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A Filosofia das Agroflorestas (página 2)

Fernando Fernandes Pereira

é hoje sabido que essa forma de cultivo é muito dependente de insumos químicos, adubação e fertilização, assim como de irrigação e plantas geneticamente modificadas. As técnicas modernas levaram a uma diminuição das resistências das culturas a pragas, juntamente com a rápida da fertilidade do solo, principalmente nos trópicos úmidos. Essas condições trouxeram dificuldades para muitos agricultores, envolvendo não apenas os altos custos na compra de defensivos e fertilizantes agrícolas, mas também dado á progressiva queda da produtividade e fertilidades dos solos.

Figura 01: Monocultivo de soja. http://www.agroelroble.cl/images/soya/soja-en-el-campo.jpg

3.4. Praticas agroflorestais

3.4.1. Definição

Primeiramente, deve ser definido o que é uma agrofloresta, muito embora já tenha sido falado que tal definição pode variar muito.

Em vários trabalhos, o conceito de agrofloresta, ainda que bastante abrangente, foi enunciado da seguinte forma: produção de culturas, arbóreas ou não, e/ou animais no mesmo espaço de terra.

 Contudo, esta definição simplória falha quando se considera a integração de conceitos associados a agrofloresta, o que torna tais sistemas particularmente atraentes por motivos de manejo da terra, de possibilidade de uma produtividade sustentável e ecologicamente correta com a terra. Ainda uma segunda definição pode ser dada: Uma agrofloresta é a integração de árvores, plantas e animais em sistemas de produção natural de vida longa.

            Uma agrofloresta deve ser considerada mais como um tipo de abordagem da natureza do que uma simples tecnologia terminada, uma definição empacotada. Agrofloresta inclui o reconhecimento da interação entre as diversas culturas, as favoráveis e as desfavoráveis. Ela procura alcançar benefícios no correto uso dos recursos naturais, das árvores por diversas razões, sua sombra que favorece o solo, aumentam a fertilidade através da fixação de nitrogênio e por trazer minerais das profundezas do solo e deposita-los em sua superfície (queda de folhas com produção de sombra, alimentos e combustíveis).

3.4.2. No que se baseia a agrofloresta ?

Na natureza, as plantas vivem em consórcio associadas e são naturalmente substituídas por outras. Esse processo de substituição recebe o nome de sucessão natural de espécies.

No primeiro ano, nascem logo depois das chuvas diversos tipos de matos, ervas e capim que só vivem alguns meses, estas plantas são denominadas colonizadoras. No segundo ano, as mesmas plantas vão brotar, mas junto com outras maiores, de tempos de vida mais longos.

Na primeira etapa de sucessão, que ocorre em média no terceiro ano, as plantas pioneiras são arbustos e árvores em crescimento que colonizam habitats desfavoráveis a outras espécies. As plantas pioneiras são arbustos de árvores de crescimento rápido que permanecem por alguns anos. Desse modo, as pioneiras alteram a constituição do solo e preparam o local para as suas sucessoras, as secundárias.

O pleno estabelecimento das espécies secundárias se deve em parte ás primárias, que alteram e preparam o solo para receber as secundárias. De forma semelhante á que ocorre naturalmente, os cultivos são plantados em fases, sendo as pioneiras utilizadas nas fases iniciais para a recuperar o solo. Em seguida, diversas espécies são adicionadas ao cultivo, podendo substituir algumas espécies anteriores, ou servir para estágios mais tardios, ajudando na saúde e no desenvolvimento das demais culturas e do solo.

Deixar a sucessão ocorrer, é imitar o que acontece na natureza e isso faz com que se aumente e se diversifique a produção. A sucessão permite ao agricultor ter produtividade o ano todo, pois cada espécie prospera em determinada época e com o passar dos anos cada vez mais espécies se tornam produtivas.

3.4.3.        Quais as vantagens de um sistema agroflorestal ?

Muito mais do que uma prática, a adoção das agroflorestas exige respeito com os recursos naturais. Os tópicos a seguir descrevem os componentes de um sistema de agroflorestas, sua manipulação e possíveis problemas de práticas nocivas bastante difundidas atualmente.

