Geografia:
Textos, Contextos e Pretextos para o Planejamento Ambiental (*)

Partes: 1, 2, 3

  

Belarmino Mariano Neto (1)

 

 

O velho mágico de cabelos brancos e curtos sorriu, escondido atrás de sua expressão enigmática. Virou o rosto, como em câmara lenta, para o belo chapéu na mão esquerda. Piscou-me o olho e, em meio a uma explosão de luz, tirou minha alma, a qual gentilmente me devolveu. (Autor desconhecido)

 

Uma representação da Terra em riscos, o espaço geográfico em toda sua dinâmica cultural, sócio-econômica, ideológica e política. O meio ambiente enquanto uma questão do agora, os geossistemas e a natureza em cheques ou em xeque nos coloca diante da necessidade de aprofundamentos em nossas pesquisas e ações diretas. O Grupo terra nasce da preocupação em iniciar jovens universitários da Universidade Estadual da Paraíba - Campus de Guarabira, na arte do fazer ciência com consciência e compromissos terrenais.

 

RESUMO

Este livro foi produzido de forma objetiva para atender ao curso de especialização em Análise Ambiental da Paraíba, promovido pelo Departamento de Geociências e Departamento de Geografia da UEPB, campus III em Guarabira. Como trabalhei com a disciplina de planejamento e análise ambiental, apresento aqui um conjunto de pequenos textos que englobam desde as questões locais do meio ambiente paraibano, até preocupações ambientais de conotação global. O trabalho se divide em seis capítulos.

Inicialmente voltados para a questão do método e das preocupações epistemológicas da ciência geográfica e áreas de afinidade. É um trabalho que chama a atenção para os cuidados com o uso das palavras ou expressões. Em especial as relativas ao meio ambiente.

Esse trabalho Vaz uma análise do atual estágio de desenvolvimento da sociedade de consumo e as crises ambientais instaladas a partir dos avanços do sistema capitalista. Para finalizar apresento um capítulo especificamente sobre a organização do espaço geográfico paraibano na perspectiva do planejamento ambiental.

 

1. Iniciais

Belarmino Mariano Neto1

O tempo é você que se espalha em chamas e ardente(mente) cria expectativas para o NADA. Os homens tecem suas teias e formam um telhado de arranha(céus) que arranha(mente) e mentirosamente os tornam viúvos da trama que se constrói, em que os atores são autores da autodestruição construtiva alucinada(mente) perdida no espaço de um temp ESFÍNGICO. Rápida, sorrateira explode umageográfica caótica e sem ponto de partida. É o caleidoscópio, a complexidade das formas simples, a incerteza em todos os sentidos.

O caleidoscópio, espaço tridimensional construído a partir de três lâminas de vidro espelhadas, postas em oposição, (re)produzem ilusórias imagens. Colocados cacos de vidro coloridos, miçangas e outros fragmentos, sem ordem de distribuição, estes representam o caos, a completa desordem, mesmo limitados a cônico espaço de reduzidos diâmetros. Mas se movimentamos este cilindro, observando a posição dos fragmentos, notamos uma verdadeira ordem universal, ou seja, o cosmo em um vitral harmônico, mesmo sabendo que o mecanismo é pura geometria euclidiana.

Em diversas salas de aula, trabalho a partir deste espaço de contradições, percebo o quanto a sociedade tem de caleidoscópio em sua composição e o quanto a natureza é puro calesdoscópio em fractais multicoloridos. As relações ou comportamentos parecem caos, cosmos. Isto é, (des)ordem. A sociedade humana, apresenta um trivium de sustentação individual e coletiva que é estruturado em Pensamento- Sentimento-Vontade. Por mais que tente-se controlar ações e estudar reações desse controle, deparamo-me com a incerteza. O paradigma da complexidade incerta, colocando as ciências bastante distantes do (ir)real.

Dependendo do grau da lente de observação, embaça-se completamente a vista.

A sociedade/natureza é caleidoscópio em cacos multicoloridos, pluraridade. Por mais que tenha-se o domínio dos mecanismos para mover o caleidoscópio, é ele quem sempre estabelece que combinações de cacos e cores aparecem ao olhar de seu manipulador. Complica-se ainda mais, quando aparecem alguns para afirmarem que o mundo total chegou, com essa nova fase do capitalismo simulacro, no qual, ciência, tecnologia e informação se fundem e massificam um espaço de idéias e de concrectudes enfumaçadas, mas, no reverso, as particularidades se mostram cada vez mais fortes, testemunhando que a diversidade é a destruição do mono. A massificação vem causando um mal estar capaz de mudar radicalmente a cara do que hoje parece ordem nova. e chegar a conclusão anárquica que, será dos pequenos grupos de afinidades que se construirá um grande mundo, são alguns dos ideais que persigo todos os dias.

Todos os textos, contextos e pretextos aqui expostos resultaram dos Cursos de: graduação, especialização, mestrado, pesquisas e leituras feitas ao longo de minha vida acadêmica e profissional realizadas especialmente no âmbito da Universidade Federal da Paraíba, Campus I, João Pessoa, na Universidade Federal de Campina Grande e em outros espaços de trabalho como a Universidade Estadual da Paraíba, na qual estou trabalhando.

O mais importante nesse trabalho é que, apesar de estar assumindo esta fisionomia ou composição, na verdade é como um caleidoscópio multicolorido, em que os pequenos fragmentos de vidros coloridos vão dando diferentes formas. As imagens aqui arranjadas poderiam se apresentar de outras maneiras caso outros tivessem o manipulando mais diretamente. As imagens mais próximas do que aqui aparecem resultam das divergências e convergências de opiniões "colhidas" do (con)viver acadêmico com pessoas (amigos de cursos e profissão, professores e alunos) que direta ou indiretamente se envolveram com minha vida e que estão presentes nestes fragmentes sobre geografia, regionalização, gestão territorial e ambiental.

Estes fragmentos são o resultado de um trabalho "forjado em metais" que confrontam o acadêmico com a realidade vivida no cotidiano de um espaço que se faz geográfico pela intervenção dos homens em sociedade. São textos os mais diversos que trabalham temas como o meio ambiente, as questões do território, do Estado, dos espaços urbano, rural, e as questões sócio-econômicas, culturais e políticas, além de algumas propostas de gestão e planejamento ambiental para lugares específicos do território paraibano.

Além do que chamo texto ou pretexto, reproduzo em anexo alguns resumos interpretativos ou por tópicos, especialmente os que tratam de questões sobre o Estado, Questão Agrária e o Consenso de Washington, abordados pelos professores Ivan Targino, Emília de Rodat e Ana Madruga, durante o curso de especialização em Gestão Territorial.

