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O rasqueado mato-grossense: prática identitária e memória social (página 2)

Flávio Roberto Gomes Benites

Se, por um lado, essas noções descentraram o sujeito moderno, na outra mão, elas engendraram a discussão sobre as identidades culturais e o contato intercultural enquanto efeito da globalização; elemento que, de acordo com Hall,

refere-se àqueles processos, atuantes numa escala global, que atravessam fronteiras nacionais, integrando e conectando comunidades e organizações em novas combinações de espaço-tempo, tornando o mundo, em realidade e em experiência, mais interconectado. (2004:67).

No entanto, veio a necessidade de se saber a respeito da maneira como esse sujeito fragmentado é colocado em termos de suas identidades culturais, uma vez que a globalização acabou impulsionando aquilo que os Estudos Culturais chamam de "crise de identidade". A resposta é dada a partir da implantação de Sistemas de representação cultural, que têm por finalidade criar um sentimento de pertencimento a uma determinada cultura, a um grupo social.

Assim, criam-se discursos e símbolos recorrendo-se a idéias de tradição, costumes, narrativas míticas para se fixar uma identidade nacional. Segundo Woodward, "o passado e o presente exercem um importante papel nesses eventos. A contestação no presente busca justificação para a criação de novas - e futuras - identidades nacionais, evocando origens, mitologias e fronteiras do passado". (2004: 23).

No entanto, essa tentativa de reconstrução identitária é sempre contestada, posto que está em jogo relações de poder e de grupos dominantes, e a idéia de identidade nacional pressupõe a relação de diferenças e "... precisa ser concebida como harmonia e/ou tensão entre o plano individual e o social e também como harmonia e/ou tensão no interior do próprio social." (CHAUI, 2006: 26). No caso do Brasil, que tem dimensões continentais, a questão da identidade é, necessariamente, posta pelo jogo de relações entre as diferenças, mesmo que haja políticas que queiram fixar identidades. Especialmente quando se leva em conta o fenômeno da migração, como, por exemplo, do Nordeste para o Sudeste e do Sul para o Centro-Oeste, nesses casos, o hibridismo é preponderante.

O rasqueado ou o arquivo da identidade mato-grossense

Nos termos apresentados acima, assim como em outros Estados, Mato Grosso não pode ser identificado como uma cultura homogênea. Essa pluralidade de manifestações culturais é evidenciada, principalmente, pela música. Como veremos, há expressões locais que implicam em conflitos simbólicos entre grupos locais, ou os nativos, e o "estrangeiro".

Em se tratando de música, existem aquelas que são facilmente relacionadas com os agentes sociais que as executam devido ao fato de já terem se tornado de domínio público porque são disseminadas pelos meios de comunicação de massa. Por exemplo, quando se fala em forró, o referente imediato são os Estados do Nordeste; o Rio de Janeiro é conhecido pelo samba, a Bahia pelo axé.; há o vanerão gaúcho e o frevo pernambucano. Há outros ritmos, porém, que são menos conhecidos, como o carimbó do Pará, a catira de Goiás e o rasqueado de Mato Grosso.

O rasqueado cuiabano (assim conhecido por ser mais executado em Cuiabá, a capital do Estado) "é a música popular mato-grossense que tem as suas origens nos ritmos que formaram a música popular brasileira". (ARRUDA, 2007: 21). O rasqueado é formado por três ritmos que estão na base da formação do povo brasileiro, ou seja, o negro, o índio e o europeu:

Lundu - canto e dança populares no Brasil durante o século XVIII, introduzidos, provavelmente, pelos escravos de Angola [...] o cateretê - dança de origem ameríndia. O Padre José de Anchieta aproveitou-se de uma dança religiosa dos índios, chamada cateretê, para atraí-los ao cristianismo [...] habanera - ritmo antiqüíssimo hispano-árabe (séc. X). (ARRUDA, 2007: 21).

Os instrumentos utilizados na execução do tradicional rasqueado são o ganzá, o mocho ou adufo (espécie de tambor em forma de banquinho), o violinofone e a imprescindível viola-de-cocho. Arruda observa que novos instrumentos, principalmente os eletrônicos, são empregados por bandas ditas da região urbana.

O rasqueado e outras manifestações culturais típicas do Mato Grosso passaram por uma crise cultural devido ao fluxo migratório ocorrido a partir da divisão do Estado em 11 de Outubro de 1977. A divisão levou os políticos de então a se preocuparem mais com o problema agrário e o crescimento econômico frente à política nacional. "As terras mato-grossenses, abertas à colonização após a divisão do Estado, não contavam com a infra-estrutura necessária para receber e fixar o contingente migratório que estava por chegar". (SIQUEIRA, 2002: 212). Nesse contexto, o fator artístico-cultural ficou em segundo plano, sendo criado, somente em 1991 (de acordo com Siqueira) uma Política Estadual de Incentivo à Cultura e a criação da Secretaria de Estado de Cultura, em 1995.