3.5.   Solo

O solo é o conjunto de corpos naturais que se formam na superfície da Terra, é, normalmente, constituído por minerais e matéria orgânica, assim como por organismos vivos. A pedogênese ou evolução de formação do solo é o tópico principal da ciência pedologia, cujos aspectos incluem a morfologia e classificação de solos, além de sua distribuição na natureza, seu presente e seu passado. Considerando toda a pedosfera, ele está posicionado na interface da litosfera com a biosfera, atmosfera e hidrosfera.

            Entre os mais importantes recursos naturais, está o solo devido ás suas funções física, química e biológica. De fato, engenheiros, agrônomos, químicos, geólogos, biólogos, todos dependem e contribuem para o conhecimento dos solos. Enquanto o conceito de solo é está bem estabelecido, esta definição é amplamente variável e se modifica com a perspectiva de abordagem considerada.

O processo de formação do solo nunca pára, implicando que este recurso está sempre em transformação.

Enquanto o solo pode alcançar relativa estabilidade em suas propriedades por longos períodos de tempo, seu ciclo normalmente termina com condições favoráveis á erosão.

Este trabalho defende a fertilidade natural dos solos, e considera adubos todos os compostos que venham aumentar a alimentação da microvida do solo, melhorando sua estrutura como um todo. Com isso, sua capacidade de infiltração e de retenção de água é aumentada, favorece as condições físicas e biológicas do solo, aumenta o teor de matéria orgânica e de nutrientes, equilibra o nível de microorganismos, controla ervas daninhas e doenças do solo.

3.5.1. Degradação do solo

A degradação do solo pode ser induzida por ações humanas, que diminuem a capacidade produtiva da terra. Geralmente, envolvendo acidificação, contaminação, desertificação, erosão e salinização. Freqüentemente, os solos apresentam-se ácidos porque o seu material de origem era ácido e continha poucos íons básicos como cálcio (Ca+2), magnésio (Mg+2), potássio (K+) e sódio (Na+). Uma maior acidez ocorre no solo depois de uma chuva que carrega tais íons básicos consigo. Também é acelerada pelo uso de fertilizantes nitrogenados.

3.5.2. Erosão

A erosão é o deslocamento de sólidos por agentes naturais, vento, água, em respostas ás forças gravitacionais ou á atividade de organismos vivos (bioerosão). é um processo natural intrínseco, embora em muitos locais ocorra crescentemente com o uso da terra pelo homem. Práticas pobres do uso de terras incluem a derrubada da vegetação e a queima.

3.5.3. As causas da erosão

O que torna a erosão mais severa em algumas áreas do que em outras é uma combinação de fatores, que incluem a quantidade de chuva que precipita, a textura do solo, a cobertura vegetal do solo. Consideremos o primeiro fator listado como o agente de erosão e os demais governam o grau de erosão do solo.

A grande maioria de nós concordará que o solo é o principal recurso natural disponível para o homem.

Ainda assim, continuamente abusa-se do solo, levando á sua destruição em certos casos. Muitas civilizações anteriores á nossa usaram o solo sem cuidados e sofreram as conseqüências disso, como por exemplo: as civilizações Maya e da Mesopotâmia.

O solo em que se plantam as diversas culturas que conhecemos tem se perpetuado a milhões de anos sem a interferência do homem. E ele tende a continuar assim, caso não alteremos seu ciclo natural. No solo, existem nutrientes e traços de determinados elementos essenciais que as plantas precisam para crescer e viver. Os elementos oxigênio, água, minerais e matéria orgânica, criam-se condições para  suportar vida no solo. Quando se fala em saúde do solo, fala-se em solo que consiste aproximadamente de pouco mais de 90% de matéria orgânica e o restante de substâncias orgânicas, que, por sua vez, têm a seguinte composição: 85 % de húmus, 10 % de raízes e 5 % de micróbios, fungos e algas e minhocas.

3.6. Adubos

            A agroecologia e o plantio em forma de agroflorestas, faz uso de adubos naturais, que não impõe ao solo alta produtividade no momento inicial máxima, seguida de grande degradação da terra. Este trabalho procura divulgar o livro Manual prático de agroecologia de Ernani Fornari, que contém diversas formas de utilizar fertilizantes naturais:

3.7. Água

            A manutenção da água e a economia que podemos fazer em relação a água utilizada na agricultura está diretamente ligado á preservação do solo.

