Saber aprender e ensinar no século XXI: o permanente desafio de construir a escola ética e cidadã

Enviado por João Beauclair


  1. Resumo
  2. Saber Aprender e Ensinar no século XXI: desafios contextuais
  3. Revisões paradigmáticas e Psicopedagogia: o caminho sendo trilhado
  4. Proposições e reflexões: ações e estratégias contributivas as vivências de aprendizagens significativas
  5. Conclusão: A magia de educar: aprender é ensinar, ensinar é aprender...
  6. Bibliografia

Saber aprender e ensinar no século XXI é permanente desafio à construção de um cotidiano escolar onde seja possível fazer valer as dimensões humanas da Ética e da Cidadania Ativa. Num tempo de revisões paradigmáticas em importantes campos do Conhecimento, da Ciência e Tecnologia, a Psicopedagogia pode auxiliar neste movimento, propondo estratégias e ações que viabilizem a melhoria dos processos de aprender, ensinar e conviver nos espaços institucionais de nossa atualidade. A proposta aqui apresentada é a de refletirmos sobre como tais ações e estratégias podem contribuir para que aprendizagens significativas sejam vivenciadas por todos os envolvidos na magia de educar, capacidade humana que faz com que sentidos e significados sejam despertos para um viver ético e cidadão.

Palavras-chave: Psicopedagogia, Cotidiano escolar, Aprendizagem Significativa, Ética e Cidadania, Sociedade Aprendente, Sociedade do Conhecimento.

Introdução:
"Somos todos anjos de uma asa só,
e só podemos alçar vôo
se estivermos abraçados
uns aos outros."

Léo Buscáglia

Saber aprender e ensinar no século XXI é permanente desafio à construção de um cotidiano escolar onde seja possível fazer valer as dimensões humanas da Ética e da Cidadania Ativa. Na complexidade de nosso tempo, com todas as questões sociais presentes, os modelos de percepção de mundo ultrapassados que não dão mais conta de encontrar alternativas possíveis, precisam ser superados para a construção de um novo tempo, onde possamos ver e viver dias melhores.

Na revisão paradigmática que atualmente vivemos em importantes campos do Conhecimento, da Ciência e Tecnologia, a Psicopedagogia pode auxiliar neste movimento, propondo estratégias e ações que viabilizem a melhoria dos processos de aprender, ensinar e conviver nos espaços institucionais educativos. A proposta aqui apresentada é a de refletirmos sobre como tais ações e estratégias podem contribuir para que aprendizagens significativas sejam vivenciadas por todos os envolvidos na magia de educar, capacidade humana que faz com que sentidos e significados sejam despertos para um viver ético e cidadão.

I - Saber Aprender e Ensinar no século XXI: desafios contextuais

"Os professores ideais são os que se fazem de pontes,
que convidam os alunos a atravessarem,
e depois, tendo facilitado a travessia,
desmoronam-as com prazer,
encorajando-os a criarem as suas próprias pontes."
Nikos Kazantzakis
Inicio este artigo utilizando uma linguagem metafórica, prática comum em minhas ações e produções como ensinante e aprendente no caminhar educativo de formar pessoas em Educação e Psicopedagogia. As metáforas possibilitam a construção de novos significados e ampliam nossas potencialidades de interpretação e intervenção com o mundo, com as pessoas, com o conhecimento.

O trecho escolhido acima como citação remete nosso pensar aos desafios de sermos pontes, enquanto ensinantes, aos nossos aprendentes. Ousar criar novos conceitos, pois também é interessante, para dar nova carga semântica as palavras e ações que necessitam nosso constante revisitar. Assim, as aprendizagens podem ganhar novas roupagens e impulsionar nossa criatividade, necessária para processos reflexivos mais abrangentes.

Faz tempo que brinco, feito criança, com as palavras, espaço de prazer e de procura de sistematização dos desafios vividos. Aprendências e ensinagens , por exemplo, são conceitos que gosto de trabalhar. Rubem Alves, Hugo Assman e Nilda Alves sustentaram meu inicial movimento neste sentido e Alicia Fernández, quando nos ensina sobre autoria de pensamento, fortalece este meu mover no mundo, em busca de novos sentidos e significados às minhas ações e intervenções educativas.

No contexto que atualmente vivemos isso é um imenso ganho para quem atua com pessoas e aprendizagem, pois possibilita a construção metacognitiva e cria espaços e tempos de trabalho, onde o fazer pedagógico amplia suas possibilidades. Aprender é ensinar e ensinar é aprender, como já nos falava, faz tempo, Paulo Freire, nosso educador maior numa perspectiva humanística, ativa e proativa de fazer educação.