Este trabalho pode ser fotocopiado para fins individuais de estudo. Nesse sentido, venho destacando em cada capítulo, autoria e fontes bibliográficas que reuni como principal interlocução teórica de monodiálogo direto. Autores, sem os quais seria difícil construir tais textos.

 

2. A Geografia e o Planejamento Ambiental

Belarmino Mariano Neto

Pensar a ciência geográfica nos dias atuais, passa pela compreensão dos diferentes estágios de desenvolvimento da sociedade humana em sua direta relação com a natureza. Quatro elementos fundamentam o conhecimento geográfico: Espaço, Tempo, Sociedade e Natureza. Estes são bases para a construção material e formal da ciência geográfica.

O espaço geográfico é representado como sendo a relação espacial que processa a interação entre os elementos da paisagem natural ( meio físico ou ambiental) e os elementos da paisagem humana (meio sociocultural, político-econômico e técnico-informacional)2. Este como uma construção histórica da sociedade em suas diversidade, contradições, consensos e conflitos. Para realizar seus estudos e práticas científicas, o geógrafo colhe dados e informações para suas análises através do sensoriamento remoto e aerofotogramentria; trabalhos e pesquisas de campo para o estudo do meio; levantamentos estatísticos; análise de mapas e cartas topográficas; entrevistas, questionários, relatórios de pesquisas e reflexões do seu olhar geográfico que apontem para uma geografia fenomenológica e da percepção. O estudo da geografia cultural a partir de diferentes elementos como religião, herança cultural, experiências comunitárias e tradições que marcam a organização dos povos, são essenciais para um estudo de geografia em sentido amplo.

O Tempo é aqui pensado como processo continuo de transformações ritmados pela dinâmica sócioeconômica, técnico-científica e informacional categorizados pela história e cultura humana na natureza. O tempo é pensado também nos ritmos da natureza e em seu quase que completo atropelamento pela lógica de tempo tecnológico do humano. Tempo enquanto idéia de compartimentação, fragmentação, rapidez e fluidez em constante metamorfose (SANTOS, 2001:80-83).

A sociedade como todo o complexo de relações humanas, conflitos, convergências, valores e atitudes de indivíduos ou comunidades que associam ou desassociam segundo interesses ou pressões, disputas e controles estabelecidos pelo poder político estabelecido pelos grupos, aceitos ou contestados ao longo dos eventos de cada sociedade. Esta enquanto uma construção histórico-cultural e política. As marcas cotidianas e as idéias de cidadania em lugares e vazios territoriais representados pelo artifício do poder, técnica e dominação. A sociedade, a comunidade e o indivíduo enquanto marcas e desafios para a cooperação, solidariedade e utopias.

A natureza enquanto idéia de vida sistematizada em elementos bióticos e abióticos que interagem num constante fluxo de energia em infinitas possibilidades de desenvolver a vida ou a não vida. A natureza cientificamente pensada em grandes e pequenos sistemas que se constróem a partir dos elementos fogo, ar, água e terra e estes se manifestam em diferentes estados e combinações até atingirem o estado biológico em múltiplos estados e formas. A natureza pensada como suporte físico dos vários fenômenos geográficos, ecológicos, biológicos, geológicos, hidrológicos, fitológicos e químicos. Que serve como princípio elementar da ciência dos humanos. As dimensões tempo/espaciais manifestadas em elementos da natureza e a possibilidade de teorias calcadas em sistemas, geossistemas, ecossistemas. Estes não apenas enquanto ordenações, mas também como desordem, complexidade, acaso, destruição, estagnação e teoria das catástrofes. (ATLAN, 1992:184).

Um grande número de pessoas, contudo, desconhece as várias aplicações da geografia em diferentes atividades humanas, e, na medida em que se torna cada vez mais complexa a evolução, a dinâmica e a organização do espaço geográfico em escala regional e mundial, o geógrafo deve ser solicitado cada vez mais a contribuir no seu planejamento, pois ele é o especialista que tem a visão global e particular das múltiplas interações do espaço.

O profissional em Geografia é peça chave na análise e planejamento ambiental. Dentre as diversas formas de atuação do geógrafo, é importante chamar a atenção para algumas delas:

A análise das relações entre as atividades e sistemas econômicos, sociais e culturais na relação com o meio ambiente. É fundamental compreender as ações da sociedade e seu modelo de desenvolvimento econômico no conjunto dos fenômenos que se processam na zona de contato entre as massas sólidas, líquidas e gasosas do planeta em que a sociedade exerce um forte papel de transformadora das condições naturais dessa ecosfera socialmente transformada.

A responsabilidade no mapeamento de recursos naturais, demográficos, transportes, industriais, comunicações e energéticos. A cartografia e os recursos tecnológicos modernos dão base para que o profissional em Geografia possa subsidiar informações precisas ao planejamento ambiental.

Quanto a organização do espaço geográfico, divisão político-administrativa e gestão territorial em escala local, regional e macrorregional. As diferenças e valores políticos que marcam a complexidade do globo.

Estágios diferentes de desenvolvimento, disputa ou cooperação são elementos que o geógrafo utiliza na análise dos arranjos espaciais.

Análise do papel dos investimentos e intervenções no meio ambiente: públicas, privadas, nacionais e internacionais. Muitos são os interesses na apropriação e exploração da natureza. Na maioria dos casos, os impactos aos ecossistemas afeta o patrimônio natural de forma irremediável. Quando ocorre um investimento lucrativo, representando desenvolvimento econômico e progresso tecnológico sem planejamento, as populações do presente, as gerações futuras e o meio ambiente estão comprometidos em seus êxitos de continuidade. O Especialista em geografia tem papel relevante na análise das políticas internacionais, nacionais, regionais e locais. Compreender as direções e dinâmicas da complexidade humana representa criar condições científicas e técnicas para melhor gerir o território.

Um exemplo é o planejamento urbano. A cidade representa o mais forte espaço das interações humanas. Um sistema eminentemente cultural, extremamente marcado pelos interesses e valores econômicos.

O urbano, edificado em suas várias esferas estabelece valores econômicos, políticos, socioculturais que variam em função da infraestrutura.

A cidade vive a constante metamorfose do espaço mercadoria em todos os seus arranjos. Nos dias atuais existe uma grande preocupação em torno das questões do ambiente urbano. O planejamento urbano, o código urbano e funções urbanas. Os problemas da cidade e o conhecimento aprofundado dos mesmos, pode representar uma alternativa de gestão desses espaços de forma mais racional, como a cidade se tornou no espaço privilegiado das ações humanas, sua organização em escala ampliada passa pelo olhar geográfico.