A agricultura é responsável por cerca de dois terços de uso de água no planeta , isso porque a água não é bem aproveitada e nem totalmente absorvida pela planta.

            Somente um solo com um pH balanceado e uma boa estrutura é capaz de reter água, que manterá o solo úmido, gerando economia hídrica.

            A cobertura orgânica melhora a estabilidade dos agregados do solo, isso faz com que se mantenha altas as taxas de infiltração e diminui o escoamento superficial e a perda total da água, o que atua diretamente na eliminação da erosão e a manutenção dos recursos hídricos.

 Com a cobertura vegetal oriunda dos sistemas agroflorestais, acontece uma grande economia com irrigação pela manutenção da umidade. A água não era para precisar ser introduzida no sistema, só se faz irrigação porque os sistemas estão pobres e a umidade se torna escassa.

Um manejo correto do sistema aproveita melhor a água, cria condições para o controle biológico natural de pragas e doenças e aumenta a fertilidade do solo.

Além disso, é importante observar o ciclo da chuva, como se faz desde os promórdios da agricultura. Geralmente, a época de plantio é anterior ao período em que se iniciam as chuvas, pois no começo da vida das plantas é o momento que elas mais precisam de água. Conjuntamente, observar quais precisam de sol para brotar e as que crescem bem em sombra, para assim introduzi-las no momento propício. Vale lembrar que as braquiárias também aproveitam o período de chuva para virem com força, mas são plantas que não sobrevivem bem sem o sol, portanto, o enfoque em estar constantemente planejando o sistema. 

            Usar a água irrigada de lençóis freáticos é  utilizar uma água que  será necessária ao futuro, porque quando ela é bombeada rapidamente, não há tempo para que ela seja reposta pela chuva. A irrigação também é responsável pela erosão do solo, sendo que em produções de alta escala, a agricultura chega a mudar a hidrografia da região.

            Outro ponto a ser levantado em relação a agricultura convencional, é que com o uso de defensivos agrícolas, muitas nascentes e leitos de rios são contaminados, o que traz um problema enorme para as pessoas e meio ambiente que utilizam essa água.

            Plantar agroflorestas é uma vantagem então, para toda essa economia de água e manutenção dela limpa, bem como plantar agroflorestas nas margens dos cursos dos rios é uma forma inteligente de acatar as leis federais que proíbem a destruição de florestas ciliares e obriga a plantar a vegetação arbórea de proteção nas margens desmatadas, sendo que a lei não proíbe a retirada de frutas, mel e outros recursos que não sejam madeiras.

4. Classificação, sistemas e práticas agroflorestais     

            A agrossilvicultura é um sistema eficiente de uso da terra, onde árvores são cultivadas em consórcio com culturas agrícolas e/ou criação animal. Esse tipo de sistema propicia, entre outras vantagens, a recuperação da fertilidade dos solos, o fornecimento de adubos verdes e o controle de ervas daninhas.

As diferentes culturas podem ser cultivadas em fileiras ou aleatoriamente com espécies arbustivas ou arbóreas, geralmente leguminosas, e na qual as espécies lenhosas são podadas periodicamente durante a época de cultivo.

Sistemas agroflorestais são sistemas de produção consorciada de forma a maximizar a ação compensatória e minimizar a competição entre as espécies, conciliando produtividade e rentabilidade econômica, protegendo o meio ambiante e melhorando a qualidade de vida das populações rurais, promovendo, assim, o desenvolvimento sustentável.

Atributos de um Sistema Agroflorestal (SAF):

  • Componentes: elementos físicos, biológicos e sócio-econômicos.
  • Limites: definem bordas físicas: entradas (energia solar, mão-de-obra, insumos) e saídas (alimento, madeira e produtos animais), constituem a energia ou matéria trocada entre sistemas.
  • Interações: relações entre os componentes do sistema.
  • Hierarquia: posição do sistema com relação a outros sistemas.

