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Cooperativismo: uma resistência à exclusão (página 2)

Antonio Inácio Andrioli

A importância da solidariedade na sociedade

Diante do contexto de exclusão que marca a sociedade capitalista, uma das possíveis formas de inclusão é a criatividade individual de cada um que, de forma isolada, procura resistir  por conta própria no mercado. É o caminho dos micro-empresários e trabalhadores autônomos que, com um reduzido montante de capital à disposição, se lançam na difícil tarefa da sobrevivência. Com sua ação isolada, a tendência ao fracasso é muito grande e, com os inúmeros casos de insucesso, intimidam-se outras ações similares.

Uma outra forma possível é o trabalho associado, onde um grupo de pessoas se organiza  e, contando com acompanhamento e maior conhecimento à sua disposição, possui maior probabilidade de sucesso. É a ação solidária dos que se unem por possuírem o mesmo problema, por uma mesma necessidade, buscando um benefício comum. De acordo com Marques(4), "a solidariedade dos que enfrentam os mesmos problemas é o melhor caminho para que cada qual melhor os entenda e melhor os enfrente, não na estreiteza e no confinamento do seu eu individual, mas numa forma nova de pensar e agir: a consciência do grupo e a forma de cooperação".

No entanto, é difícil conceber a importância da solidariedade, numa sociedade marcada pela competição e pelo individualismo. Sendo que a lógica do mercado se regula pela concorrência, pela vitória de um sobre o outro, a cooperação perde o seu sentido de ajuda-mútua para se reduzir a uma mera tática de intervir no mercado: unir-se com uns para competir com outros. Assim, o desafio de construir organizações cooperativas no contexto de competição e luta desenfreada pela sobrevivência, se torna bastante complicado sem um espaço de reflexão sobre o significado do ato cooperativo, da importância da convivência e da solidariedade.

A compreensão do sentido da solidariedade é maior que o exercício de atitudes solidárias. Em vários momentos da história humana são registradas ações de caridade,  de auxílio em favor dos necessitados. Entretanto, essas atitudes solidárias nunca conseguiram ser significativas como alternativas, pelo seu caráter paliativo, isolado e descontinuado,  não conseguindo configurar um movimento ou organização. Assim, a atitude solidária representou  pouco como alternativa aos problemas que pretendeu resolver e não conseguiu reproduzir-se enquanto ação.

Quando nos referimos ao sentido da solidariedade estamos nos referindo à necessidade de construirmos uma "cultura solidária" entre as pessoas, não com base no simples altruísmo ou "espírito de ajuda ao próximo", mas com significado de resistência conjunta diante de adversidades comuns e de criação de instrumentos coletivos para intervenção na realidade e superação de problemas de maneira organizada. É esse o sentido da solidariedade: a consciência de grupo diante de problemas comuns e a organização coletiva para construir soluções.

E isso, é claro, demanda um processo de educação permanente e continuado nos próprios grupos que se constituem. De acordo com o sociólogo Alfie Kohn, citado por BROWN (5), com esse processo de educação, "trata-se de ir para além de um ponto de vista individual. Mesmo que me pareça apropriada a competição... necessito perguntar-me se é do nosso interesse coletivo seguir competindo. Se não é assim, então precisamos não apenas pensar, mas também agir como grupo. Substituir a competição estrutural pela cooperação exige a ação coletiva, e essa ação coletiva requer a educação e a organização". O processo de educação, com vistas à difusão dos valores da solidariedade e da autogestão, considera que é na prática cooperativa que construímos a consciência da cooperação. "O ato de educar passa pela experiência. Neste sentido, entendemos que cooperando, tornamo-nos cooperativos, fazendo experiências de solidariedade, tornamo-nos solidários" (6).

O potencial do cooperativismo diante do desemprego

O cooperativismo, como teoria e movimento oficialmente reconhecido, teve origem na organização dos trabalhadores na Inglaterra, no período da Revolução Industrial. Segundo os registros históricos, no ano de 1844, diante do desemprego e dos baixos salários, em Rochdale, um bairro da cidade de Manchester, 28 tecelões se reuniram para comprar coletivamente produtos de primeira necessidade, incluindo alimentos. Formaram, então, a "Sociedade dos Probos Pioneiros de Rochdale", conhecida como primeira cooperativa da história. A experiência dos trabalhadores da Inglaterra difundiu-se para outros países, influenciando a organização de cooperativas de trabalho na França e as cooperativas de crédito na Alemanha. Mais tarde, essas experiências foram difundidas pelo mundo inteiro e, atualmente, as cooperativas são reconhecidas legalmente como uma forma de organização no Brasil (7).

