Disturbios alimentares na adolescência: anorexia e bulimia nervosa

Enviado por Fisberg M.


1. Introdução

Os distúrbios alimentares tornaram-se, nos últimos 15 anos, alvo de intensas pesquisas dado o grande aumento de sua incidência na população jovem, principalmente nos adolescentes. Estudos na década de 80, nos EUA, revelaram que a anorexia nervosa (AN) é a terceira doença crônica mais comum entre adolescentes do sexo feminino (10 a 20 mulheres para 1 homem), só perdendo para asma e obesidade. Quanto à bulimia nervosa (BN), afeta 1 a 5% desta população, sendo também mais frequente na mulher. (1-2)

A AN e a BN são complexas do ponto de vista etiológico, são crônicas, de difícil controle, é necessário o acompanhamento a longo prazo e as recaídas são frequentes. A faixa etária mais acometida está entre os 10 e 19 anos(2,3,4) . Pediatras e hebeatras devem estar alertas para os sinais dessas doenças. O diagnóstico e tratamento precoce podem fazer toda a diferença entre o fracasso e o sucesso terapêutico.

O objetivo deste artigo é fazer uma revisão sobre o assunto para alertar quem atende o adolescente da possibilidade de estar lidando com essas patologias. Descrevemos, também dois casos atendidos em nosso serviço nos últimos três meses.

2. Relato dos casos

Caso 1 -KDC, 15 anos, fem., branca, nat. e proc. de São Paulo.

HPMA: Passava bem até há 3 meses antes da consulta quando procurou uma academia para perder gordura localizada na barriga (sic). Na ocasião pesava 53 Kg e desejava perder 3 Kg. Além dos exercícios iniciou dieta que constava de salada crua e duas bolachas cream-craker/dia. Segundo a mãe sempre foi uma menina dócil, obediente, caseira e excelente aluna, nunca "dando trabalho" diferente da irmã mais velha. Atualmente nunca sai de casa a não ser para ir a escola. Parou de frequentar a academia e está fazendo exercícios em casa. Gosta de ler muito sobre dietas, sabe o valor calórico de grande número de alimentos e tem medo de engordar. Se comer mais do que a dieta que vem seguindo sente dor e queimação no estômago e náuseas. Hábito intestinal 1x/ semana, com fezes endurecidas, desde que iniciou a dieta. Tinha ciclos menstruais regulares desde os 13 anos e agora está em amenorréia há 2 meses, desde que atingiu 49 Kg.

Exame físico: Bom estado geral, lúcida, bom contato com o meio. Pele seca e descamativa em MMII, cabelos secos com áreas de alopécia. Sem edemas. FC- 55 bpm; PA- 90 x 60; T- 36º ; Est.- 171 cm; P- 39 Kg.

Exames laboratoriais: glicemia- 63 mg%; Hb- 12.5 Ht- 32% GB- 4300 plaq- 120.000; densitometria óssea- normal para a faixa etária.

Tratamento: foi iniciado acompanhamento com psicólogo, calcio (OsCal 500, 2 comp./dia), Zn (150 mg/dia sulfato de Zn), orexígeno (ciproheptadina 8 mg/dia), dieta equilibrada objetivando ganho de 200 a 300 g/dia e retorno semanal.

Evolução: Em 3 meses de acompanhamento houve ganho ponderal médio de 3 Kg / sem., melhora do estado de ânimo, voltou a sair de casa. Parou a queda de cabelo, não apresentou queixas gástricas, hábito intestinal a cada 2 dias, FC- 80 bpm, PA- 100 x 70, T- 36.5º . Ao atingir 49 Kg teve ciclo menstrual oligomenorreico. Nessa ocasião foi suspenso orexígeno Só ingere alimentos "light", só usa adoçante e come carnes magras. Não quer engordar mais e manter-se com 50 Kg. Continua em acompanhamento psicológico.

Caso 2 - ESM, 16 anos, Nat. e proc. de São Paulo

HPMA: Aumento de peso há 2 anos. Filha adotiva, sofreu abuso sexual por parte do irmão há 2 anos. Nessa ocasião abandonou o lar, indo trabalhar como doméstica. Desde então, incapacidade de controlar a ingestão alimentar, com ganho ponderal de 20 Kg. Tentou dieta mas comia compulsivamente alimentos muito calóricos, após os períodos de restrição alimentar. Como sentia-se culpada passou a provocar vômitos diariamente após comer, por 6 meses. Nesse período apresentava fraqueza generalizada, não tinha vontade de viver (sic), ciclos menstruais irregulares, dor retroesternal em queimação mas não perdia peso. Só procurou ajuda médica agora, com intuito de emagrecer de maneira saudável. Não aceita acompanhamento psicológico.

Exame físico: Bom estado geral, orientada, corada. FC- 88 bpm; PA- 110 X 70; T- 36.5º ; P- 62.5 Kg; Est- 153 cm. Não apresenta lesões em dorso da mão nem problemas dentários.

Exames laboratoriais: Hb - 14.1; Htc - 43% ; Glicemia - 91 mg%

Tratamento: iniciou dieta sem restrição porém de baixo valor calórico com horários definidos e intervalos mais curtos.

Evolução: Após 3 semanas volta com queixa de queimação retroesternal e epigastralgia após a alimentação, que só melhora com vômitos. Está deprimida, brigou com o namorado há 1 semana e pensou em morrer (sic), ocasião em que ingeriu 4 comprimidos de 6 mg de bromodiazepina e dormiu durante 48 horas seguidas. Não está seguindo a dieta e ganhou 1.5 Kg. Recusa-se a fazer acompanhamento psicológico.

3. Diagnóstico clínico da AN e BN

O diagnóstico clínico dessas entidades baseia-se nos critérios estabelecidos pela Associação Americana de Psiquiatria DSM-IV de 1994. Na Tabela I estão descritas separadamente cada doença e suas principais características(5).

TABELA I - DSM - IV: CRITÉRIOS DIAGNÓSTICOS PARA AN E BN

Anorexia

Bulimia

A. Recusa em manter o peso na proporção normal para idade e estatura

A. Episódios recorrentes de comer-compulsivo

B. Medo intenso de engordar, mesmo que com peso abaixo do normal

B. Comportamento compensatório inadequado: Vômitos, laxantes, diuréticos, jejum, exercícios

C. Auto-avaliação alterada do peso e forma do corpo

C. Ambos episódios com ocorrência média de ao menos 2 x / semana, por 3 meses

D. Amenorréia

D. Auto-estima influenciada pelo peso e forma corpo

É comum pensar-se na BN como consequência da AN, porém observando seus critérios diagnósticos, logo se percebe tratarem-se de duas patologias distintas, com grupo epidemiológico diferente e caracteres clínicos que nem mesmo se completam.


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