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É importante destacar que no final do século passado delineou-se uma simbiose homem-máquina, e para este novo milênio anunciou-se uma situação em que será cada vez mais difícil discutir, ou melhor, distinguir a prótese do humano e a parte de carne da máquina.
Esta é, aliás, uma perspectiva radical, no entanto, no mundo tecnológico também circulam teorias apocalípticas, que vêem um grande perigo no homem ramificado em máquinas sedutoras, atribuindo às tecnologias um caráter alucinatório e alucinógeno, como drogas que estão aprisionando o homem em existências virtuais de alta sofisticação de programações computadorizadas, que provavelmente acabará por escapar ao controle humano.
Finalmente, devemos constatar que o homem passa também do espaço das cavernas, às videoconferências , a telemática, à robótica, à realidade virtual e chegam à arquitetura do ciberespaço, menus eletrônicos, cd-rom, etc. e os artistas estão checando o poder das máquinas em modificar nossa existência. Assumimos, então, uma visão mais otimista com relação ao papel do artista na contemporaneidade, pois o que interessa ao artista é essa contaminação do humano com o silício, os neurônios em simbiose com as sinopses nervosas dos circuitos lógico-programáveis, em associações que expandem o humano.
Não é do nível das idéias e dos conceitos que a tecnologia terá os seus efeitos simplesmente; são as relações dos sentidos e dos modelos de percepção, que ela muda pouco a pouco, sem encontrar a mínima resistência.
Acredita-se que só o artista pode enfrentar impunemente a tecnologia porque ele é um especialista em notar as trocas de percepção sensorial. Os artistas estão em perfeita sintonia com as grandes transformações, colocadas ao longo da historia para a condição humana, cabendo então a eles, uma importante missão: revelar os aspectos humanos das tecnologias atuais.
Pois bem, pensar o mundo em sua complexidade e, apresentar através de suas obras uma redefinição do que significa ser humano é um dos grandes desafios da contemporaneidade para a pratica artística. Há que se pensar na instauração de uma nova lógica cultural e social, não mais o homem que se confunde com a máquina, mas aquele que coloca o avanço tecnológico e científico em prol da natureza humana, na intenção de fundar uma nova civilização.
Desta forma, valoriza-se a pessoa em si, enquanto ser potencialmente dinâmico capaz de transcender as limitações que o próprio avanço tecno-científico lhe impõe.
O OBJETO DA NOVA SOCIEDADE: a subjetividade
Com a mundialização dos mercados e as tecnologias da informação e comunicação, o mundo assiste a uma reordenação do capitalismo em escala planetária, configurando-se não apenas como um modo de produção econômica, que vai rompendo cada vez mais as estruturas políticas que lhe limitam os movimentos de expansão e concentração, mas especialmente como um modo de produção de subjetividades em escala mundial.
Tal constituição ou produção da subjetividade, vai muito além da mera divulgação de uma formulação ideológica, de uma intervenção no pano consciente, cognitivo, da conceituação ou representação do mundo. A modelização da subjetividade é realizada, fundamentalmente por uma intervenção sobre o inconsciente, que deve ser entendido como um território aberto por todos os flancos a interações sociais, econômicas, políticas, culturais e de outras ordens, que agenciam comportamentos através de semióticas.
Assim, os sistemas de signos que regem os diversos domínios da vida ficam modelizados sob os códigos do capitalismo globalizado, ou seja, sob os códigos do capital territorializa-se a ética, a política e a economia, modelizam-se a relação dos sujeitos entre si e com os objetos, produzindo-lhes significações, sentidos e códigos de interação.
O mais interessante é notar que não apenas é preciso modelar as subjetividades de uma parcela da população mundial, para que possam produzir sob novos e complexos processos produtivos, operando com tecnologias mais flexíveis, dinâmicas e interativas, mas também é necessário modelar as subjetividades dos que possuem recursos para consumir o produto de determinada empresa e não de sua concorrente.