O administrador de uma cidade que não conta com planejadores geógrafos em suas equipes administrativas, pode dar muitos passos errados. Os avanços da geografia na produção científica que enfoca o espaço urbano é sem sombra de dúvidas significativa. Não querendo diminuir o papel de outros agentes do urbano como arquitetos ou engenheiros. Estes conseguem produzir na visão escalar da prancheta o projeto da habitação e construção em geral. Muitos destes arquitetos projetam áreas inteiras e até cidades que serão depois ocupadas. Ao geógrafo cabe analisar os arranjos espaciais do urbano na escala real ou cartográfica de uma cidade, uma zona metropolitana, ou uma região inteira. Eminentes geógrafos, no mundo todo dedicaram décadas de estudo cotidiano da cidade. Milton Santos é um dos maiores produtores de analises e reflexões para compreender o espaço urbano e seus diferentes estágios.

O meio ambiente e o desenvolvimento são nos dias atuais duas questões de interface para todas as ciências. São duas forças antagônicas: o desenvolvimento econômico e a preservação ambiental. Processos como industrialização, urbanização e crescimento demográfico, degradação e poluição ambiental disputam o espaço limitado da terra e da natureza. Os ecossistemas naturais, sistemas agrícolas e sistemas urbanos são focos de diferentes estudos.

A Geografia tem importante papel na análise e planejamento ambiental. O geógrafo é indispensável na elaboração de avaliações de impactos ambientais (AIA, EIA OU RIMA)3, consistindo no estudo do funcionamento dos diferentes geossistemas terrestres e das formas de utilização desses sistemas pelas atividades das sociedades e economias humanas.

A gestão territorial e ambiental, seja em escala privada ou estatal, deve contar com a participação do profissional em geografia. O atual modelo de desenvolvimento econômico adotado em escala global, reflete os valores culturais da indiscriminada exploração do patrimônio natural e cultural estabelecido pelas diferentes civilizações. Sem sombra de dúvidas, o capitalismo foi (e estar sendo) o sistema econômico que mais modificou o espaço geográfico. Tanto em velocidade tempo/espaço, quanto em destruição dos sistemas naturais e de sociedades consideradas nativas em territórios da África, América, Ásia e Oceania.

O papel da geografia enquanto ciência moderna nos primeiros estágios do capitalismo (comercial/mercantil e industrial/imperialista), foi servi de base técnica e científica para consolidação do sistema e seus interesses nos vários territórios ocupados internacionalmente. Na busca de "espaço vital"4 e consolidação do imperialismo capitalista, as marcas despreocupadas de exploração das florestas tropicais, escravidão (genócidio/etnocídio) dos povos nativos e acumulo crescente de riquezas na Europa e América do Norte (EUA/Canadá), deixaram um saldo contaminante de pobreza e destruição global. A submundialização5 convive lado a lado com o desenvolvimento. Países pobres acumulam elevadas taxas de pobreza (IDH/ONU – Índice de Desenvolvimento Humano). Países descapitalizados, dependentes econômica e tecnologicamente, tentam acessar o mercado com os recursos naturais e de solo (agropecuária) que ainda restam em seus territórios (petróleo, gás natural, carvão mineral, outros minerais e vegetais). Para gerar alguma infra-estrutura urbana ou rural recorrem a empréstimos internacionais, comprometendo suas balanças comerciais e a frágil soberania nacional.

Empresas estrangeiras (multinacionais ou transacionais) estabelecem relações de produção em diversos territórios do globo. Um princípio norteia estas empresas, lucro fácil e rápido. Assim conseguem mão-de-obra e matéria-prima baratas e abundantes; mercado consumidor em estágio de crescimento; recursos energéticos; facilidade no envio de lucro para a matriz do capital investido; facilidades fiscais ou tributárias e leis ambientais que frouxas ou que não sejam cumpridas efetivamente. São verdadeiros paraísos para as ações do capitalismo monopolista em sua trajetória global.

Estes são apenas alguns argumentos de compreensão geográfica. O conhecimento geográfico é a base para qualquer avaliação, perícia ou planejamento ambiental.

Mesmo sabendo que nem sempre, o conhecimento geográfico agrada os agentes investidores ou exploradores da natureza e da sociedade. Isso talvez justifique que não existe um reconhecimento do papel do geógrafo, pois este reconhecimento pode comprometer os interesses e as decisões do Estado ou empresas em suas ações e práticas de poder.

Tanto os currículos universitários como a legislação vigente habilitam o GEÓGRAFO a atuar nas seguintes áreas:

1. Planejamento Ambiental

  • Elaboração de Estudos e Relatórios de Impacto Ambiental ( EIA’s, RIMA’s );
  • Avaliações, pareceres, laudos técnicos, perícias e gerenciamento de recursos naturais;
  • Plano e Relatório de Controle Ambiental ( PCA e RCA );
  • Monitoramento Ambiental.
  • 2. Meio Físico
  • Caracterização do meio físico;
  • Planos de recuperação de áreas degradadas;
  • Estudos e pesquisas geomorfológicas;
  • Climatologia; bacias hidrográficas, ambientes de represas;
  • Cálculo de energia, elementos fitogeográficos e pedológicos.

3. Cartografia

  • Mapeamento Básico;
  • Mapeamento Temático;
  • Cartografia Urbana;
  • Delimitação do espaço territorial municipal, distrital e regional;
  • Cartas de declividade e perfil de relevo;
  • Cálculo de áreas; transformação e cálculo de escalas; locação de pontos ou áreas por coordenadas geográficas;
  • Interpretação de fotografias aéreas e imagens de satélite;
  • Geoprocessamento e cartografia digital.

4. Hidrografia

  • Delimitação e Plano de Manejo de Bacias hidrográficas;
  • Avaliação e estudo do potencial de recursos hídricos;
  • Controle de escoamento, erosão e assoreamento dos cursos d’água.
  • Recuperação de encostas, margens e nascentes, etc.

5. Planejamento

  • Planos diretores urbanos, rurais e regionais;
  • Cadastro técnico urbano e rural multifinalitário;
  • Ordenamento territorial;
  • Elaboração e gerenciamento de cadastro rurais e urbanos;
  • Implantação de gerenciamento de sistemas de Informações geográficas ( SIG );
  • Estruturação e reestruturação dos sistemas de circulação de pessoas, bens e serviços;
  • Pesquisa de mercado e intercâmbio regional e interregional;
  • Delimitação e caracterização de regiões para planejamento;
  • Estudos populacionais e geoeconômicos.

6. Turismo

  • Levantamento do potencial turístico;
  • Projeto e serviços de turismo ecológico (Identificação de trilhas, hospedagem, meios de transportes, riscos, cuidados, etc.);
  • Gerenciamento de pólos turísticos.