4.1 Classificação

            Uma das principais características dos sistemas agroflorestais é a presença de componente arbóreo em sistemas agrícolas, que funciona como um referencial para a classificação dos sistemas. As árvores, em sistemas agrícolas, aumentam a diversidade dos sistemas de monoculturas, controlam as condições microclimáticas para os outros componentes e melhoraram ou conservam as propriedades físicas, químicas e biológicas do solo. A classificação dos SAF's é feita seguindo os seguintes critérios:

4.1.1. Estrutural

Envolve composição, arranjo espacial dos componente arbóreos (estratificação vertical e fisionomia) e o arranjo temporal dos componentes.             Os SAF's apresentam três grupos de componentes a serem manejados: a) o florestal, representado pelas árvores, palmeiras ou outras plantas lenhosas perenes que podem ser silvestres; b) o agrícola, com plantas herbáceas, arbustivas e forrageiras; c) o animal, de pequeno ou grande porte.

            O arranjo espacial considera a densidade de plantio e a distribuição das plantas na área. A distribuição das árvores pode ser mista, com outros componentes, como nos sistemas de reflorestamento, ou em zonas que podem ser estreitas (microzonais), ou plantio entre fileiras de árvores, ou largas (macrozonais), nos quais as árvores podem ser plantadas em faixas ou blocos distantes uns dos outros, como nas cercas-vivas, quebra-ventos, bancos de proteína, e nos plantios de árvores em terraços para conservação de solo.

4.1.2. Funcional

Refere-se á função do componente arbóreo no sistema: produção de bens (madeira, fruto, semente, forragem, lenha, etc.) ou de serviços (quebra-ventos, cercas-vivas, conservação do solo) a outras espécies ou ao sistema como um todo.

4.1.3. Sócio econômico

Aborda o nível de utilização (intensidade) de insumos no manejo com objetivos comerciais, intermediários e de subsistência, podendo ser utilizados diferentes níveis tecnológicos (alto, médio e baixo) e de manejo.

4.1.4. Ecológico

Refere-se ás condições ambientais e de sustentabilidade ecológica dos sistemas, onde as condições ecológicas determinam os tipos de sistemas mais apropriados.

4.2. Tabelas de classificação dos diferentes SAFs, indicando os diversos tipos de sistemas, descrições, componentes e suas funções.

4.2.1. Sistemas Agrossilvicultural             

Sistema

Descrição

Componentes

Função

Pousio Melhorado

Plantio de árvores na fase de pousio

Arbóreos: pioneiras e leguminosas

Agrícolas: culturas comuns

Produtos: madeira, lenha, frutos

Proteção: melhoria do solo

Taungya

Plantio de espécies agrícolas nos primeiros anos dos povoamentos florestais

Arbóreos: espécies comerciais

Agrícolas: culturas comuns

Produtos: madeira

Proteção: conservação do solo

Alley Cropping (Aléias)

Plantio de árvores em fileiras ou faixas e cultivo agrícola entre as fileiras ou faixas

Arbóreos: pioneiras e leguminosas

Agrícolas: culturas comuns

Produtos : lenha

Proteção: conservação do solo

Árvores de uso múltiplo em áreas de cultura

Árvores plantadas, dispersas aleatoriamente, ou em padrão sistemático em bordas, terraços ou faixas

Arbóreos: uso múltiplo ou frutífero

Agrícolas: culturas comuns

Produtos: vários produtos das árvores

Proteção:sombreamento, fixação de conservação do solo

Culturas arbóreas com cultivos agrícolas

Plantio mutiestratificado com árvores para sombreamento de culturas arbóreas ou herbáceas

Arbóreos: espécies cultivadas e para sombreamento

Agrícolas: culturas comuns e tolerantes á sombra

Produtos: madeira, frutos, etc.

Proteção: melhoria, sombreamento, conservação do solo

Jardins domésticos

Combinação multiestratificada de árvores e culturas agrícolas em torno da casa

Arbóreos: uso múltiplo e frutífero

Agrícolas: culturas comuns

Produtos: vários produtos das árvores

Proteção: conservação do solo

Árvores para melhoria ou conservação do solo

Árvores plantadas em faixas e terraços

Arbóreos: xuso múltiplo

Agrícolas: culturas comuns

Produtos: vários produtos das árvores

Proteção: conservação do solo

Cercas-vivas e quebra-ventos

Árvores plantadas em torno de culturas

Arbóreos: árvores de diferentes alturas

Agrícolas: culturas comuns

Produtos: vários produtos das árvores

Proteção: cercas, quebra-ventos

4.2.2. Sistema Silvipastoril             

Sistema

Descrição

Componentes

Função

Árvores em pastagens naturais e/ou plantadas

Regeneração artificial ou natural de árvores em áreas de pastagens naturais ou artificiais

