As perspectivas da comunicação alternativa na era da informação digital

 

 

Abstract

A difusão das novas tecnologias em comunicação, verificadas a partir da década de 90, tornou possível uma nova participação das pessoas no cenário da comunicação social. Se até aquele momento havia uma relação passível diante dos diferentes veículos de comunicação, foi com a expansão do uso da internet e com a relativa facilidade de acesso a aparelhos celulares, câmeras digitais, transmissores de rádio, máquinas de impressão, copiadores de CDs, entre outros, que está sendo possível desenvolver novas relações com estes veículos. Isso favoreceu com certeza o uso da comunicação alternativa e seu poder de ação. Ela tem participado ativamente de diversos processos de luta contra o corporativismo empresarial no mundo e contra ações de caráter imperialista de alguns países. Somente através da exploração desses avanços tecnológicos foi possível, por exemplo, o surgimento do movimento anti-globalização e suas diferentes manifestações desde meados da última década. Apesar de sua indefinição concreta de propostas e objetivos enquanto movimento, os anti-globalizadores têm oferecido grande resistência ao processo da globalizatório defendido por grandes multinacionais e por diversos governos de países ricos. As formas como essas pessoas têm encontrado para driblar o foco da grande mídia, enquanto produzem e difundem suas idéias com o uso dos recursos disponíveis de mídia. Dessa forma, elas ativam táticas de uso da comunicação alternativa e criam novas relações do público com a mídia em geral, buscando maior democracia nos processos históricos e agindo com maior independência quanto aos interesses das classes dominantes.

Palabras clave:
 
· agitador/dinamizador socio-tecnológico
 
· democracia digital/electrónica
 
· globalización
 
· medios de comunicación
 
· software libre

O ambiente midiático nos fins do século XX

Os avanços tecnológicos na área da comunicação verificados a partir da década de 90 trouxeram novas possibilidades de relacionamento e interação entre os homens. A fácil disponibilidade de veículos com relativo baixo custo, como a Internet, aparelhos celulares, câmeras digitais, transmissores de rádio, máquinas de impressão, copiadores de CDs, entre outros entre outros inventos, tornaram a comunicação social mais flexível, dinâmica e, principalmente, acessível. Isso refletiu diretamente nas relações do homem com o homem e do homem com o mundo.

Já no início do século XXI, observa-se uma queda na hegemonia das grandes corporações midiáticas que durante o século passado dominaram o cenário mundial com a massificação da cultura. Em artigo publicado no dia 19 de setembro de 2004 na Folha de S. Paulo, a coordenadora adjunta da Escola de Comunicação e Artes da UFRJ, Ivana Bentes, afirma que a cultura digital pós-industrial em todo o planeta vem pondo em cheque o capitalismo nacional e monopolista, deslocando de forma radical a idéia de uma "identidade nacional", fossilizada e arraigada, em nome de uma ‘diversidade’ cultural bem mais complexa, perturbadora e nômade que todo o velho ideário nacionalista. Ela observa que redes de cooperativas, coletivos de toda espécie, produtores independentes "têm a real oportunidade de participar na produção da comunicação em nível local, regional e global".

As imposições da ideologia capitalista burguesa e do consumismo desenfreado não findaram, nem estão perto de terminar. Mas a possibilidade de difundir e produzir cultura, arte e tecnologia a nível global surge como ponto crucial no rompimento dessa hegemonia corporativista, que está ligada quase sempre aos ideais de uma minoria rica e com poder. Exemplo disso, é o movimento anti-globalização que teve início em meados da década passada, que "tem elaborado uma nova gramática no repertório das demandas e dos conflitos sociais, trazendo novamente as lutas sociais para o palco da cena pública e a política para a dimensão pública -tanto na forma de operar, nas ruas, quanto no conteúdo do debate que trouxe à tona: o modo de vida capitalista ocidental moderno e seus efeitos destrutivos sobre a natureza" (Gohn, 2001, pg. 07)

É nesse ambiente que, em meados da década de 90, artistas, ativistas e hackers de todo o mundo começaram a pensar em mecanismos capazes de cada vez mais destituir a força da mídia corporativista. Reunidos em festivais de arte, em manifestações públicas ou virtais, em salas de bate-papo na Internet e nos Fóruns Sociais e outros atos públicos, passaram a trabalhar sob o conceito de "construa sua própria mídia", questionando a informação de massa e sua contribuição para o sedentarismo cultural e ideológico-dominante.