7. Instrumental e Método de Trabalho

O Geógrafo acrescentou ao seu tradicional método de trabalho, que compreende a pesquisa de campo e a análise em gabinete, uma série de avançados instrumentos técnicos: fotografias aéreas, imagens de satélites, software de Geoprocessamento, Sistema de Informações Geográficas, Bancos de Dados e Cadastros Multifinalitário, bem como o uso do GPS/DGPS (Sistema de Posicionamento Global Via Satélite). Além de outros meios que são comuns as ciências sociais e humanas.

Se o profissional caminha com ética na precisão dos seus laudos ou perícias em estudos ambientais, ele compromete os interesses racionais, descarta as facilidades, exige mudanças nos planos de intervenção do meio ambiente. Reconhecer o geógrafo enquanto profissional indispensável no planejamento ambiental fará uma grande diferença para o futuro do planeta e da própria humanidade.

 

Bibliografia

  • ARRUDA, Arlete Aparecida H. e ALMEIDA, Mª. Eliete. Desastres Naturais. Canoas R.S.: ULBRA, 1995.
  • ATLAN, Henri. Entre o Cristal e Fumaça. Rio de Janeiro. Jorge Zhar editor, 1992.
  • BÉGUERY, Michel. A exploração dos oceanos. São Paulo: Difel, 1979.
  • BOFF, Leonardo. Ecologia Mundialização Espiritualidade. São Paulo: Ática, 1993.
  • BOOKCHIN, Murray. Por uma Ecologia Social. Rio de Janeiro: Utopia, nº 4, 1991.
  • CARLOS, Ana Fani Alessandri. Espaço e Indústria (Coleção Repensando a Geografia). São Paulo Contexto / EDUSP, 1988.
  • CASTRO, Iná E. GOMES, Paulo C. C. e CORRÊIA, R. L. (Org.). Explorações Geográficas. São Paulo: Bertrand Brasil, 1997.
  • CHAUI, Marilena. Convite à Filosofia. São Paulo: Ática, 2000.
  • DIEGUES, Carlos Antônio. O Mito Moderno da Natureza Intocada. São Paulo: HUCITEC, 1996.
  • FERNANDEZ, Fernando. O Poema Imperfeito – Crônicas de Biologia, Conservação da Natureza e seus Heróis. Curitiba: Ed. Da UFPR, 2000.
  • FERRY, Luc. A Nova Ordem Ecológica. A árvore, o animal, o homem. São Paulo: Editora Ensaio, 1994.
  • FILHO, Ciro Marcondes. Sociedade Tecnológica. São Paulo: Scipione, 1994.
  • FREIRE, Roberto. A Farsa Ecológica. Rio de Janeiro: Editora Guanabara, 1992.
  • GONÇALVES, Carlos Walter Porto. Os (Des)caminhos do Meio Ambiente. São Paulo: Contexto, 1996.
  • KRISHNAMURTI. Natureza e Meio Ambiente. Lisboa/Portugal: Edições 70, 1992.
  • LENOBLE, Robert. História da Idéia de Natureza. Lisboa/Portugal: Edições 70, 1990.
  • MARIANO NETO, Belarmino. Ecologia e Imaginário -memória cultural, natureza e submundialização. João Pessoa: Editora Universitária/UFPB, 2001.
  • MAY, P. H., MOTTA, R. S. (org.) & outros. Valorando a Natureza. Análise econômica para o desenvolvimento sustentável. Rio de Janeiro: Campus, 1994.
  • MORAES, Antonio Carlos Robert. GEOGRAFIA Pequena História Crítica. São Pulo: Hucitec,1991.
  • RODRIGUES, Edigar. O Homem em Busca da Terra Livre. Rio de Janeiro: VJR - Editores Associados, 1993.
  • RYBCZYUNSKI, Witold. Vidas nas Cidades – expectativas urbanas no novo mundo. Rio de Janeiro e São Paulo: Record, 1995.
  • SANTOS, Milton. Por uma geografia nova. São Paulo: Hucitec, 1986.
  • SANTOS, Milton. Espaço e Método. São Paulo: Nobel, 1985.
  • SANTOS, Milton. Espaço e Sociedade. Petropólis: Vozes, 1992.
  • SANTOS, Milton. Por uma outra globalização – do pensamento único à consciência universal. RJ/SP: Record, 2001.
  • SANTOS, Milton. A natureza do espaço: técnica e tempo – razão e emoção. São Paulo: Hucitec, 1997.
  • SANTOS, Milton. Natureza e sociedade Hoje: uma leitura geográfica. São Paulo: Hucitec, 1997.
  • SANTOS, Milton. Ensaios de Geografia contemporânea (Org. Ana Fani). São Paulo: Edusp, 2001.
  • SANTOS, Milton. O BRASIL – Território e Sociedade no Início do Século XXI. Rio de Janeiro e São Paulo:Record, 2001.
  • SCARLATO, Francisco Capuano e Joél Arnaldo Pontin. Do Nicho ao Lixo - ambiente, sociedade e educação. São Paulo: Atual Editora, 1992.
  • SOUZA, M. A. de. SANTOS, Milton. SCARLATO, F. C. ARROYO, M. O Novo Mapa do Mundo – Natureza e Sociedade de Hoje: uma leitura geográfica. São Paulo: Hucitec/Anpur, 1997.
  • SOUZA, M. A. de. SANTOS, Milton. SCARLATO, F. C. ARROYO, M.. Problemas Geográficos de um Mundo Novo. São Paulo: Hucitec-Anpur, 1995.
  • SERRES, Michel. O Contrato Natural. Lisboa: Instituto Piaget, 1990.
  • VERNIE, J. O Meio Ambiente. Campinas, SP: Papirus, 1994.

 

3. A Que se Reduz a Ciência? das coisas as palavras.

Belarmino Mariano Neto

Ponto de Partida

... As palavras são o veículo obrigatório na transmissão dos conhecimentos. Através delas, as gerações vão-se transmitindo os seus erros e verdades, os primeiros mais que os segundos. Imitadores uns dos outros, não acertamos a empregar na luta mais que as mesmas armas de nossos contraditores. Com palavras pretendemos destruir o império das palavras.(MELLA: 79-80).

Este trabalho é fruto de uma calorosa discussão sobre as problemáticas do fazer científico, ocorrida no curso de Lógica e Crítica da Investigação científica, ministrado pela professora Maristela de Oliveira, no Curso de Pós-Graduação em Desenvolvimento e Meio Ambiente.

O objetivo é fazer um resgate de alguns fragmentos das questões abordadas na sala de aula, coisa que geralmente não ocorre e em muitos casos são levados pelos ventos do esquecimento, perdendo-se nos muitos caminhos da academia e corredores da "ciência", sem o devido valor de contributo a ser coletivizado "ou não".

