A manipulação exercida pela "matrix"

  1. Resumo
  2. Introdução
  3. A realidade construída e os meios de comunicação
  4. As normas e instituições sociais
  5. Realidade social
  6. Ilusão e realidade
  7. A manipulação da "matrix" e a engenharia de produção
  8. Conclusão
  9. Bibliografia

Resumo

A triologia Matrix é uma obra prima do cinema moderno que inquieta milhões de pessoas com as questões filosóficas inerentes a sua trama. Discussões sobre dominação e liberdade, ilusão e realidade, verdade e mentira, consciência e percepção, religião e estilo de vida, ética e tecnologia, formam um emaranhado contextual propício para reflexões sobre a nossa realidade sócio-ambiental na área de engenharia de produção, educação e administração. O presente trabalho pretende fazer algumas reflexões sobre a satisfação parcial de necessidades geradas pelo sistema organizacional para que os empregados sejam controlados mais facilmente.

Unitermos: administração de RH, controle, liberdade, qualidade de vida.

1. INTRODUÇÃO

A triologia Matrix dos irmãos Wachowski foi responsável por uma revolução nas artes cinematográficas, no entanto, transcendendo os aspectos espetaculares e comerciais do filme, ele nos leva a reflexão sobre como se constroem as realidades e o quanto somos manipulados em nossa vida cotidiana.

No filme, a MATRIX é uma máquina inteligente que escraviza a humanidade e a mantém controlada em uma realidade virtual a fim de obter a energia necessária para seu funcionamento, como um parasita.

Em nossa realidade, a escravidão e a manipulação do povo não é uma novidade, nem fruto específico dos modernos meios tecnológicos em si. Afinal, foi o imperador romano Otávio Augusto que criou, ou talvez tenha apenas melhorado e batizado, a famosa política panem et circenses (pão e circo) para pacificar Roma mantendo o povo satisfeito e longe da política.

O Coliseu romano abrigava cerca de 50.000 pessoas e os "jogos", combates de gladiadores e outras carnificinas, não eram apenas diários mas também duravam de sol a sol, ou seja a qualquer hora que alguém fosse ao Coliseu veria um 'espetáculo e com entrada grátis. Obviamente os recursos necessários para isso não eram poucos, porém muito bem investidos, pois enquanto o povo estivesse ocupado vendo os combates não se preocuparia com outras coisas, como uma revolução.

E assim funcionam as coisas até os dias atuais. Mas até onde somos manipulados? Quais seriam os objetivos artificiais impostos pela mídia e quais seriam nossos verdadeiros objetivos?

Cabe agora um conselho de outro imperador romano... Marco Aurélio: "Ocupa-te de pouco para viveres satisfeito. Se eliminarmos a maior parte de nossas palavras e ações, não farão falta, e nos sobrarão mais lazeres e sossego. Deves, por isso, de cada vez, lembrar a ti mesmo: Não será isto uma das coisas dispensáveis?".

Mas ao dar este conselho, ele não estaria manipulando o povo? Querendo ou não toda comunicação tende a manipular as pessoas tentando convencê-las de uma opinião emitida por alguém, porém a verdadeira manipulação é aquela que não lhe dá chance de pensar se está ou não sendo manipulado. E no meio de tudo isso a única posição a ser assumida por um profissional de qualquer área é a de tentar usar isso a seu favor de forma socialmente responsável e ética.

2- A REALIDADE CONSTRUÍDA E OS MEIOS DE COMUNICAÇÃO

Na vida moderna, as pessoas recebem diariamente muito mais informação do que nos séculos anteriores. Entre elas, notícias de lugares distantes, detalhes da vida de celebridades, programas de televisão, anúncios, filmes e imagens que tornam o tempo ocupado pelos assuntos referentes ao autoconhecimento cada vez menor, ou seja, as pessoas acabam por preocupar-se apenas com acontecimentos que não fazem parte de sua vida. Por exemplo, quantas pessoas se preocupam com a situação política do país durante a Copa do Mundo?. As mesmas que se preocupam com ela o resto do tempo. Aquelas que preferem esquecer suas vidas cotidianas para assistir os jogos e viverem a "ilusão" das derrotas e vitórias da seleção, que não influenciam de maneira alguma a sua vida objetiva, geralmente não se preocupam com a política por achar que esta não faz parte da sua 'realidade' cotidiana.

Nesse sentido, a maioria das necessidades e desejos da população moderna lhes foram fornecidos pêlos meios de comunicação que impõe um padrão de vida e felicidade a ser alcançado. E não conhecendo uma outra maneira de viver sua vida a não ser a vista pela televisão, o povo começa a acreditar que esta seja a única maneira. Assim como uma mentira dita várias vezes pode acabar por tornar-se uma realidade.