Em nossos países, a televisão mostra o que ela quer que aconteça; e nada acontece se a televisão não mostrar. A televisão, essa última luz que te salva da solidão e da noite, é a realidade. Porque a vida é um espetáculo: para os que se comportam bem, o sistema promete uma boa poltrona. (GALEANO, pg. 148)

É nesse ambiente que aparece o termo mídia tática, empregado pela primeira vez pelo artista plástico polonês Krzystof Wodiczko e cujo conceito deriva do livro "A Invenção do Cotidiano", de Michell de Certeau. De acordo com um texto publicado por Tatiana Wells e Ricardo Rosas, membros de um grupo ativista brasileiro, no site CMI (Centro de Mídia Independente), esse conceito pode ser entendido como uma forma de manifestação através dos recursos utilizados pelos meios de comunicação de massa, em produções independentes que permitam a crítica deles mesmos, enquanto meios de comunicação. Seria "a conquista, pela atual facilidade técnica e acessibilidade a equipamentos, dos meios tradicionalmente usados para a comunicação de massa, tornando-os críticos de si mesmos".

Comunicação no século XX: persuasão vertical e diálogo horizontal

No livro Comunicação e Sociedade, Luis Ramiro Beltrán afirma que os estudos de comunicação vistos ao longo de século XX se basearam no princípio aristotélico da "retórica", segundo a qual a comunicação humana "compunha-se de três elementos: locutor, discurso e ouvinte percebendo o seu propósito como ‘a busca de todos os meios possíveis de persuasão’". Essa visão sobre a comunicação levou estudiosos do segmento a encararem o processo comunicacional de forma unilateral e persuasiva, ou seja, traduzindo este conceito para o mundo bipolarizado das décadas pós-Segunda Guerra Mundial, até a década de 90, o processo comunicativo baseava-se num modelo vertical, no qual a fonte, ao enviar o seu discurso ao receptor, pretendia persuadi-lo. Dessa forma, a dominação exercida pelos países desenvolvidos sobre os países em vias de desenvolvimento, assumida como política e econômica até a década de 70, foi pela primeira vez interpretada sob o aspecto cultural, isto é, da dominação ideológica através dos veículos de comunicação.

A definição tradicional de comunicação descreve-a como ato ou processo de transmissão de mensagens de fontes a receptores através do intercâmbio de símbolos (pertencentes a códigos compartilhados por ambos) por meio de canais transportadores de sinais. Neste paradigma clássico, o alvo principal da comunicação é o propósito do comunicador de afetar, numa certa direção, o comportamento do receptor: deseja produzir certos efeitos sobre a maneira de sentir, pensar e agir do receptor; ou, em outras palavras, persuadi-lo. (BELTRAN, 1981)

Como o texto indica, quem detiver o poder econômico dos meios de comunicação de massa exercerá influências político-ideológicas sobre a maior parte da população, permitindo a manutenção de seu poder. Para contrapor essa visão verticalizada da comunicação, Beltran chama a atenção para os estudos realizados na América Latina sobre o assunto, após a década de 70, principalmente quanto aos estudos de Juan Diaz Bordenave, que critica a maneira conservadora e elitista que os pesquisadores de até então impuseram ao estudo da comunicação.

O que ocorre seguidamente sob o nome de comunicação é pouco mais do que um monólogo dominante em benefício do iniciador do processo. A retroalimentação não é empregada para proporcionar a oportunidade de diálogo autêntico. O receptor das mensagens é passivo e está submetido, uma vez que quase nunca se lhe dá a oportunidade adequada para atuar também como verdadeiro e livre emissor; seu papel consiste em escutar e obedecer. (BELTRAN, 1981)

A partir daí, a análise de Beltran se volta para os estudos latino-americanos que acompanharam a teoria do professor brasileiro Paulo Freire, desenvolvida sobre a maneira como a educação tem sido exercida no mundo contemporâneo. "Sua compreensão da educação como instrumento de libertação para as massas da opressão das elites trouxe-lhe o exílio de seu país na metade da década (de 60)", lembra Beltran. Segundo ele, "Freire encetou uma grande crítica à educação tradicional como instrumento de dominação cultural das maiorias pelas elites conservadoras".