Para transformar os fragmentos de discussão em uma corrente contextualizada, me ative a algumas leituras extra-classe, anelando alguns pensamentos e dando uma versão particular ao tema colocado.

Será utilizado o mundo infantil do aprender e do brincar, no qual se desafia com metáforas as imposições de um mundo pré-pensado e que vai sendo absorvido pelos espíritos infantis dos futuros cientistas, aqueles que comandarão os centros de pesquisas da humanidade em todos os seus níveis e áreas.

Entender ou pensar a ciência em sua atual estrutura, passa por considerar todos os elementos sócio-culturais, filosóficos, políticos e econômicos que engendraram o desenvolvimento da humanidade no desenrolar de sua história. Como as relações homens/homens/natureza/homens permitiram as sociedades avançarem em seus fazeres/aprenderes civilizatórios.

Este texto questiona o tempo todo, não se dá por satisfeito e chega ao extremo de duvidar da ciência instituída. Colocando as instituições científicas em sua maioria, enquanto postos avançados de uma sociedade autoritária e desigual, tendo nesse sistema do fazer conhecimento, um dos meios de reprodução ideológica e manutenção do poder e das idéias nas mãos de uns poucos. Muitas vezes acredita-se estar cumprindo-se os papeis de "pensador, pesquisador", e se atento, logo nota-se como mero (re)produtor dos valores e idéias instituídos.

Esta produção se propõe enquanto metáfora, demonstrar o quanto as palavras podem esconder em seus signos a real significância das "coisas", isto é, os que ensinam por que não sabem constrõem homens quiméricos, egoístas e sem pontos de partida, ao passo que os que sabem, fazem e no fazer se constrói no dia da consciência, a cons(ciência) de cada um. Por reconhecer a importância do fazer científico no ensinar/fazer/aprender, colocando algumas UTOPIAS para reflexões e ações que apontem para a ALTERATIVIDADE do fazer (cons)ciência.

 

Brincando com o Sagrado

O homem ainda menino e já brincava com os segredos do fogo, brinquedo sagrado que tornava "Deus enquanto homem imortal e o homem enquanto Deus mortal"6. Assim podem ter sido seus primeiros passos no brincar de evoluir, brinquedos de pedras. Teoítas7 fantásticos na arte/técnica de polir e unir madeira, cipó e outros adereços da natureza para um melhor se divertir no ato do primitivo viver.

Com sua moleque pedrada o humano vai quebrando as vidraças do desconhecido e mesmo desprovido de razão plena, ensaia gritos de guerra e planos riscados nas paredes do morar das pedras sobre pedras. São os primeiros mapas mentais, riscos e rabiscos das trilhas a serem trilhadas. Seguir os caminhos do sol e brincar de caçar ou ser caçado pelas leis da selva.

Do brincar de se esconder pelas cavernas escuras, assim também eram as suas entranhas do não explicar as imagens e sonhos em constante movimento. O escuro aprisionava no humano criança a sua vontade de ver a noite. Logo, este se voltava para sua chama interior, coletivizada na fogueira do centro da caverna. As palavras disformes davam lugar a outras expressões e signos de comunicação. Da carne chamuscada, a luta pelo melhor pedaço, dos ossos e pedradas nas cabeças nasceram os risos8, todos filhos do trágico e do medo. Assim desabrocharam os andaluzes para florear o futurismo dos técnicos da destruição.

No filme a Guerra do Fogo, o diretor consegue de forma sutil nos mostrar que o primeiro ato de desenvolvimento da civilização humana em relação aos diversos graus de conhecimento das tribos ou bandos, quando ainda bandos ou tribos das cavernas ou dos pântanos, vai ser no encontro desses grupos, os choques culturais e a expressão do riso. Arte expressa no combinar das pessonas desconhecidas. O sorriso marca a fisionomia dos primeiros latejos de pensamento. O riso nasce das diferenças, e da despreocupação, os filhos do medo e do (des)conhecido se esqueciam do medo quando começavam a sorrir, ou quando algo de trágico os afetavam. O brincar de mascaras, o pintar as pedras paredes da caverna e o ato de se pintar vão despertando no primata a construção mental dos signos. Daí para a organização das idéias para as palavras só alguns passos a mais. A saga humana vai sendo construída nos encantos com o fogo que ao queimar e aquecer via escrevendo em brasas o destino dessa raça de animais que caçam na infantil escuridão imagens incompreendidas.

A caverna e seus entornos era um imenso universo único verso de uma poesia com sons desconexos. O verbo ainda não se fazia carne humana, mas mesmo sem verbo a criação já tinha poderes em meio as trevas do desconhecido mundo dos humanos/animais. O Sagrado ainda era segredo e do segredo guardava-se instintivamente os fios do medo e o controle das chamas. O fogo apagava as trevas para queimar a noite e criar sobras. Luz e sombra é um alimento para depois da caça, a sombra que nasce da luz impressiona os animais humanos, filhos do escuro nascem para o fogo e passam a brincar de deuses.

Pensar crianças brincando nas cavernas, pedras, ossos, folhas, insetos, pedras, ossos. Brincar é o primeiro ato de criação, ensinar brincando, brincando de conhecer. Como seriam as primeiras crianças que habitavam as "cavernas" humanas? As primeiras formas de aprender buscadas no erro e na curiosidade? Os feitiços virando contra os feiticeiros, as porções mágicas dessa divina raça que quando não matava curava. Arte e magia a flor da pele, humanos espiritualmente amadores.

São muitas as tentativas de reconstituição e descobertas dos primeiros humanos. Os escritos sobre a possível forma de vida primitiva abundam as bibliotecas do moderno mundo das idéias, e em meio as tantas descobertas predominam as histórias adultas do trabalho em pedras e guerras pelo fogo. O fazer infantil dos primatas ainda encontra-se sagrado em algum lugar das várias camadas etno-geológicas de vários pontos da terra. Enquanto isso brincar é preciso e é uma das coisas mais sérias no fazer de uma criança. Assim é a (cons)ciência, muito jovem e com todos os direitos de errar.

 

Passos contrários na lógica do fazer científico

A academia enquanto locus do saber, é no fazer moderno um dos espaços que se pretende enquanto organizadora de meios para uma compreensão da realidade. A linguagem e a lógica racional científicas permitem as poucos da academia tal entendimento, em especial para aqueles que foram moldados (formados ou colocados na forma) desde cedo a absorver alguns valores como verdadeiros. Os humanos desse tempo foram crianças. Se foram e perderam essa qualidade, precisam entender que não aprenderam os mistérios do fogo, não se queimaram no brincar de "toca" 9. É como não ter história nem experiência para contar. Sendo assim, como criar e transformar a realidade?