Portanto, as pessoas acabam por abdicar de sua liberdade deixando-se alienar pêlos meios de comunicação e deixando-se controlar por outras. Dentre os "controladores", estão o governo e as classes sócio-econômicas mais bem providas de recursos, não só financeiros como culturais, que não só conhecem as manipulações da mídia como se utilizam dela.

Em uma empresa há duas maneiras de agir para tirar proveito da "matrix". A primeira seria alienar os funcionários lhe dando o mínimo necessário para satisfazê-los em necessidades criadas pelo próprio sistema organizacional e manipulá-los para que acreditem que sua qualidade de vida no trabalho está evoluindo para que assim sejam mais facilmente controlados, ou seja empregar um política de pão e circo.

A segunda seria dar-lhes apoio e informações necessárias para que se tornassem críticos o suficiente para julgar as situações problema sozinhos e para que pudessem interagir na empresa de maneira mais eficiente, ou seja, um processo contínuo de desenvolvimento de competências técnicas e reflexivas. Porém, muitos preferem á ignorância a ter que se incomodar com assuntos supostamente alheios a sua pessoa como: problemas na empresa, fora de sua área de atuação, esquecendo-se de pensar na empresa como um todo.

3- AS NORMAS E INSTITUIÇÕES SOCIAIS

Inegavelmente, desde que nasce o indivíduo está vinculado, independente de sua vontade, a uma família, a um status social, a uma classe e a um Estado e tem sua existência disciplinada por grande variedade de normas sociais, que já se encontram estabelecidas em seu meio social e que lhe são impostas de forma coercitiva.

Cada indivíduo ocupa na sociedade uma posição ou status social. O nascimento, os conhecimentos que possui, a profissão que tem, o casamento ou a situação econômica que desfruta, reserva-lhe situações sociais e, como conseqüência papéis e funções sociais. E o status determina o comportamento através de normas estabelecidas para as condutas dos indivíduos, fixando direitos e obrigações, produzindo domínio no caso dos governantes e subordinação no caso dos governados.

Portanto, uma característica da convivência social é o controle social, que está geralmente ligado a instituições sociais, sendo estas sistemas organizados de formas de sentir, de agir e de pensar que o indivíduo encontra preestabelecido em seu meio social.

Na medida em que um grupo possui um corpo de normas e de instituições sociais e de controle da ação social mais completo e eficaz, cria-se a 'realidade social deste grupo.

A própria religião impões deveres e estabelece padrões de conduta, aos quais deve-se submeter o homem para conquistar a felicidade eterna, ou seja, a religião controla a conduta dos fiéis. Sendo por isso considerada, segundo Nietszche e Marx, como um meio das classes dominantes subjugarem os mais pobres e oprimidos.

Controle social pode também significar dominação, que se caracteriza pela probabilidade de fazer ser obedecida uma ordem determinada, proveniente de uma parte ativa, endereçada a uma parte passiva, mesmo contra a vontade desta. Ou seja, como diz Max Weber, trata-se da possibilidade que tem um indivíduo de impor sua vontade aos demais membros do grupo, mesmo contra a resistência deles.

Mas não basta à vontade de dominar, para que ocorra a dominação, é necessário à disposição de obedecer dos destinatários das ordens. E que maneira melhor e mais prática de obter a disposição de obedecer dos destinatários das ordens, no dias atuais, do que manipulá-los através dos meios de comunicação em massa?

Os meios de comunicação em massa são responsáveis pela interação constante dos indivíduos com o mundo a sua volta. O jornal, a televisão ou o rádio transmitem conhecimentos, valores, idéias, modos de pensar, agir e sentir, com poder sugestivo tal capaz de formar grupos de opinião pública. Através dos meios de comunicação que se criam e divulgam as modas, bem como os movimentos sociais.

4- REALIDADE SOCIAL

Assim, pode-se dizer que a realidade social de um grupo caracteriza uma forma de aprisionamento externa do indivíduo. Pois este tem sua maneira de pensar e agir disciplinada por normas sociais que lhe são impostas e as escolhas que lhe restam são influenciadas pêlos meios de comunicação em massa.