Freire critica o modelo educacional tradicional, que vê o professor como detentor do conhecimento e único capaz de transmiti-lo aos "ignorantes", ou seja, aos estudantes como um mecanismo da elite conservadora no poder para dominar e oprimir ideologicamente a população. Dessa forma, como ele explica, os oprimidos podem esperar subir na escala social existente, desde que aprendam bem a lição que lhes foi imposta. "Nenhuma pedagogia verdadeiramente libertadora pode permanecer distante dos oprimidos, tratando-os como desafortunados e oferecendo-lhes modelos forjados pelos opressores. Os oprimidos devem ser seus próprios exemplos na luta pela redenção", afirmava Freire. Surge então, o conceito de uma educação voltada para o aprendizado mútuo, na qual o aluno aprende com o professor e este com o aluno.

Os estudos de Paulo Freire foram assimilados pelos pesquisadores latino-americanos, que propuseram um modelo horizontal na comunicação, em que a retroalimentação, ou seja, o diálogo, existe. Esse modelo pretende enxergar a comunicação de uma maneira mais democrática, cujo propósito deve servir ao aprofundamento do conhecimento humano e não mais à dominação pela persuasão.

Comunicação é o processo de interação social democrática baseado no intercâmbio de símbolos, mediante os quais os seres humanos compartilham voluntariamente suas experiências sob condições de acesso livre e igualitário, diálogo e participação. Todos têm o direito à comunicação com o propósito de satisfazer suas necessidades de comunicação por meio da utilização dos recursos da comunicação. (BELTRÁN, 1981, PG. 31)

A comunicação passa a ser vista sob o enfoque do acesso, do diálogo e da participação, inerentes à necessidade do ser humano.

Discordando em parte de ambas as visões teóricas, este trabalho pretende mostrar como a expansão e difusão da tecnologia digital tem possibilitado uma terceira análise para o estudo da comunicação. Dessa vez não mais sob perspectivas verticais ou horizontais, mas intervencionistas, em que os agentes têm a possibilidade de participar e produzir sua própria informação e veículo de mídia, corrompendo muitas vezes o discurso adotado pelo corporativismo midiático e até com as bases do capitalismo.

Contra-hegemonia e mídia alternativa no século XXI

O teórico norte-americano John D. H. Downing, em seu livro "Mídia Radical", relaciona o estudo da mídia alternativa ao uso em movimentos de transgressão a modelos políticos, econômicos e culturais hegemônicos ou dominantes. Lembra ele, que não se trata apenas de considerar a mídia alternativa como modelo de oposição a esses sistemas, pois sempre existe uma alternativa a algo. Downing retrata experiências de mídia alternativa das mais diversas e em vários momentos da história humana, mas principalmente depois das Revoluções Francesa e Industrial. Sua busca é feita através de propostas de comunicação que demonstraram oposição, ou melhor, subversão a modelos estabelecidos, como as lutas dos escravos pela liberdade nas Américas, o movimento feminista no ocidente, os movimentos pacifistas nos EUA contra a Guerra do Vietnã, a resistência das Mães da Plaza de Maio na Argentina, o black power nos EUA, entre inúmeros outros. Downing considera para seu estudo não apenas os tradicionais meios de comunicação como a televisão, o rádio, ou o jornal impresso, mas também uma gama de mecanismos criados para servirem como forma de resistência e luta e de demonstração de descontentamento ou abuso. O teatro, o grafite, os folhetins, a panfletagem, o vídeo, o vestuário, a fotografia, as intervenções de rua, manifestações públicas, greves, entre outros, são alguns deles. Também não deixa de considerar a importância da Internet para o cenário político, cultural e econômico da atualidade, lembrando o poder que esta tem como veículo de transformações sociais e como mídia alternativa radical.