Toda ciência seria supérflua se o real fosse transparente. As crianças aplicam no brinquedo toda sua sensibilidade sem duvidar daquilo que é dado, daquilo que é aparente. Brincando, ela nega o empirismo comum nos adultos. aquilo que é, não é. Um carrinho não é apenas um carrinho; uma boneca não é apenas uma boneca.

É tudo aquilo que sua imaginação quiser. As crianças com sua refinada sensibilidade percebem desde cedo que os dados imediatos representam tão-somente uma das dimensões do real, mas não são o real. A descoberta do real é uma viagem que vai muito além do mundo das aparências. No brinquedo, o empirismo dos significados óbvios e visíveis não é capaz de contentar as crianças. elas querem sonhar, exercitar todos os sentidos com seus brinquedos e, junto a eles, explorar, sentir e conhecer o mundo. Tudo merece o envolvimento infantil. O brinquedo é capaz de revelar, assim, muitas das contradições existentes entre a perspectiva adulta e a infantil. Negando o significado aparente do brinquedo, a criança nega também a interpretação adulta do brinquedo.(OLIVEIRA, 1984: 9)

O aguçar a curiosidade, o contato com os desafios do mundo, as viagens pela imaginação, o moldar e dar formas aos diferentes elementos que podem se transformar em brinquedos. O simples ato de quebrar um brinquedo na tentativa de mudanças, leva a criança a elaboração ou contato com o fazer. No ato "destrutivo", a (des)construção, que muitas vezes é duramente recriminada pelos adultos, demonstra uma relação diferente entre a criança e o adulto na compreensão real do brinquedo e da vida. No dizer de (BAKUNIN, 1986:128) "A desordem, ou a ordem livre", é fundamental para qualquer pensamento, sentimento e vontade. Assim é o fazer infantil, um fazer que sabe, e que dispensa o ensinar de quem não sabe. A ciência do linguajar difícil se afasta do real e tenta com palavras construir esse tempo, essa lógica consegue apenas simulações aceitas enquanto códigos de valores instituídos.

Do brinquedo as brincadeiras, do objeto individualizado ao brincar coletivo, tudo isso é uma constante no aprender. Nas brincadeiras, as crianças fazem suas próprias regras ou entram em contato com várias regras e práticas de convívio social. É nesse momento de contato com as regras que o poder ideológico vai organizando sua ação de alienação ou consciência no que estar por vir. O brinquedo que até o momento aparecia como um elemento apenas para brincar ganha nova versão no processo de construção das identidades e concepções de mundo.

A indústria da destruição faz tudo igual e em série. Os brinquedos perdem sua identidade mas mesmo assim fascinam, é uma grande fábrica de sonhos que ensina as crianças quais são os primeiros passos para o consumo. Do osso, galhos e pedras, artesanatos para brincar, que se têm em fase de desaparecimento, importantes momentos da história dos homens artesões, que brincando com alguns elementos da natureza faziam suas formas de encantar crianças, em um mundo cheio de fantasias realmente mágicas, em que o real e as imagens em ação se misturavam.

Será que ainda somos as mesmas crianças que brincávamos como os nossos pais? Somos as cavernas ou as cavernas somos nós, nossos pais e nossos avós? Levado mais uma vez ao pensar nas cavernas e nos "pequenos primatinhas". É uma distância muito grande, mas como é possível brincar com as palavras e com os pensamentos, mesmo correndo todos os riscos das imaginadas aventuras. Ao ponto de poder pensar no mundo humano enquanto macro, brincar com os elementos da natureza para construção de carros, manequins, viadutos, vidas e mais.

Brincar de construir cidades e fazer guerras, brincar de ser natureza e fazer agricultura, brincar de civilização e fazer cultura. Até chegar a macro-física do poder para não mais poder brincar, pois só uns podem. Ou melhor, resta no lúdico mundo das idéias o brincar de bandidos e heróis para na construção das leituras das histórias em quadrinhos, a representação da realidade. As imagens projetadas nas telas ou na TV conformam espectadores que se virtualizam. Personagens da antigüidade, medievais, mitológicos e andróginos lutam nos games, dando vida as mãos e mentes mais ágeis de crianças e adolescentes. Armas superpoderosas e cenários fantásticos completam cenas recheadas de sonoplastia e adrenalina com poucos movimentos corporais de cada jogador e forte stress cerebral, emocional e ou psicológico.

 

A ciência Amor daçada

O mundo contemporâneo, não tendo mais cavernas nem florestas para deixar seus filhos, os deixa nas academias para serem futuros cientistas. Enquanto isso, não tendo mais caça livre, todos, homens e mulheres, vão brincar de construir as suas megalomaníacas selvas de pedras ou suas monoculturas agro-industriais. Uns brincam de dar ordens e outros brincam de obedecer, estas são as regras. Nas escolas os filhos não podem brincar pois precisam aprender a repetir, e no futuro construírem as suas próprias pedras de selvas e flores de plástico. Estas são as regras, reguladas, carimbadas, rotuladas, avaliadas, e mais. Feitos de sonhos, na escola enquanto crianças, prefem sonhar. Repetir a escola quantas vezes as regras quiserem, assim poder entrar no mundo dos metais para construir os mapas mentais, (des)caminhos com dois tempos: a espera do intervalo e a espera da saída.

A criança vista como um adulto em miniatura, é arrastada de sua caverna, seus ossos, pedras e até brinquedos industrializados para, na escola da submissão apreender a transmissão de um conjunto de valores socialmente admitidos. Aí nasce a educação proselitista de propaganda, sem fomentar a liberdade de pensamento, nem sequer uma atitude científica, mesmo sabendo, que somos filhos dos séculos de maiores poderes intelectuais. Estes elementos perpassam a lógica do poder e autoridade do adulto, seja o professor ou demais envolvidos no processo ensino-aprendizagem e ou conhecimentos.

se unam, ou sejam tocados.

A ética e a moral infantil, quando ainda não empregnadas pelos valores e signos sistemáticos da ideologia dominante, são uma essência da liberdade, que lentamente vai sendo tragada pela autoritária desigual sociedade adulta. É um sistema que se baseia em forjar inteligências segundo um modelo pronto, se propõe a nada menos que, saquear da criança a faculdade de pensar com sua própria iniciativa. Este fazer ciente amordaça um futuro científico, encurralando a emoção da descoberta a serviço de humanos aparentemente livres.