Arbóreos: uso múltiplo e forrageiras

Agrícolas: gramíneas e leguminosas

Animal: bovinos, suínos ou ovinos

Produtos: produtos das árvores, forragem e produtos animais

Proteção: sombra para os animais

Pastejo em áreas reflorestadas

Pastejos em povoamentos florestais comerciais

Arbóreos: espécies comerciais

Agrícolas: gramíneas leguminosas

Animal: bovinos, suínos ou ovinos

Produtos: madeira, forragem e animais

Proteção: sombra

Banco de proteína

Plantio de árvores em áreas de produção de proteína para corte ou pastejo direto

Arbóreos: leguminosas forrageiras

Agrícolas: gramíneas

Animal: bovinos, caprinos ou ovinos

Produtos: forragem

Pastejo em áreas de cultura arbórea

Áreas de culturas arbóreas sob pastejo

Arbóreos: arbóreas cultivadas

Agrícolas: gramíneas e leguminosas

Animal: bovinos, suínos ou ovinos

Produtos: vários

Proteção: sombra

Árvores para produção de forragem de peixes

Plantio de árvores nos taludes de tanques, represas ou açudes para produzir forragem para peixes

Arbóreos: árvores forrageiras para peixes

Animal: peixes

Produtos: forragem

Proteção: estabilização de talude

4.2.3.- Sistemas Agrossilvipastoris             

Sistema

Descrição

Componentes

Função

Jardins domésticos com animais

Combinação multiestratificada de árvores, culturas agrícolas e animais em torno da casa

Arbóreos: uso múltiplo e frutíferas

Agrícolas: comuns

Animal: pequenos animais

Produtos: vários

Proteção: conservação do solo

Sistemas agrossilvipastoris em áreas de plantio florestal

Método taungya seguido de pastejo durante a fase de manutenção florestas

Arbóreos: comerciais

Agrícolas: gramíneas e leguminosas, forrageiras

Animal: bovinos, suínos ou ovinos

Produtos: vários

Proteção: sombra

5. A importância da Biodiversidade nos sistemas agrícolas

O termo biodiversidade é mais popularmente conhecido quando nos referimos á riqueza de espécies, ou seja, a todas as espécies de plantas, animais e microorganismos, que são encontradas em um determinado ecossistema. Todo ecossistema, mesmo sendo agrícola, pode ser rico, com muitas espécies diferentes, ou pobre, com poucas espécies (Figura 4). A biodiversidade é muito importante, pois promove a estabilidade dos ecossistemas e mantêm em baixos níveis (regula) as populações de fitófagos pragas.

 

 

 

 

 

 

 

 

Figura 4: Comparação entre duas amostras (A e B) de insetos, contendo cada uma 30 indivíduos. Amostra A é constituída apenas por duas espécies, típica de monocultivos, sendo pouco diversa quando comparada á amostra B, mais diversa, com várias espécies de insetos, próprias de ambientes com alta diversidade.

é também um dos elementos chave na regulação dos processos biológicos nos sistemas de produção agrícola. Enquanto maior o número de espécies de cultivos em um mesmo local, mais diversos são os "esconderijos" onde diferentes organismos, principalmente predadores e parasitas, podem se abrigar e se estabelecer. Além disso, a diversidade de cultivos fornece recursos alimentares extras para os inimigos naturais, e ainda cria dificuldades para as pragas localizarem suas plantas hospedeiras (Figura 5). Há também um aumento das espécies de polinizadores, que são atraídas pela diversidade de flores. Do ponto de vista das condições do solo, as diversas espécies de microorganismos e plantas podem interagir e contribuir para o equilíbrio de nutrientes, assim como para a manutenção da umidade e aeração. Os mesmos personagens olhando para um policultivo dizendo: "_Onde será que está o nosso almoço?". E os predadores escondidos dizendo: "_Mal sabem que o almoço aqui são eles". Hahahahaha!