O papel da mídia radical pode ser visto como o de tentar quebrar o silêncio, refutar as mentiras e fornecer a verdade. Esse é o modelo da contra-informação, que tem um forte elemento de validade, especialmente sob regimes opressores e extremamente reacionários. (...) Nesses cenários, a mídia radical tem a missão não apenas de fornecer ao público os fatos que lhe são negados, mas também pesquisar novas formas de desenvolver uma perspectiva de questionamento do processo hegemônico e fortalecer o sentimento de confiança do público em seu poder de engendrar mudanças construtivas. (DOWNING, 1990)

O estudo de Downing traz uma análise bastante válida para o cenário da comunicação atual. Com certeza o poder da produção de mídia e os questionamentos que ela provoca nunca estiveram ao alcance de um número tão grande de pessoas no mundo todo. O fenômeno vem ocorrendo na comunicação em escala global, enquanto os recursos tecnológicos que o reforçam são modificados a cada dia principalmente pela indústria digital. Mas apesar do caráter mercantilista e consumista que isso possa ter, não se deve desprezar as contribuições que os softwares livres, os programas de compartilhamento de arquivos multimídia, a própria pirataria de mídias, entre outros, trazem para o fim do monopólio intelectual e de mercado. Esses e outros exemplos demonstram o fim das fronteiras entre a informação de massa (monopolizada), as informações alternativas produzidas independentemente do funcionamento da indústria cultural, e sua difusão global.

Apesar da dominação econômica que as principais empresas do setor midiático, ainda exercem sobre o mundo, é notória a colaboração dos novos recursos tecnológicos para a participação ativa e coletiva das pessoas, a quem a produção midiática era antes negada. Isso tem possibilitado um novo olhar sobre a comunicação humana, os caminhos que ela percorre e seus objetivos.

A recente invasão dos Estados Unidos da América (EUA) ao Iraque na gestão George W. Bush é um exemplo disso. Parte da mídia brasileira voltou sua atenção para um fato novo entre as guerras passadas, a divulgação de notícias sobre a guerra em blogs, chats e correios eletrônicos. No dia 06 de dezembro de 2003, o jornal "Folha de S. Paulo",, publicou uma reportagem intitulada "A Anne Frank de Bagdá", contando a história de um jovem iraquiano que, através de um blog (abreviação de "weblog", um diário virtual) transmitia notícias para o mundo sobre o que estava acontecendo durante a invasão americana. Através do site intitulado "O Blog de Bagdá" e assinado por um tal Salam Pax ("paz" em árabe e latim), este jovem afirmava ser iraquiano e residente em Bagdá e usava o blog para contar suas impressões pessoais sobre a guerra. Segundo a reportagem, esse blog foi maciçamente acessado em todo o mundo durante o conflito e "com a guerra, passou de curiosidade de poucos a fonte fundamental de informação para muitos, não a informação estritamente jornalística, mas a do dia-a-dia daquele povo invadido, tão em falta na maioria dos meios naqueles momentos", cita a reportagem.

"O Blog de Bagdá" funcionou, portanto, como um instrumento atípico da comunicação em tempos de crise. De acordo com a matéria, foi somente em junho de 2003 (a invasão teve início em março daquele ano), que o jornalista Peter Maass, da revista eletrônica Slate, aparentemente desvendou o mistério acerca de Salam Pax. O jornalista da Slate informava que Salam era um arquiteto iraquiano, de inglês perfeito, que estudou em Viena e havia trabalhado como seu guia no Iraque durante a invasão. Mass comparava o jovem arquiteto com Anne Frank, a menina judia que deixou suas impressões sobre a II Guerra em um diário, hoje mundialmente conhecido, enquanto se escondia da perseguição nazista. Salam Pax ainda não revelou seu nome, mas publicou um livro recentemente lançado no Brasil pela Companhia das Letras, intitulado "O Blog de Bagdá", no qual faz uma transposição dos seus textos no meio eletrônico.