Para as crianças talvez não sirva um livre arbítrio metafísico, abstrato ou fictício, este escamoteia a realidade e na certa os colocará enquanto escravos de uma moral divina e negadora de humanos (re)produtos das relações da sociedade com a natureza e vice versa. "A verdade de hoje pode ser o erro de amanhã"10. E a verdade para a criança só existe enquanto experimento. É o brincar com o fogo e se queimar, jogar as brasas para o ar e sentir-se moleque que desafia o sagrado, assim é a verdade infantil e aí de quem desafia-la, pois "na razão, para cada acerto há no mínimo cem erros". Pensar assim é pelo menos querer quebrar estas mordaças da verdade pronta. Parece uma defesa da ingenuidade científica, onde não há lugar para a maldade dos homens, mas para uma sociedade de mercadores, a ciência que apronta produtos a serem consumidos pelo valor do mercado, deixa de estar inserida nos quatro pilares do conhecimento universal: arte, filosofia, mística e ciência. Ou seja, pode ser outra coisa, enfrascada e com rótulo que não representam conteúdo algum.

 

Pensando nas Cores Cinzas da Ciência

Pode-se começar perguntando a que se reduz a ciência? Significa o modelar criaturas à medida de seus erros e preconceitos? Logo, o fazer científico pode incorrer no dogmatismo ou propaganda de idéias preconcebidas.

Daí observar que este fazer passa também por princípios preestabelecidos e doutrinários. Assim como Deus nos fez a sua imagem e semelhança, para muitos a ciência teria este papel de transformar os jovens à sua imagem e semelhança, a partir de leis, dogmas, pensamentos filosóficos, e ou opinião sócio-cultural e política idealizadas e impostas via ensino por exemplo, para serem aceitas como verdades pela comunidade seleta de cientistas, até tornarem-se populares, chegando ao ponto de serem aceitas como leis universais. Assim caminha a humanidade.

Enquanto individualidade o homem deve ser livre para desenvolver todas as suas possibilidades, levando em conta os aspectos mentais, físicos, intelectuais ou afetivos, pois a busca do aprender é uma característica natural do humano.

Enquanto seres coletivos, se forem moldados pelos parâmetros das idéias pré concebidas, nada mais serão que uma cópia mal arranjada de uma sociedade que desrespeita a liberdade de pensamento e de ação, eliminando dos jovens e velhos "cientistas" o direito ou desejo de saber por si mesmos, de formar suas próprias idéias.

A Ciência divulgada na academia poderá se reduzir a lições das coisas e ou lições de palavras.

As palavras podem no máximo servir para algumas explicações, e as explicações geralmente são dadas a partir de idéias feitas, e ensinar a partir de idéias prontas ou semi-acabadas é interferir dogmaticamente na liberdade mental das pessoas, por mais bem intencionado que se queira repassar um conhecimento "científico". Este fazer enquanto simulação das coisas não tem como princípio a experimentação, a comprovação científica e a realidade vivida quotidianamente.

Para (WILDER, 1979: 7), "Um mapa do mundo que não inclua a UTOPIA não merece nem ser olhado, pois deixa de fora o país no qual a humanidade está sempre a desembarcar". Pensar estas formas é apontar para a superação de alguns obstáculos por que passa a ciência hoje, são desafios que podem mexer com as estruturas do bem arquitetado sistema. Colocar em evidência o paradigma da dúvida, da incerteza nos (des)caminhos da ciência de alguns. Mas esta é a tarefa dos que querem diferentes maneiras de pensar o mundo. Viva, atuante, participativa. Só assim inicia-se o processo de (des)construção de uma nova sociedade, na qual, menina(o), mulher e homem tenham como base: a solidariedade, a cooperação e a reciprocidade das pequenas coisas, pilares de construção da GRANDE PIRÂMIDE QUE SONHAMOS HUMANIDADE.

Referências:

  • AZEVEDO, M. C. de (org.). Atenção Signos Graus de informação. In: Cadernos Universitários nº.4. Porto Alegre: Edições URGS, 1973.
  • BROUGÉRE, Gilles. Brinquedo e Cultura. São Paulo: Cortez, 1995.
  • BRITTAIN, W. L & V. Lowenfeld. Desenvolvimento da Capacidade Criadora. São Paulo: Editora Mestre Jou. 1970.
  • CAPPELLETTI, Angel J. La Ideologia Anarquista. Buenos Aires: 1992.
  • DUARTE, Newton e OLIVEIRA, Betty A. Socialização do Saber Escolar. São Paulo: Cortez, 1990.
  • FILHO, Ciro Marcos. Sociedade e Tecnologia. São Paulo : scipione, 1984.
  • GOMBRICH, E. H. Arte e Ilusão. São Paulo: Martins Fontes, 1986.
  • LAKATOS, Eva Maria & MARCONI, Maria de Andrade. Fundamentos de Metodologia Científica. São Paulo: Atlas, 1985.
  • LUIZZETTO, Flávio. Utopias Anarquistas. São Paulo: Brasiliense, 1987.
  • MORIYÓN, F. G. (org.). Educação Libertária. Porto Alegre: Artes Médicas, 1989.
  • NIDELCOFF, Maria Teresa. A Escola e a Compreensão da Realidade. São Paulo: Editora Brasiliense, 1979.
  • OLIVEIRA, Paulo de Sales. O que é Brinquedo. São Paulo: Editora Brasiliense, 1989.
  • RODRIGUES, Neidson. Da Mistificação da Escola à Escola necessária. São Paulo: Cortez, 1987.
  • WOODCOCK, George (org.). Os Grandes Escritos Anarquistas. São Paulo: L&PM editores, 1986.

 

 

4. A Questão Ambiental no Contexto Social: um olhar geoecológico

Belarmino Mariano Neto

"Os desequilíbrios produzidos pelo homem do mundo natural têm sua origem nos desequilíbrios do mundo social"(BOOCKHIN, In. FREYRE, 1992:56)

Entender os problemas ambientais do planeta terra de forma genérica e propor algumas alternativas de manejo e recuperação para suas áreas degradas, passa por um estudo de seu ambiente holístico e pela profunda compreensão da história de ocupação sócio-econômica política, cultural e técnica estabelecidas, levando em conta os processos de apropriação da natureza em seus vários níveis.

Pensar em analisar as condições de vida e trabalho, moradia e problemas ambientais de uma dada sociedade, passa pela necessidade de saber quais as relações de produção que se estabeleceram e que hoje predominam no meio ambiente e como as camadas sociais se percebem dentro desse processo produtivo. Além da percepção dos que fazem a produção, será fundamental levantar informações sobre as condições ambientais que refletem-se na vida, levando-se em conta condições de moradia, saúde, educação, padrão alimentar, lazer, liberdade, prazer, e sonhos do que é a humanidade.