6. Pragas em agrossistemas diversificados

Misturar espécies apresenta resultados bastante satisfatórios, pois insétos herbívoros apresentam-se mais abundantes em monocultivos, onde encontram mais facilmente suas plantas hospedeiras. Além disso, plantas quando consorciadas apresentam um aumento da resistência contra herbívoros. Insetos são guiados principalmente pelo olfato e a grande diversidade de plantas vizinha e de vários odores dificulta bastante a localização dos recursos. Além disso, cria-se um ambiente muito complexo, com diferentes níveis de sol, sombra e umidade, diferenças de temperatura e ainda, a presença física de outra planta pode proporcionar uma camuflagem, dificultando a busca pela imagem. Os ambientes bastante diversificados permitem o estabelecimento de inimigos naturais, que preferem habitats desse tipo, e acabam ajudando a combater várias espécies de pragas. Existe também a contribuição das diferem formas e aglomerações de plantas em SAFs, que podem atrapalhar o vôo ou dispersão das pragas (Figura 6).

6.1. Policulturas e o manejo de pragas

O policultivo tem um papel muito importante nas agriculturas das regiões tropicais e apresenta uma série de vantagens:

a) reduz as populações de insetos.

b) evita a entrada de muitas plantas invasoras por sombreamento e competição.

            c) melhora o uso de nutrientes no solo e eleva a sua quantidade.

Tabela 1. Representação esquemática sobre a movimentação das pragas em culturas diversificadas, do tipo Agrofloresta, e as reações causadas sobres as populações das pragas.

Movimentos das pragas

Sobrevivência + crescimento na fonte

Reações do sistema sobre as pragas

 

 

Invasão e estabelecimento na cultura

 

Interferência na resposta do olfato e da visão

 

Barreira física para colonizadores

Desvios para hospedeiras tolerantes ou menos importantes

 

 

Desenvolvimento da população e sobrevivência

 

Dispersão limitada entre plantas

Interrupção da alimentação e da reprodução

Aumento das chances de mortalidade por inimigos naturais

 

Migração para outras culturas ou habitats adjacentes

 

Entretanto, sabe-se que em sistemas orgânicos existem baixos rendimentos das culturas e perdas consideráveis de produção. Pragas e doenças podem ocorrer nos primeiros anos de manejo, pois o sistema leva um tempo para restaurar os mecanismos ecológicos que promovem o controle biológico. A idéia é implantar um sistema de controle de pragas gradualmente, de acordos com as necessidades ambientais e econômicas do agricultor. A medida que ocorre a restauração da biodiversidade, os sistemas ecológicos  promovem a sustentabilidade do local.

Etapa 1: Conversão dos sistemas convencionais - usa-se inseticidas seletivos para evitar a morte de inimigos naturais, e apenas quando o monitoramento das populações de pragas justificar tal atitude.  O próximo passo é substituir para insumos menos danosos ao ambiente e incluir algum nível de biodiversidade na vegetação para romper o padrão de monocultura.

Etapa 2:  a) Integração de inseticidas com rotações de culturas, manejo de invasoras e uso de variedades precoces ou resistentes.

                b) Uso de inseticidas biológicos (Bacillus thuringiensis ou Baculovirus).

c) Produção e liberação de predadores e parasitóides para controle biológico.

d) iscas com uso de feromônios. e) cultura de coberturas e consórcios.

 f) diminuição do uso de inseticidas químicos.

Etapa 3: Substituição contínua de insumos químicos por biológicos e redesenho do agrossistema.

Etapa 4: Fim do uso de inseticidas químicos. Agrossistema deve estar sendo redesenhado, sob ponto de vista da diversificação de culturas, criação de ilhas de diversidade, corredores de árvores e fragmentos de mata.

Etapa 5: Agrossistema mais complexo com o redesenho, apresenta funções ecológicas que regularão naturalmente as populações de pragas. Pode-se utilizar: plantas resistentes a insetos, culturas armadilhas, refúgios de inimigos naturais, manejo de plantas invasoras, policulturas, faixas de vegetação, fontes de abrigos, presas e hospedeiras alternativas, néctar e pólen para inimigos naturais e cercas vivas.

6.2.             Padrões de abundância

A redução das populações das pragas nos agrossistemas se deve ao aumento das populações e diversificações de inimigos naturais (predadores, parasitóides, fungos e bactérias).  A grande variedade de cultivos fornece muitas opções para esses inimigos. Alem disso reduz a taxa de colonização de pragas, mascara e/ou inibe a alimentação das pragas através de plantas não hospedeiras que se encontram próximas ao recurso e ainda permite uma sincronia entre pragas e inimigos naturais (Figura 7).