Uma outra perspectiva de encarar as possibilidades que essas novas tecnologias trouxeram para a vida de hoje, são as manifestações que ocorreram na Europa (mais tarde também em outras partes do globo), durante a década de 90. Grupos de pessoas, interessadas em desmistificar a credibilidade dos grandes veículos de comunicação, realizaram atividades com o intuito de denunciar a abordagem sensacionalista desses veículos sobre os fatos. Em 1994, um grande número de cartas assinadas por cidadãos indignados por terem achado entranhas de animais em lugares públicos, chega aos jornais de Bolonha na Itália. Os restos de animais, segundo as cartas, eram encontrados invariavelmente em ônibus e parques públicos. Um jovem ator de teatro chega a simular um ataque de convulsões em que se estripa, deixando sair de dentro de sua camisa o intestino de um bezerro, nas ruas do centro histórico da cidade. Semanas depois, "enquanto as cartas e as sinalizações continuam sem parar, jovens ligados à organização católica Comunhão e Liberação encontram nos jardins de seu centro um cérebro de bezerro e um coração suíno pendurados em um anzol, com um cartaz misterioso com a escrita: "Novosibirsk está queimando!"

E assim nasce o fenômeno que os jornalistas batizaram de ‘horrorismo’. Páginas e páginas de crônicas locais são preenchidas por pareceres de notórios docentes de história da arte, sociólogos, psicólogos, e outros virtuosos". (BLISSET, 2000)

Após cerca de três meses de polêmica acerca do assunto, um tal Luther Blisset disponibiliza uma reconstrução completa sobre os acontecimentos. O "horrorismo" não existiu, a não ser os dois fatos acima descritos. "As cartas publicadas nos jornais, que relatavam os achados das entranhas na cidade eram todas falsas, escritas pelos próprios horroristas".

O personagem Luther Blisset surgiu na década de 90 como forma de criticar os meios de comunicação de massa. Era considerado um homem-múltiplo, sem personalidade fixa e que pode ser utilizado por qualquer pessoa (ou grupos de pessoas) para se manifestar de maneira artística e política contra os meios de comunicação e seus princípios mercantilistas e alienantes. É, assim, um nome que permite aos usuários se manterem incógnitos enquanto uma figura mítica é responsabilizada pelos atos. Luther Blisset se torna um ícone na Europa e é responsabilizado por diversas outras ações contra a mídia. É, segundo o livro Guerrilha Psíquica, supostamente escrito por ele, um guerrilheiro midiático, que utiliza fórmulas de guerrilha para combater o poder sensacionalista dos meios de comunicação de massa.

A difusão das mídias e as alternativas de mercado

Além desses exemplos, muitos outros podem ser citados como prática alternativa de comunicação. É necessário, portanto, verificar como os avanços tecnológicos estão influindo nessa produção de mídia alternativa e como essa produção pode afetar o monopólio midiático no mundo e todas as consequências que sua massificação cultural legaram ao mundo. Num exemplo bem explícito da preocupação que essas grandes empresas têm tido com relação à produção de mídia independente, foi o aviso que o vice-presidente mundial de Vendas e Marketing da empresa Microsoft Corporation, Kevin Johnson, deu ao governo brasileiro quanto a substituição de sistemas proprietários de software, como o Windows, para softwares livres, como a plataforma Linux, nos sistemas de serviços públicos do país. Johnson defendeu que o uso de softwares livres impediria o crescimento econômico no país, um dos principais objetivos do então governo de Luiz Inácio Lula da Silva para o Brasil. Lembrou ainda que os softwares livres não remuneram seus programadores e não incentivam o desenvolvimento de tecnologias que possam ser exportadas. Entretanto, o desejo de utilizar tecnologias livres nos serviços públicos brasileiros já estava sendo estudada há muito pelo Banco do Brasil e pelo Ministério da Fazenda, pois isso reduziria gastos consideráveis nas despesas com o pagamento de licenças para empresas que desenvolvem os softwares, como a Microsoft.