As cooperativas podem ser organizadas nos mais diferentes setores da economia, no campo e na cidade. Enquanto na primeira metade do século XX a maioria das cooperativas estavam ligadas à agricultura, no atual período as cooperativas urbanas é que estão em maior expansão. Isso pode ser explicado pela crise e descrédito por que passam as cooperativas rurais, o êxodo rural e a maior emergência de problemas sociais nas cidades. Podemos afirmar que em torno de qualquer problema econômico ou social é possível constituir uma cooperativa. Assim, pela diversidade de possibilidades de atuação, as cooperativas se apresentam como alternativa para a resolução de problemas decorrentes do desemprego. Como instrumentos de geração de emprego e renda, as cooperativas podem atuar desde os processos de produção, industrialização, comercialização, crédito e prestação de serviços. As experiências mais significativas que têm sido constituídas, no último período, foram as cooperativas de trabalho e de produção industrial. As cooperativas de trabalho congregam pessoas, geralmente desempregadas, para prestar serviços a outras empresas, num processo de terceirização. As cooperativas de produção industrial são decorrentes de processos falimentares de indústrias que passaram a ser administradas pelos próprios trabalhadores. Em ambos os casos, apesar das dificuldades que os trabalhadores enfrentam e dos direitos trabalhistas que, por vezes, são prejudicados, as cooperativas apresentam um conjunto de vantagens aos trabalhadores que, possivelmente, sem elas, estariam numa condição de vida mais precária.

É através da cooperativa que muitos trabalhadores conseguiram manter ou ter acesso ao trabalho e renda. Por sua característica autogestionária, a cooperativa propicia um amplo processo de educação dos participantes. O exercício da participação e da convivência constrói novas relações entre as pessoas, o que, também, se reproduz para a sociedade. As rupturas nas relações de produção entre os cooperados, decorrentes da organização coletiva, refletem no seu processo de consciência, contribuindo para a formação de lideranças e na promoção da cidadania.

Entretanto, a organização cooperativa de pessoas historicamente excluídas do acesso ao conhecimento, carece de um amplo trabalho de formação que inclua sensibilização e motivação, preparação técnica, estudo da história do cooperativismo e seus problemas, etc. A pouca difusão do cooperativismo enquanto teoria e a histórica tutela do Estado sobre a criação e organização das cooperativas também contribuiu para o pouco conhecimento que a maioria das pessoas possuem acerca deste tema. A passagem do estágio de excluído para construtor e participante de uma cooperativa demanda um conjunto de rupturas na forma tradicional de concepção do trabalho. A autogestão, o planejamento da produção, a construção da relação com o mercado, são algumas das necessidades que se impõem ao processo cooperativo e, portanto, exigem conhecimento qualificado por parte dos participantes. O processo de formação e capacitação dos trabalhadores, em nosso entendimento, é o primeiro passo para a eficácia da ação cooperativa e se constitui em necessidade permanente aos grupos interessados na geração de trabalho e renda.

Pela histórica relação que o cooperativismo possui com o desenvolvimento local e seu potencial de geração de renda através do trabalho associado, a aposta na sua difusão, implementação e apoio permanente é estratégica contra o desemprego.  A disposição do poder público em incentivar o cooperativismo, em parceria com entidades da sociedade civil, pode contribuir na promoção de programas e ações que visem a instrumentalização técnica e pedagógica do processo de constituição de cooperativas. Seguramente, o apoio a esta iniciativa trará bons frutos e poderá contribuir para reduzir as dificuldades daqueles que, excluídos do mercado de trabalho, poderão construir seu próprio empreendimento, utilizando a "ferramenta" do cooperativismo, tantas vezes descoberta em momentos de crise para a resolução de problemas e necessidades comuns dos trabalhadores.

Referencias

(1) Dados de sua exposição no II Fórum da Solidariedade, 22/10/99 em Porto Alegre - RS.

(2) Conforme José Paulo Netto (PUC-SP), em conferência realizada na 22ª. Reunião Anual da ANPED, em Caxambu – MG, 28/09/99.

(3) Conforme ANTUNES, Ricardo.  A centralidade do trabalho hoje. In: FERREIRA, Leila da Costa (org.)  A Sociologia no Horizonte do Século XXI. São Paulo: Boitempo, 1999, p. 93.

(4) MARQUES, Mário Osório & ROCHA, Regina H. Sizenando. 1º. Seminário Latino-americano de Comunicação Cooperativa – Conferências. Vol. 2., Garanhuns: ASSOCENE. 1978, p. 64.

(5) BROWN, Guilhermo. Jogos cooperativos: teoria e prática. [Trad. de Rui Bender]. São Leopoldo: Sinodal, 1994, p.  21.

(6) ANDRIOLI, Antônio Inácio.  GIEHL, Pedro Roque. PCE – Programa de Cooperativismo nas Escolas. Santa Rosa: COOPERLUZ, 1997, p. 10.

(7) A legislação cooperativista em vigor no Brasil está prevista na lei 5.764/71. Existem projetos em apreciação no Congresso Federal, porém, ainda não foram votados, o que ocasiona um vácuo jurídico, em função de sua anterioridade à atual Constituição Federal.

 

Antonio Inácio Andrioli

andrioli[arroba]espacoacademico.com.br

Professor do Mestrado em Educação nas Ciências da UNIJUÍ - RS. Doutor em Ciências Econômicas e Sociais pela Universidade de Osnabrück – Alemanha

Website: www.andrioli.com.br

Revista Espaço Acadêmico www.espacoacademico.com.br


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