Acredito que são números os desafios a serem enfrentados no contexto atual da ação educativa. Mas evito falar dos entraves como barreiras: e meu foco de ação sempre foi, é e será, sempre, vinculado as possibilidades, não aos empecilhos. Sair do lugar da queixa é estratégia essencial, pois quando não se move, a vida fenece. Diante das complexidades do ato educativo, queixar-se simplesmente é morrer em vida, pior morte, pois somos invadidos pela inércia, pela Síndrome de Gabriela: "eu nasci assim eu cresci assim vou ser sempre assim... Gabriela", como nos ensina o poeta.

Evitar esta síndrome é a ação maior que cabe a cada um de nós. Mas como fazer este movimento? Mudança de foco, reconstrução de um outro olhar sobre nossas vidas, ações e missões. Compromisso, militância e comprometimento com o agir e o fazer que leve a outros lugares, no caminho da utopia, que serve para caminhar, como nos ensinou Eduardo Galeano.

Utopia como mola mestra para o enfrentamento, que é uma palavra bonita quando mudamos o seu sentido. As palavras servem para serem mudadas e alteradas em seus sentidos para que utópicas, novas e criativas construções aconteçam. Serve este processo para semear em nossos corações à esperança como uma ação, como atividade e proatividade facilitadora de processos de mediação, onde o ser sujeito seja pleno de respeito, com as imensas variáveis que compõem nossa espécie.

Enfrentamento não pode mais ser visto como o tradicional enfrentar, que sugere conflito, disputa onde alguns perdem e outros ganham e que somente envolve dor, nenhum prazer.

Penso a palavra enfrentamento como uma postura, um posicionamento de cada um de nós ao se colocar em frente ao outro, com um olhar mais límpido e que facilita a importância do diálogo como estratégia de mediação de conflitos, possibilitadora de novos arranjos para as questões em aberto, ou em busca de alternativas, de soluções.

No cotidiano escolar a ação educativa não é ação isenta de nossas escolhas: quando em relação de ensinagem, cada um de nós, como aprendentes, deve ter em mente o que Henry Adams nos ensinou: um ensinante "sempre afeta a eternidade. Ele nunca saberá onde sua influência termina". E para tanto, que essa consciência ganhe efetiva presença em nossas vidas, um desafio se configura: superar o medo. É Nelson Mandela que trás relevante contribuição a este pensar quando em belíssimo texto nos diz que nosso medo mais profundo é de sermos poderosos além da medida e que é a nossa luz - e não nossa escuridão-, que nos assusta. Adiante ele afirma que cada um de nós pretendendo ser pequeno, não serve ao mundo.  A ação de ensinagem, visando aprendências e vivências significativas, deve ser elemento de luz diante das nossas cotidianas ações.

Ainda com Mandela, aprendemos que à medida que deixamos nossa luz brilhar, vamos dando permissão para que os outros façam o mesmo: esta não seria a maior missão de todos nós, educadores de crianças, jovens e adultos neste complexo mundo que vivemos, com tantas possibilidades de interação, movimento, aprendizagem e ressignificação da própria vida?

Aprender e ensinar, hoje, deve ser algo como o trabalho de um jardineiro, que ao cuidar do jardim, pensa na beleza das flores, dos frutos, dos pássaros, das sutilezas e das riquezas das diferentes manifestações da vida que neste espaço ocorre.  Quem, hoje com mais de 35 anos, não se lembra de suas aventuras (e algumas desventuras) quando crianças em seu jardim de infância, redescobrindo outros mundos, interagindo com outras pessoas, lidando com outras materialidades e aprendendo com a música, com a poesia, com as histórias, os cantinhos?  

Saber e ensinar no século XXI é tarefa de resgate de tempos outros, onde a ludicidade estava mais presente e com gostos de sabores mais amenos, menos apressados e prontos. Para isso, não é interessante fazer pesquisas de outros métodos e ler autores que se firmaram com suas excelentes contribuições a prática e a práxis pedagógica? Ler autores da Escola Nova, reler Piaget que, sabiamente, em seus escritos, nos dá a consciência de que a criança é o pai do adulto e fomentar em nossas escolas o gosto pela dúvida, pela busca, pela pesquisa como esforço de permanente abertura ao nosso pensar sobre novas tarefas e construções?


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