O poder hipnótico do slogan

Enviado por Raymundo de Lima


  1. Slogans e a universidade
  2. Senha para o paraíso
  3. Slogan e as dificuldades de tomada de consciência
  4. Que fazer?
  5. Referências bibliográficas

Onde está a sabedoria que perdemos no conhecimento?

Onde está o conhecimento que perdemos na informação?

T. S. Eliot. (1888-1965)

Boa parte da vida humana contemporânea é guiada por sugestões, jargões e slogans . A sociedade é cada vez mais é doutrinada a consumir informações sintéticas e slogans que passam a integrar o estilo, a linguagem e a cultura. Quanto mais são repetidos os slogans, maior será a probabilidade deles se tornarem autônomos em relação às pessoas, como se fossem verdades absolutas. Uma vez adquirido status de transcendência, os slogans passam a ter mais importância do que a própria vida dos membros do grupo.

O psicanalista tende a achar que, no fundo, o que está em jogo na produção de slogans é gozo – o interesse de ‘mais gozar’ - presente mais na sonoridade do que do significado das palavras. É próprio da natureza do slogan não exigir esforço de análise, mas causar repetições cada vez mais automáticas, compulsivas, até ao desgaste final, resultando em desuso. Logo, porém, surge outro objeto lingüístico sintonizado com o momento. E todos podem novamente "mais-gozar" em repetir, repetir, até enjoar.

Uma rápida escuta nos leva a reconhecer o quanto o cotidiano está impregnado de palavras e frases de efeito que falam do espírito do momento de um determinado grupo humano. Assim foi nos tempos da Jovem Guarda, o ‘rei’ Roberto Carlos cunhou o dito vazio "é uma brasa, mora!" Repetir essa frase sinalizava estar incluído no movimento cultural e musical brasileiro irreverente. Depois foi a vez de Tony Tornado, recém chegado dos EUA, com uma participação estrondosa no Festival Internacional da Canção com a música BR-3, cunhou o slogan com algum sentido "podes crer, amizade". Pegou.

Parecia que todo mundo era ‘crente’ e ‘tinha amigos’. Nos anos 70 os jovens mais ou menos ligados ao movimento hippie, viraram "bichos". "É isso aí, bicho!". Foi repetido tanto sem desgastá-lo totalmente, uma vez que ainda hoje existem saudosistas usando esporadicamente essa expressão. A filosofia libertária hippie importou o "paz e amor". Hoje, o contexto social, político e cultural certamente é outro, mas os EUA continuam invadindo países em nome da "liberdade" e da "democracia": Vietnã, Camboja, Afeganistão e o Iraque, enfim, o mundo ainda precisa de slogan que peça "paz e amor"; mas um paz e amor ativos, dentro da linguagem da globalização.

O povo do Rio de Janeiro é mestre em inventar slogans, gírias e palavras de ordens. Meu pai me falava das ondas da linguagem carioca do tempo da boa malandragem: "sossega a periquita, "que é que há com meu perú", "qual é o parangolé" e tantos outros. Os vinte anos de Rio também fiz parte da corrente que repetia "tá russo!". Tudo era motivo para resmungos "tá russo, tá russo!". Era época de inflação alta e obviamente a sabedoria popular precisava encontrar um modo catártico de aliviar sua raiva dizendo " a vida está ruim", "está difícil sobreviver".

Slogans e a universidade

A universidade não é uma ilha cercada de sociedade com dificuldades e problemas. E sua linguagem - seu discurso - não está isenta de contágio do senso comum, mesmo com todos os cuidados epistemológicos investidos na pasteurização neopositivista de uma linguagem "científica", pretensamente ‘neutra’ e com ‘objetividade’. A universidade também produz clichês de linguagem, que faz o seu discurso ser não totalmente "científico" mas apenas mais um discurso - o "discurso universitário" , tal como formulou Lacan.

As Ciências Humanas especialmente sofrem esse problema: quanto mais elas se esforçam no sentido da ‘cientificidade’ mais se afastam do sentido ‘humano’ e, por outro lado, quanto mais se dedicam ao sentido ‘humano’ mais se afastam do rigor ‘científico’, dizia P. Grecco. Quando éramos alunos do curso de psicologia, nos anos 70, repetíamos uns para os outros: "você precisa assumir o que verdadeiramente você é". Quando soubemos o significado clinico da "empatia" passamos a usá-lo e abusar deste conceito para tudo. O mesmo aconteceu com o "desejo" [Wusch] a "pedra angular da teoria psicanalítica". Enchíamos a paciência de todos com frases "qual é o seu desejo?", "você precisa analisar o seu desejo!". Enfim, era desejo para lá e desejo para cá. Os familiares ficavam, no mínimo, apreensivos com tal "onda" comunicativa, que no fundo exercia um poder – o poder do discurso universitário - funciona como uma senha: os que sabem usar a senha serão incluídos no grupo dos "eleitos" e poderão "mais-gozar" desse poder.

Nos anos 70, nas escolas e universidade, era freqüente o uso e o abuso dos termos: "dialética", "contradição", "alienação", "conscientização"; os termos marxistas estavam na crista da onda do pensamento universitário. Eram termos quase que obrigatórios em aulas, palestras, bem como nas monografias e teses notadamente de ‘esquerda’. Funcionavam como uma senha que atraía os "progressistas", rejeitava os "reacionários" e provocava os "alienados". No convívio social, quando queríamos desconsiderar alguém, nessa época, costumávamos dizer que "fulano é um alienado". O oposto, isto é, ser de esquerda recebia o honroso título de "progressista". Já os simpatizantes do regime militar rotulavam todos os opositores de "subversivos".

Todavia, os genuinamente democráticos achavam ser necessário criticar todos os regimes totalitários fundamentalmente repressivos. "Abaixo a repressão!", era a palavra de ordem. Por que lutar contra as ditaduras latino-americanas de direita e não apoiar as críticas e lutas contra o totalitarismo burocrático do socialismo soviético, isto é, sua burocracia, sua nomenklatura, seus Gulags. Porém, quem ousasse dirigir esse tipo de crítica ao socialismo da União Soviética, da China, de Cuba, etc, corria o risco de ser queimado como "revisionista" e até mesmo "direitista". (Qualquer semelhança com o que ocorre hoje com o Governo Lula não é novidade). A esquerda sempre teve dificuldades de suportar a crítica e sempre se esquivou de fazer autocrítica. Muitos desses críticos foram injustamente queimados na ‘santa’ inquisição do partido ou dos círculos de fogo do meio acadêmico. O discurso do partido e o discurso da universidade exercem o poder burocrático, ambos, punindo sempre aqueles que ousam se afastar ou desafiar o cânon.


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