Noções básicas de geomorfologia

Enviado por Lucivânio Jatobá


  1. Resumen
  2. Apresentação
  3. Geologia, geomorfologia e geografia
  4. Estudar o presente para compreender o passado
  5. O papel da estrutura geológica na definição do relevo terrestre
  6. Texto complementar
  7. Atividades
  8. Algumas definições básicas para o estudo da geomorfologia estrutural
  9. Bibliografia consultada

RESUMEN

Este trabalho apresenta um conjunto de informações introdutórias de Geomorfologia, destinadas a estudantes e professores de Geografia. Estão reunidos diversos resumos de aula utilizados pelo autor, ao longo dos últimos anos, em disciplinas ministradas no Departamento de Ciências Geográficas da Universidade Federal de Pernambuco e outros cursos de pós-graduação. São apresentadas ainda diversas definições de termos que são de grande utilidade à análise geomorfológica das paisagens.

APRESENTAÇÃO

Este texto foi redigido com o propósito de abordar, de maneira didática, alguns aspectos introdutórios de Geomorfologia, para servir como material instrucional no curso de pós-graduação em Geografia da Faintvisa, em Vitória de Santo Antão, PE, Brasil. Estão aqui reunidos diversos resumos de aula utilizados pelo autor, ao longo dos últimos anos, em disciplinas ministradas no Departamento de Ciências Geográficas da Universidade Federal de Pernambuco e outros cursos de pós-graduação.

A primeira versão dessas notas de aulas foi impressa e distribuída pela Associação dos Geógrafos Brasileiros, Seção Recife, na década de 1980. Atualmente, a referida edição encontra-se esgotada. Na presente versão, foram feitas uma revisão e uma atualização do texto originalmente impresso e a inclusão de novos temas considerados relevantes à compreensão dos fundamentos de Geomorfologia.

Objetivando facilitar o processo ensino-aprendizagem dessa ciência, procurou-se examinar alguns temas contemplados, em geral, nos conteúdos programáticos de Geomorfologia e/ou Geografia Física. Foram enfatizados alguns dos principais conceitos fundamentais de Geomorfologia enunciados por William Thornbury, apresentados no clássico trabalho intitulado " Principles of Geomorphology.

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GEOLOGIA, GEOMORFOLOGIA E GEOGRAFIA

A Geomorfologia é uma geociência que estuda, de forma racional e sistemática, as formas de relevo, tomando por base as leis que determinam a gênese e a evolução dessas formas.

O trabalho geomorfológico, que pressupõe do pesquisador uma série de conhecimentos de outras ciências, implica nas seguintes atividades: descrição, localização e dimensionamento dos diversos compartimentos e feições de relevo verificados na epigeoesfera. Além dessas preocupações, a Geomorfologia volta-se, principalmente, à gênese e à evolução do relevo terrestre. A Geomorfologia é, portanto, uma ciência descritiva e genética.

Será a Geomorfologia uma ciência geológica, geográfica ou geofísica? Onde se situa, portanto, a Geomorfologia no quadro geral das ciências da Terra?

O geocientista francês, Jean Goguel, apresentou uma classificação das geociências, bastante simples, que pode servir para subsidiar a resposta à questão anteriormente apresentada. Para este autor, as ciências da Terra podem ser agrupadas em três categorias distintas: a) Ciências da Geofísicas, b) Ciências Geológicas e c) Ciências Geográficas.

As Ciências Geofísicas compreendem aquelas que tratam de fenômenos terrestres, de natureza física, mas sob a ótica da Física. A Sismologia, a Meteorologia e a Hidrologia Fluvial exemplificam esse grupo de ciências.

As Ciências Geológicas se propõem à reconstituição da história física do planeta Terra, tal como ela pode ser vista ou lida nos diversos estratos rochosos presentes na epigeoesfera. As ciências geofísicas, em geral, prendem-se ao aspecto atual dos fenômenos físicos, quer os que têm uma evolução rápida, tais como os envoltórios fluidos e alguns fatos da litosfera, a exemplo dos abalos sísmicos e o magnetismo terrestre, quer os de caráter permanente, como a aceleração da gravidade.

Podem ser mencionados diversos exemplos de Ciências Geológicas, algumas das quais mantêm estreitos vínculos com a Geomorfologia. A Geotectônica, a Geologia Estrutural, a Paleontologia, a Sedimentologia e a Estratigrafia são os exemplos mais notáveis.

As ciências geológicas, quando se dedicam à descrição da natureza dos terrenos e ao estudo das distribuição da litomassa, fá-lo com vistas à interpretação de fenômenos passados, que são reconstituídos por métodos geohistóricos.

A Geologia, quando investiga a história da Terra, desempenha essa tarefa através, sobretudo, de uma analogia com o que a observação dos fatos naturais, feita de forma direta, pode proporcionar. Por exemplo, ao se constatar que no presente determinadas causas produzem tais efeitos, efeitos análogos pressupõem as mesmas causas.

A Geomorfologia estuda o passado para compreender o presente. A Geologia faz exatamente o inverso. A Geomorfologia procura explicar as formas atuais de relevo, que podem ser facilmente divisadas na paisagem, por sua gênese, por seu passado, às vezes muito distante. Porém, a exemplo da Geologia, a Geomorfologia não pode avançar, a não ser a partir de uma raciocínio analógico, que parte do presente. Essas idéias, na verdade, estão contidas no célebre Princípio do Atualismo, examinado mais adiante nestas Notas.

As Ciências Geográficas têm como objeto de estudo o fato geográfico. Assim ensina a Geografia Clássica. O fato geográfico é algo que possui uma estrutura extremamente complexa e resulta da combinação de elementos e fatores solidários ( Andrade, 1965) .