Para vencer uma empresa concorrente ou para distinguir uma mercadoria de outra, signos são produzidos a fim de sobrecodificá-las, criando uma identidade própria. Capturam-se as mercadorias sob signos e através de mecanismos comunicativos constroem-se imaginários em que tais signos desempenham papeis que afetam as paixões, desejos e outras intensidades movendo o consumidor a adquiri-los.
Assim, um mesmo produto de uma mesma marca é vendido na maior parte do mundo e, em cada país. Manipulam-se subjetividades para que este produto seja desejado e consumido, modelizando signos de culturas particulares que são capturados sob linguagens universalizantes que os reterritorializam. A aquisição do signo mercadoria faz girar o capital e possibilita o lucro.
NOVO MILÊNIO: novas responsabilidades para o artista?
Na contemporaneidade, ou melhor, neste novo milênio, de acordo com as afirmações anteriores, o artista convive paradoxalmente com realidades distintas, uma relacionada ao mercado, poder econômico; outra ao poder político e por último, mas, não menos importante, aos meios digitais de produção e divulgação do trabalho artístico.
Temos consciência que falta muito para chegar a saber o que se pode conseguir com a arte na busca de uma nova sociedade, sabemos ainda que a arte não pode substituir a política como meio de transformação social, mas o fato de ser uma atividade diferente não que quer dizer separada, pois ela apesar de não se estabelecer enquanto fato estritamente político, no sentido de que não produz com efeito a tomada do poder, seus diversos procedimentos de representação das relações sociais, podem possibilitar analógica e simbolicamente a transformação do sistema social.
O sentido mais radical da arte socializada é o de produzir, em vez de espectadores, atores críticos: em vez da cartasis ou do inconformismo, uma imaginação capaz de tentar ações eficazes
Desde Brecht sabemos que diversão e conscientização não têm razão para se oporem, que aprendizagem critica e participação emocional, fruição artística e eficácia política podem ser parte de um mesmo ato. Sua exigência de que a arte seja simultaneamente, capaz de divertir e de produzir uma imagem do mundo encontrou formas exatas nas experiências de Augusto Boal.
A arte não é só resultado de seus condicionamentos. É evidentemente agente de transformações, um foco de criatividade e de iniciativa social. A atividade artística pode contribuir também para ampliar o campo do possível, não tanto pela sensibilidade delicada de indivíduos excepcionais, mas por participar dos avanços mais prosaicos da tecnologia e da vida social.
É fundamental destacar que a re-ação da arte sobre a sociedade não é, integralmente, do mesmo caráter dos condicionamentos que a sociedade exerce sobre ela. A ação da arte, como toda ação transformadora procura ir além das leis, eis o que a distingue de outro modos de transformação, pois ela procura mudar a realidade em parte, para participar da marcha da história e, em parte, pelo simples prazer da invenção.
Nessa concepção, a tarefa do artista em geral não se reduz à elaboração de objetos ou mensagens – obras – para o consumo passivo dos espectadores; seu trabalho consiste em produzir situações nas quais se tenta, com a participação ativa de todos, uma transformação das relações sociais.
Com isso, ao abolir as divisões entre o instrumental e o agradável, entre o fantástico e o real, entre a forma e a função, os artistas contemporâneos afirmam que sua tarefa não é idealizar uma realidade demasiado brusca, mas sumarizar alguns ideais demasiadamente ilusórios.
A redefinição do intelectual, formulada por Gramsci, é útil para precisar esse novo conceito do artista e de sua situação social, de acordo com ele todos os homens, qualquer que seja a sua ocupação, deve enfrentar diariamente problemas que lhes exigem uma concepção de mundo e uma revisão da conduta que a expressa.
Nesse sentido, para Gramsci, um dirigente sindical é um intelectual porque conceitua de modo critico a experiência de sua classe, de seu grupo. Se nos apropriarmos dessa idéia para redefinir o conceito e o papel do artista, desvelaremos a importância de sua contribuição para o processo de mudança ou transformação social.
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