Figura 7: Métodos para diversificar os agrossistemas de forma a garantir uma série de processos ecológicos e os objetivos da sustentabilidade.

A necessidade cada vez maior de rapidamente se extrair o produto de cultivo (matéria-prima), principalmente por parte da indústria, aliada ao uso de insumos agrícolas milagrosos, não matou a fome dos famintos, poluiu o planeta, esgotou o solo, exterminou a biodiversidade em plantios.

Grande parte dos agrotóxicos utilizados em agricultura é solúvel em água, podendo ser transportados pela chuva e contaminar grandes reservatórios de água, causando a eutrofização de rios e lagos, estimulam o crescimento de algas, roubam o oxigênio da água.

7. Quais as vantagens econômicas da produção em Agroflorestas?

Os sistemas agroflorestais são sistemas de biodiversidade, que possuem vantagens econômicas para os agricultores familiares:

1-       Aumento da diversificação de produtos que o agricultor pode negociar. Enquanto o agricultor de sistemas de monoculturas tem poucas alternativas de comercialização (pouca diversidade), em sistemas agroflorestais o produtor não depende apenas de um produto.  Nesse caso existe a possibilidade de comercialização de diversos produtos, aumentando a versatilidade e a segurança do produtor. Sistemas agroflorestais oferecem a possibilidade de colheitas ao longo do ano inteiro. Plantando-se em consórcio diversas culturas de curtos, médios e longos ciclos, sempre há o que colher. Por exemplo: verduras e o feijão, depois de 60 dias; o milho e o quiabo depois de 3 meses; a macaxeira o mamão e a banana depois de 1 ano; abacaxi, o café, a acerola, a pinha, depois de 2 anos; o caju a manga, o abacaxi a jaca, a laranja e o sapoti entre 5 e 10 anos depois.

2-       O sistema de consórcio, uma das bases do sistema agroflorestal, reduz a quantidade de doenças e pragas.  Isso possibilita ao produtor a independência de insumos externos (herbicidas e agrotóxicos), reduzindo dessa forma os custos de produção.

3-       Na agrofloresta, as propriedades do solo assim como a umidade, são mantidos pelos processos naturais, reduzindo dessa forma o custo de manejo (irrigação, adubação, roçado, arar).  Além disso há associação de microorganismos-solo-planta, o que traz benefício a todos os organismos.

4-       Produção de alimentos mais ricos em em nutrientes e vitaminas, em virtude da qualidade do solo e do equilíbrio nutricional das plantas no sitema.

5-       Amplianção da capacidade produtiva em pequenas propriedades, pois é possível a integração entre agricultura-pecuária-criação de aves, fazendo ciclos que se renovem e se complementem.

8.Transição do modelo convencional para o agroecológico

Essa transição pode ser feita levado em conta a recuperação do solo dos produtos usados nos plantios anteriores, um planejamento do novo plantio em consórcios, considerando as etapas de sucessão, de fertilidade e cobertura do solo com matéria orgânica.

Se desejar fazer a transição gradual, uma importante observação é a não retirada total dos insumos aplicados (adubos e fertilizantes), o melhor é cada vez que for aplicar diminuir a quantidade pela metade, assim evitamos que o sistema entre em colapso. Paralelamente ir inserindo mais espécies, a fim de aumentar a diversidade. é importante também fazer um planejamento de onde se quer chegar, para saber em que hora entra cada espécie a ser introduzida.

Começar a manter o solo constantemente com cobertura orgânica, assim a fertilidade dele vai sendo restabelecida, para que se possa retirar os adubos. Não existe excesso de matéria orgânica para o solo.

Com o aumento da diversidade de espécies e fertilidade do solo, a tendência é das plantas crescerem mais prósperas e saudáveis e que assim resistam bem aos insetos e ás doenças, como acontece na natureza quando o sistema está equilibrado.

Como a agrofloresta valoriza a imitação a natureza, é bom plantar árvores que sejam características de cada região, muitas vezes, se perde o contato com a vegetação nativa, mas provavelmente existe algum morador mais antigo da região ou algum registro que indique qual era essa vegetação, e ai está uma boa oportunidade de retomar paisagens destruídas pela ação do homem.