A preocupação da Microsoft é evidente. Como principal fornecedora de tecnologias de computadores para o mundo todo, a empresa teme que o exemplo brasileiro se torne uma tendência entre os setores públicos de diversos outros países. Mas vale lembrar que os softwares livres possuem grandes vantagens sobre os softwares proprietários, pois são criados em plataformas abertas em que qualquer pessoa com o conhecimento necessário, pode elaborar mudanças e desenvolver novos mecanismos na plataforma original. Ou seja, é possível se personalizar as mudanças e ainda transmiti-las a outras pessoas que achem aquilo interessante. Assim, os avanços no software original acompanham tendências e necessidades em nível local, regional e global, funcionando em rede de cooperação, rompendo com os inconvenientes do mercado como a produção em larga escala, o preço, os mecanismos de distribuição, a presença de impostos, as cobranças de direitos autorais e a limitação de uso.

Conclusão

Como tentamos demonstrar, os parâmetros de estudo crítico da Comunicação vistos até o século XX, não são suficientes ainda para explicar as muitas mudanças que ocorreram nessa área, desde a última década. Se o século XX foi considerado um século de grandes avanços científicos em diversos aspectos, mudando consideravelmente a vida e as relações entre as bilhares de pessoas no mundo, o que aconteceu na sua última década em termos de comunicação foi muito maior, pois criou possibilidades de que qualquer pessoa no mundo se conecte com um simples toque de botão, com outras pessoas em qualquer parte do mundo. Nesse sentido, vale a pena ressaltar que o poder exercido pelos detentores do poder econômico e político no sistema capitalista, tem sofrido perdas consideráveis em alguns aspectos. Dentre eles, com certeza, está a possibilidade de autonomia na veiculação de informações. É preciso lembrar também que essa autonomia ainda é muito tímida e que, se há real intenção dos povos em construir sociedades mais justas, iguais e humanas, é imprescindível que essa autonomia se estenda (ou pelo menos esteja ao alcance) em todas as pessoas do mundo. Assim sendo, os modelos educacionais que (pelo menos no caso brasileiro é assim) se baseiam em parâmetros hierárquicos de saber, devem trabalhar cada vez mais no sentido da inclusão digital de seus membros, mas numa inclusão livre, baseada na espontaneidade e na criatividade individual, como pretendia Paulo Freire em seus estudos. Ou seja, devem deixar de lado a hierarquia e funcionar como mediadores do saber, pois na sociedade da informação, dificilmente caberá a verdade absoluta e irrevogável.

Além disso, é importante verificar como as alternativas de mídia que estão sendo criadas paralelamente ao processo de produção capitalista, estão influenciando a produção cultural no mundo. Essa influência já é verificada na preocupação de empresas ligadas ao desenvolvimento de softwares e hardwares no mundo todo, além de gravadoras, produtoras de cinema, emissoras de rádio e TV, editoras de livros, jornais, entre outras. A produção independente de mídia, mesmo quando se trata de uma simples cópia pirata de filmes e músicas, possibilita o rompimento com o principal intermediador cultural do mundo capitalista: o dinheiro.

BIBLIOGRAFIA

· BELTRAN, Luis Ramiro. Comunicação e sociedade. Ed. Cortez

· BLISSETT, Luther. Guerrilha Psíquica. Ed. Baderna, 2000.

· BORDENAVE, Juan Diaz. Comunicación y Desarrollo. Barquisimeto, 1974.

· DOWNING, John D. H. Mídia Radical. Ed. Senac São Paulo

· FREIRE, Paulo. Pedagogia do oprimido.

ARTIGOS

· WELLS, Tatiana e ROSAS, Ricardo. O que é mídia tática. Disponível em: http://prod.midiaindependente.org/pt/blue//2002/11/42506.shtml. Acesso em: 25/11/03.

· DORETTO, Juliana. Blogueiros escrevem do front e páginas boicotam produtos dos EUA. Folha de São Paulo, 02/04/2003.

· BENTES, Ivana. O Estado Novo da Cultura. Folha de São Paulo, caderno Mais! 19/09/2004

· GOHN, Maria da Glória. De Seattle a Gênova: uma radiografia dos movimentos antiglobalização. Folha de São Paulo, caderno Mais! 27/01/2002

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