Antes da globalização haviam maiores choques culturais devido ao encontro de povos de costumes diferentes tendo cada qual sua cultura, moda, costumes e movimentos sociais. E com os choques de culturas era mais fácil a visualização das realidades sociais. Encontrando uma outra 'realidade' torna-se mais fácil entender que a sua 'realidade' não é a única maneira de se viver, o que é difícil de se imaginar quando se foi doutrinado desde o nascimento para viver assim. Porém, os choques culturais entre europeu e ameríndios e europeus e africanos não representaram uma troca de cultura e conhecimento e sim mais imposição e dominação, resultando na cultura basicamente homogênea que conhecemos hoje.

Ou seja, não houve uma troca de cultura e costumes de ambas as partes para obter um conhecimento superior e mais verdadeiro do mundo, apenas a imposição da 'realidade' de uma para a outra.

5- ILUSÃO E REALIDADE

Segundo Immanuel Kant, a aparência do nosso mundo depende de projeções da consciência humana, ou seja, não é a realidade independente que aparenta. E que o mundo de egos separados, independentes e concorrentes em que vivemos deve ser uma ilusão e a realidade um mundo de humanidade partilhada, ou seja, unidade humana e liberdade, onde todo ser humano está destinado a participar da autolibertação da humanidade.

A realidade seria, portanto, o dever de criar o "Maior Bem", que seria a criação de um mundo que combina a liberdade e felicidade. Porém, se isto for apenas ilusão, resta viver sua vida egotista adaptando-se o quanto for possível às circunstâncias externas de sua existência.

6- A MANIPULAÇÃO DA "MATRIX" E A ENGENHARIA DE PRODUÇÃO

Podemos usar o conceito da realidade de Kant como guia na Engenharia de produção, sendo esta nada além de uma administração de sistemas produtivos.

Para alcançar os objetivos dentro de organizações, não podem haver concorrências internas, trabalhar em equipe é uma das ferramentas primordiais e é apenas com espírito de equipe que uma empresa vai conseguir seu espaço no mercado.

Num mercado tão competitivo, em que as mudanças são constantes saber trabalhar em equipe é fundamental e para isso é necessário deixar claro para os funcionários que a empresa e seus colaboradores tem os mesmo objetivos, e que devem trabalhar em conjunto para alcançar o seu "Maior Bem", ou seja as suas metas, pois se a empresa conseguir êxito em suas metas, esta será uma vitória de todos.

E o melhor slogan para qualquer engenheiro-administrador, seria o que James Lawler atribuiu aos indivíduos verdadeiramente livres: "Um por todos e todos por um".

7- CONCLUSÃO

Kant argumenta que "ninguém pode nos salvar exceto nós mesmos" e com toda a razão. Não só dentro de uma empresa, mas na própria sociedade é necessário antes da união pelo "Maior Bem" o interesse de cada um por este.

Mas não basta apenas ter interesse pêlos acontecimentos a sua volta, todos tem que ver o que está errado e se achar no direito e no dever de tentar mudar, sem omitir-se por medo ou comodismo.

Ninguém pode lhe dizer como viver a sua vida sem que você permita, assim como você não pode lutar por uma causa sem entender seus verdadeiros objetivos. Cada um tem apenas que fazer a sua parte, o governo, ou presidência da empresa, não está tão distante assim, portanto não se pode entregar a outros a decisão do seu futuro, ou carreira, sem nem se interessar pelo rumo das discussões.

Utilizando-se a frase de Mopheus no filme Matrix (1999), que diz: "Estou tentando libertar sua mente, Neo. Mas eu só posso lhe mostrar a porta. Você é quem tem que atravessá-la". Pode-se dizer que a porta é uma metáfora para o conhecimento que um indivíduo deve adquirir para poder fazer a sua parte na busca do "Maior Bem".

8- BIBLIOGRAFIA

1. LAWLER, J (2003). Nós somos o "escolhido"? Kant explica como manipular a matriz. In: MATRIX – bem vindo ao deserto do real. São Paulo: Madras.

2. KENSKI, R (2003). Matrix. A realidade é uma ilusão? Revista Super Interessante. São Paulo: Abril, nº 188, p. 38-46.

3. SILVA, J (1994). História Geral. São Paulo: Nacional.

4. GUSMÃO, P. D (1992). Manual de sociologia. Rio de Janeiro: Forense.

 

 

 

 

 

Aline T. Pilla

Graduanda em Engenharia de Produção-UDESC. Joinville-SC, Brasil

Lílian C. Peixe

Graduanda em Engenharia de Produção-UDESC. Joinville-SC, Brasil

João F.S. Santos

Doutorando em Psicologia (educação, saúde e qualidade de vida), Professor do Departamento de Ciências Básicas e Sociais –UDESC. Joinville-SC, Brasil

joao_severo[arroba]ig.com.br

 
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