Um jeito de se retomar essa vegetação é abrir clareiras em que combatemos as plantas oportunistas, como a braquiária, capins, ervas daninhas. Dessa forma plantando arbustos e árvores de crescimento rápido e leguminosas, trará sombra e a fertilidade ao terreno, necessário para que as oportunistas não voltem a crescer e também para dar oportunidade para que o banco de sementes que existe no seu solo possa finalmente germinar.

Também é importante a introdução de componentes alimentares de curto, médio e longo prazo, bem como de árvores frutíferas, para que desde o início o SAF implantado seja produtivo! Portanto as colheitas não são realizadas só uma vez por ano, as colheitas são realizadas muitas vezes, durante o ano todo.

9.Preparo do solo, manejo, capina e poda

No preparo do solo para plantar em sistema agroflorestal, não é necessário arar a terra, utilizar tratores e equipamentos caros, pois esses procedimentos acabam expondo os nutrientes desnecessariamente.

Em SAFs as minhocas, as formigas, as larvas de escaravelhos (que são chamados de macrofauna do solo) tem esse papel de revolver a terra, enterrar resíduos de plantas e animais, acelerar a decomposição, por isso a preocupação é em manter a terra saudável para que as minhocas e outros organismos relacionados possam sobreviver nela.

Portanto aquela imagem do solo todo "limpo" e exposto, e na verdade a imagem de solo que está perdendo sua capacidade fertilizante.

Fig 4. Solo arado (www.massey.com.br )

Porém até que o SAF esteja mais desenvolvido e tenha já superado as primeiras etapas de sucessão, é preciso uma interferência do homem, da mulher e dos filhos agricultores, para realizar capinas seletivas e podas periódicas.

Essas capinas seletivas manuais são para a retirada das plantas que não sejam convenientes ao sistema, o capim por exemplo, que já cumpriu sua função.

Porém, da onde se retirou o capim é preciso substituir por outra planta, para que a oportunista não volte a brotar, espécies que fazem bem isso são o feijão-de-porco, o guandu, a papoula, espécies que crescem fácil e competem com o capim.

Tudo que se foi retirado do sistema, ali permanece como matéria orgânica para adubar e proteger o solo, é só tomar cuidado para que as raízes não fiquem próximas ao solo e possam rebrotar.    

            Já a poda tem uma importante função na agrofloresta, junto com a capina para retirar o que já cumpriu sua função e dar lugar ao novo.

Existem três tipos de poda a drástica, de rejuvenescimento, de condução. A drástica é realizada em plantas de já estão envelhecidas (senescêntes), muitas podem rebrotar quando podadas, mas se não puderem, precisam ser retiradas e substituídas no sistema.

Geralmente a melhor época para realizar a poda das árvores é o fim da seca, que geralmente também é a melhor época para plantar, antes de se iniciarem as chuvas. Porém, o que já está envelhecido, pode ser retirado ou podado em qualquer época.

            Árvores frutíferas devem ser podadas após a darem seus frutos e geralmente pode ser uma poda mais leve.

            Portanto, as podas de rejuvenescimento e condução têm função de trazer mais vida ao sistema, muitas vezes simplesmente para permitir a entrada de mais raios solares ou fornecer espaço para outras plantas germinarem e florescerem.

            As podas devem ser feitas com materiais apropriados para não machucar as plantas. As podas de arbustos ou árvores menores podem ser realizadas com facões afiados de baixo par cima num ângulo próximo de 45º, isso favorece o reestabelecimento das plantas.

            Assim como na capina seletiva, todo material podado é aproveitado como biomassa para o solo, então nunca podemos dizer que estamos perdendo material quando realizamos uma poda, as plantas podadas continuarão sua função no sistema.

            Como a intenção do sistema agroflorestal é entrar em equilíbrio, respeitando a sucessão, o cuidado com o solo e água, com os organismos associados, o manejo correto, a capina seletiva e a poda correta, irá trazer ao sistema a sincronização dos ciclos das plantas, cada uma cresce e se desenvolve no seu respectivo tempo.

 

 

Autor:

Fernando Fernandes Pereira

fernando_ffp[arroba]hotmail.com



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