Brasil que é lindo outro que fede,
Brasil que dá é igualzinho ao que pede,
Pede paz, saúde, trabalho e dinheiro,
Pede pelas crianças do país inteiro,
Tem um Brasil que soca outro que apanha,
Um Brasil que saca outro que chuta,
Perde e ganha, sobe e desce,
Vai à luta, bate bola porém não vai a escola,
Brasil de cobre, Brasil de lata,
É negro, é branco, é nissae é verde,
é índio peladão é mameluco, é cafuzo, é confusão.
Brasis (Seu Jorge)

Bibliografía:

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Músicas:

500 Anos (J. Neto Sollo)

500 Anos (Shapiros)

A Cara do Brasil (Celso Viáfora)

A Marcha Fúnebre Prossegue (Facção Central)

Adeus Mariazinha (Alvarenga E Ranchinho)

Aluga-se (Raul Seixas)

Aquarela do Brasil (Ary Barroso)

Brasil (Cazuza)

Brasil (Deserdados)

Brasil (Diante do Trono)

Brasil (Soulfly)

Brasil (Zizi Possi)

Brasil Brasil (Axé-Uaai)

Brasil Pandeiro (Assis Valente)

Brasil Poeira (Almir Sater)

Brasil vai ensinar o mundo (Cazuza)

Brasileiro (Ivete Sangalo)

Brasis (Seu Jorge)

Cantar (Natiruts)

Coisa de brasileiro (Mr. Gyn)

Colônia de Exploração (Bêca Arruda)

Desperdícios (Tianástica)

É a pôrra do Brasil (Bruno Lemos)

Ei Moleque (John Bala Jones)

Esmola (Skank)

Favela (Exaltasamba)

Favela (Tianastácia)

Fé brasileira (Chiclete Com Banana)

Filme de Terror (Nega Gizza)

Futuro do País (Planet Hemp)

Hino da Independência (Hinos)

Hino Sertanejo (Tonico E Tinoco)

Instinto Coletivo (O Rappa)

Isso aqui é uma guerra (Facção Central)

Isso é Brasil (Da Guedes)

Isto aqui o que é (Caetano Veloso)

Kaos Urbano (Pink Mouse Fools)

Luíza (Tom Jobim)

Marginália II (Gilberto Gil)

Me perdoe, Brasil (Timbalada)

Meu Brasil (Ham Cheese)

Não Caia (Mirareggae)

Negro Drama (Racionais Mc's)

Nunca Fomos Tão Brasileiros (Plebe Rude)

Orgulho do Brasil (Spunkados)

Patria que me pariu (Gabriel Pensador)

Peleia (Ultramen)

Poder Paralelo (Inércia)

Que país é este (Legião Urbana)

Riquezas do meu Brasil (Zeca Pagodinho)

Roda Brasil (Plebe Rude)

Samba Enredo 1995 (São Clemente)

Se tu lutas tu conquistas (Somos nós a justiça)

Só Deus Pode Me Julgar (MV Bill)

Sol Da Liberdade (Daniela Mercury)

Sonho Brasil (Novo Tom)

Verde e Amarelo (Roberto Carlos)

Voltar A Ser Feliz (Jota Quest)

Voz do Brasil (Plebe Rude)

 

Claudia María Alejandra Colazo Lloret

claudia_colazo[arroba]hotmail.com

Profesora en Educación Preescolar (Instituto Superior del Profesorado "Antonio Ruiz de Montoya") - Misiones - Argentina

Profesora en Portugués (Facultad de Humanidades y Ciencias Sociales – Universidad Nacional de Misiones) - Argentina

Especialista en Alfabetización Intercultural (Facultad de Humanidades y Ciencias Sociales – Universidad Nacional de Misiones) – Argentina
Maestrando en Enseñanza de la Lengua y la Literatura (Facultad de Humanidades y Artes – Universidad Nacional de Rosario) - Argentina

 
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