São três as escalas de complexidades da combinação geográfica: físicas, combinações físico-biológicas e físico-biológico-humanas.

O relevo terrestre, abstraindo-se a cobertura vegetal, é um bom exemplo da complexidade das combinações físicas. Estrutura geológica, condições climáticas atuais ou pretéritas e os processos erosivos materializam tais combinações.

A estrutura geológica compreende, dentre outros aspectos, as forças tectônicas, a natureza das rochas, a disposição das camadas rochosas e os graus de resistência da litomassa aos processos de meteorização e de erosão.

As condições climáticas determinam os efeitos da meteorização mecânica ou química e os processos morfoclimáticos esculturadores das paisagens geomorfológicas continentais. Tais processos definirão os vários sistemas de erosão encontrados na superfície terrestre.

As combinações físico-biológicas, que indicam o segundo nível da escala crescente da combinação geográfica, definem-se com a inclusão do elemento biológico, particularmente a vegetação.

A vegetação decorre de combinações climáticas, relevo e tipos de solos. Mas ela também influencia o relevo, o clima e os solos. E´ a solidariedade do complexo geográfico (Andrade, op. cit).

O último nível da combinação geográfico está representado pelas combinações físico-biológico-humanas. Esse é o mais elevado grau de complexidade do fato geográfico. Ainda, segundo Andrade( op. cit, p. 328), "A Geografia se consuma assim, com a consideração do homem na cena da natureza. A natureza de uma parte, cujas condições e recursos impõem ao homem o esquema de seu destino. Introduzindo o homem nas ciências da Terra, o geógrafo se esforça por ver claramente essa síntese de condições naturais e da presença do homem. Supera, assim, a distância entre os fenômenos humanas. Essa a sua originalidade principal. Esse o seu "passaporte" legítimo com que penetra nas "áreas marginais", onde tantas outras ciências da Terra, da vida e do homem se exercitam".

A Geomorfologia , no quadro geral das Ciências da Terra, se situa na interface existente entre as Ciências Geológicas e as Ciências Geográficas, segundo a classificação de Goguel. Essa ciência mantém profundos vínculos, já assinalados, com a Geologia. Mas é também essencialmente geográfica, na medida em que depende dos conhecimentos de Climatologia, Paleogeografia, Fitogeografia, Pedologia e Hidrografia e se fornece substanciais informações necessárias ao entendimento da produção do espaço geográfico.

Segundo Kostenko (1975), a Geomorfologia funciona como uma ponte entre a Geografia e a Geologia, e estuda uma série de problemas complexos e heterogêneos, alguns dos quais resolvem-se através de métodos fisico-geográficos e outros mediante a aplicação de métodos geológicos.

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ESTUDAR O PRESENTE PARA COMPREENDER O PASSADO

Henri Poincaré, no artigo " L’evolution des lois", publicado no ano de 1913, em Dernières Pensées, afirmou: " Nada poderemos saber do passado se não admitirmos que as leis não mudaram; se o admitirmos, a questão será insolúvel, como, de resto, todas as demais questões que se reportam ao passado." Eis o fundamento do Princípio do Atualismo ou Postulado do Atualismo.

Serão transcritos, a seguir, algumas anotações de aula feitas por Gilberto Osório de Andrade e Rachel Caldas Lins, sobre o Princípio do Atualismo, durante a disciplina Bases e Métodos da Geomorfologia, ministrada em 1978 por aqueles professores.

  1. "A Geologia reconstitui o passado a partir do presente. A geomorfologia explica desde logo o presente pelo passado. Uma e outra devem, portanto admitir o princípio do atualismo. De resto, esse princípio foi, sem dúvida, entrevisto desde que o espírito humano concebeu nitidamente a causalidade como encadeamento constante de fenômenos, permitindo remontar tão bem o curso do tempo, como descer nele.
  2. Ainda no século XIX, viva resistência era oposta a essas idéias. Antes de mais nada, graças à brevidade do tempo atribuído aos fenômenos geológicos. Brevidade admitida não somente pela cronologia deduzida do Gênesis, como também pelos primeiros experimentadores. Assim Buffon ensaiou calcular a idade da Terra segundo a velocidade de resfriamento duma esfera metálica aquecida ao rubro. Outros propuseram geocronologias fundadas no grau de salinidade dos oceanos, ou na velocidade da sedimentação, ou ainda no resfriamento presumido do globo. Nos domínios da Paleontologia, só prefigurando destruições instantâneas era possível explicar o fato de Ter havido tantas criações sucessivas que desapareceram. Cuvier defendia essa concepção com toda sua autoridade científica em 1820.

Beaumont estabeleceu a idade relativa das montanhas no pressuposto de que cada uma delas surgira bruscamente, como por uma espécie de cataclisma."

O Princípio do Uniformitarismo preconiza, portanto, que os mesmos processos e leis físicas que atuam no presente , agiram no passado, mas não necessariamente com a mesma intensidade. Assim, para os uniformitaristas, a Terra chegou a ser o que é mediante a ação de processos graduais e uniformes. Essa idéia se opõem, assim, aos conceitos catastrofistas.

" Precisamente, o ritmo e a intensidade da atuação pretérita das causas atuais são os pontos sobre os quais se centra o ataque ao Princípio do Uniformitarismo. E´óbvio que existiram erupções vulcânicas mais violentas e extensas quaisquer das registradas na história humana; os testemunhos das ações glaciais antigas mostram que as geleiras de hoje são pequenas e fracas, quando comparadas com os de outras épocas, e as crateras da Lua são indícios de uma classe de atividade agora existente. No entanto, as leis físicas que regem as erupções vulcânicas, a ação dos gelos e queda de meteoritos não mudaram, mas apenas a sua intensidade variou."

(STOKES, 1969)


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