Estes escritos, meramente teóricos, objetivam identificar os principais atores sociais que interferem sobremaneira no meio ambiente e questionar as contradições dos regimes de agressão a vida na terra, seja a vida de um simples inseto como borboletas ou abelhas, chegando até os vertebrados, mamíferos e os racionais que ocupam territorialmente a terra.

Pensar a questão sócio-ambiental atual, passa por ter que entender o processo de desenvolvimento da sociedade urbana que vem se formando no decorrer dos últimos dois séculos. A cidade forjada nas entranhas da modernidade, deixa de lado a natureza e privilegia os interesses econômicos que determinados espaços posam subsidiar ao modelo de produção capitalista monopolista internacional. Logo o meio ambiente passa a ter um caráter de economia ambiental via seus recursos, indispensáveis ao movimento de matérias primas, base para a maioria das mercadorias que circulam no mercado mundial.

Este documento pode ser visto como um ato libertário de protesto contra o modo vergonhoso de agressões ao meio ambiente praticado pelos (banqueiros, empresários, industriais, governos estados e empresas em geral), responsáveis pelos desastres ecológicos que foram e estão sendo provocados por esse conjunto de inconseqüentes generalizadas como capitalistas e autoritários. Na verdade estes grupos muitas vezes se colocam em defesa da natureza, mas no fundo, são apenas eco-facistas11, tentando reparar seus absurdos ou colocando para debaixo do tapete os problemas ambientais por eles provocados.

As agressões ao meio ambiente - poluição atmosférica, poluição dos mares, poluição dos rios, poluição dos alimentos, desmatamento, extinção de espécies da fauna e da flora, etc. São quase todas permitidas pelos Estados Modernos e praticadas indireta ou diretamente por empresas capitalistas, que obedecendo as normas do mercado, buscam o maior lucro, custe o que custar para a natureza e para os seres humanos.

Esta farsa ecológica de defesa da natureza, por parte de alguns dos meios de comunicação, empresas e governos é uma tentativa vergonhosa de encobrir essa sociedade baseada na concorrência, no consumismo e na exploração tirânica do planeta e da humanidade.

Os países desenvolvidos falam em proteção ambiental, organizam fóruns internacionais para se discutir a problemática, mas não admitem uma só mudança nas estruturas dessa decadente e destrutiva sociedade de consumo e desperdício.

Os países subdesenvolvidos carregam sobre os ombros uma escabrosa dívida externa, mas ainda não atinaram para a idéia de que são as nações ricas as maiores responsáveis pela grande dívida ecológica, que iniciou-se com a velha história da colonização (destruição das culturas indígenas, saque de suas riquezas naturais, desmatamento e poluição generalizada). Tudo o que hoje vejo como segregação, apartação, violência, fome e subdesenvolvimento de quase todo o Hemisfério Sul e regiões tropicais do globo, é obra dos mais de quinhentos anos de exploração capitalista, dívida que só será paga com o fim desse desajustado sistema.

Os diferentes estágios da humanidade são os diferenciais sociais e culturais em diferentes espaços. A produção dos espaços sociais são extremamente contraditórios e afrontam diretamente a natureza em todos os sentidos. "A noção de que o homem deve dominar a natureza vem diretamente da dominação do homem pelo homem" (BOOCKHIN, In. FREIRE, 1992:57).

O termo homem aqui usado, parece generalizar para a humanidade os desmandos provocados por alguns mercadores da natureza, que tanto exploram o meio ambiente, como a sociedade e as diferentes culturas que formam a humanidade, constituindo ideologicamente uma sociedade aparentemente una.

Esta sociedade baseada no produzir por produzir, do lucrar em detrimento da natureza e do humano me coloca diante de uma posição radical, tão grande é a urgência em socorrer o planeta das garras assassinas desses mercadores da comunal mãe terra.

É fundamental uma sociedade que não seja mercadoria de uns poucos, que o reino natural não seja uma mera manufatura para o desenfreado mundo comercial e concorrencial.

A questão da pobreza humana no ambiente urbano, e mais particularmente, sua estrutura, as mudanças recentes em nível de padrão técnico e as condições de vida, trabalho, moradia na periferia das cidades na perspectiva da Ecologia Social, podem apontar para estudos sérios e que visem quebrar com estas gigantescas estruturas ingovernáveis.

Os ambientes urbanos representam uma verdadeira catástrofe para a natureza, especialmente os grandes centros e suas redes urbanas, a medida que vão ampliando suas funções, os interesses dos grupos pelo controle dos solos urbanos, passam por cima da natureza, desmatando florestas, poluindo rios, exterminando animais e criando um verdadeiro mal estar sócio-ambiental.

O século XX marcou profundamente a forma de viver das pessoas, dinamizando novos valores e mentalidades de organização social. O urbano passou a servir de modelo para a organização da sociedade, criando uma mentalidade de melhoria nas condições de vida, desenvolvimento cultural e ampliação do padrão de consumo dos seres humanos.

Com Isso, instalaram-se milhares de indústrias, deslocaram-se milhões de habitantes para áreas sem as mínimas condições de vida ideal.

Como romper as travas da propriedade privada sobre o espaço geográfico? A base de uma nova sociedade será o fim da dualidade cidade x campo e a completa descentralização do espaço urbano, especialmente as grandes metrópoles internacionais. É preciso responsabilizar por esta situação de desajustes sócio-naturias estes sistemas farsistas, autoritários e ante naturais que atualmente formam um grande império de exploração da terra e do humano. A lógica pode ser a de uma sociedade ecológica e de economia sustentável, baseado no socialismo comunitário autogestionário e planetário.

 

Referências

  • AZEVEDO, M. C. de (org.). Atenção Signos Graus de informação. In: Cadernos Universitários nº.4.
  • Porto Alegre: Edições URGS, 1973.
  • CAPPELLETTI, Angel J. La Ideologia Anarquista. Buenos Aires: 1992.
  • FERRY, Luc. A Nova Ordem Ecológica. São Paulo: Editora Ensaio, 1994.
  • FREIRE, Roberto. A Farsa Ecológica. Rio de Janeiro, RJ: Editora Guanabara, 1992.
  • GONÇALVES, Carlos Walter Porto. Os (Des)caminhos do Meio Ambiente. São Paulo: Contexto, 1996.
  • LUIZZETTO, Flávio. Utopias Anarquistas. São Paulo: Brasiliense, 1987.
  • MORIN, Edgar & KERN, Anne Brigitte. Terra - Pátria. Porto Alegre, RS: Editora Sulina, 1995.
  • NETO, Belarmino Mariano. Manifesto Ecológico. João Pessoa: Jornal O Correio da Paraíba, pp 04, 30 de Julho de 1993.

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