Esse processo, já apresentado acima a partir da discussão teórica da identidade, fez com que grupos locais, preocupados com a possível perda de sua cultura, passassem a constituir diversas ações com o objetivo de fortalecer, preservar e difundir a cultura local em torno do rasqueado. Segundo Arruda (2007), os movimentos são o Grupo Sarã, os trabalhos de Vera-Zuleika, o Evento "Encantação Mato Grosso", a Caravana do Rasqueado e Confraria do Rasqueado. Esses movimentos abrigam tanto a "velha guarda e a nova geração do rasqueado".

Junto a esses eventos, as composições das letras se mostram como importante instrumento de divulgação de diversas práticas sociais locais. Nesse sentido, queremos mostrar que o rasqueado se constitui em um arquivo da memória cultural mato-grossense. A noção de arquivo é tomada de empréstimo de Michel Foucault, que o concebe em termos de práticas discursivas:

Não entendo esse termo a soma de todos os textos que uma cultura guardou em seu poder, como documento de seu próprio passado, ou como testemunho de sua identidade mantida; não entendo, tampouco, as instituições que, em determinada sociedade, permitem registrar e conservar os discursos de que se quer ter lembrança e manter a livre disposição. Trata-se antes, e ao contrário, do que faz com que tantas coisas ditas, por tantos homens, há tantos milênios, não tenham surgido apenas segundo as leis do pensamento, ou apenas segundo o jogo das circunstáncias, [...] mas que elas tenham aparecido graças a todo um jogo de relações que caracterizam particularmente o nível discursivo [...] O arquivo é, de início, a lei do que pode ser dito, o sistema que rege o aparecimento dos enunciados como acontecimentos singulares. (FOUCAULT, 2004: 146-147).

Assim, é por meio de acontecimentos que os enunciados se relacionam com outros e entram em funcionamento para dizer o que é ser brasileiro, e, no nosso caso, o que é ser mato-grossense. São enunciados que se materializam, evocando a memória social para produzir identidades por meio de práticas historicamente instituídas. Vejamos como esses conceitos podem ser aplicados à letra do rasqueado cuiabano. Por razões metodológicas, reproduzimos as letras das músicas escolhidas, para, em seguida, analisá-las.

Pixé (Moisés Martins e Pescuma)

Milho torradinho, socado

Canela açucarada

A branca pura, aquela gurizada

No tempo do Campo do Ourique

Quando a pandorga, o finca-finca

O buscapé e o trique-trique

Pintavam o céu com pingos de luz

é tempo bom que não volta mais

Só na lembrança de quem foi menino, hoje é rapaz

Milho torrado, bem socadinho

Ai que saudade do eu tempo de menino

Um dia ainda verei eu tenho fé Meu neto, meu neto

Com a boca toda suja de pixé.

Rasqueado do pau rodado (Pescuma e Pineto)

Não agüento mais ser chamado de pau rodado

Já tomo licor de pequi, já danço o Siriri

Como bagre ensopado

Sou devoto de São Benedito

Até já danço o rasqueado

Sou devoto de São Benedito

Até já danço o rasqueado

Adoro banho de rio, vou direto pra Chapada

Na noite cuiabana tomo todas bem gelada

Sou viciado no bozó, pescaria e cururu

Tomo pinga com amargo

Como cabeça de pau

Eá, Eá, Eá, só não nasci em Cuiabá

Mas no que eu cresci

Meu bom Jesus mandou buscar.

Pau fincado (Vera-Zuleika)

Não importa se eu vim dos vales,

Dos pampas ou de além-mares,

Comi cabeça de pacu

Logo que cheguei aqui,

Quase que eu me embriaguei

Tomando licor de pequi

Sou par constante

Nas rodas de siriri,

Sou pau-rodado

Mas não arredo o pé daqui!

é bem Mato Grosso (Pescuma, Henrique e Claudinho)

é bem Mato Grosso

O guaraná ralado, pacu assado

Manga madura no quintal

é bem Mato Grosso

Banho de rio ou cachoeira

Pescaria no Teles Pires, Araguaia o Pantanal

é bem Mato Grosso

Festa de Santo, churrasco, pixé, caju

é Bem Mato Grosso

Som com viola-de-cocho, siriri e cururu

é bem Mato Grosso

Belas igrejas, casarões coloniais

Festa de rodeio, praias, festivais

é bem Mato Grosso

Grandes rebanhos, plantações fenomenais

Um povo hospitaleiro

Como não se viu jamais

é bem Mato Grosso

O sol mais quente que há

Aquela bem geladinha

A morena e a loirinha que faz a gente suspirar

é bem Mato Grosso o bailão de rasqueado

Onde ninguém fica parado

Até o dia clarear

é bem Mato Grosso.

Como dissemos, nas letras estão sobrepostas diversas práticas sociais, tais como a culinária, linguajar, festejos e danças. A música "pixé" é praticamente a receita do doce "em pó" (tipo paçoca) servido em canudinhos de papel. A música expressa o fator tradição na formação identitária mato-grossense, ao recuperar na memória as brincadeiras de criança e os fogos de artifício, além de manifestar o desejo da continuidade da prática de comer o doce em "um dia ainda verei, eu tenho fé, meu neto com a boca toda suja de pixé".

Outro fator importante a ser observado na culinária do Estado está relacionado à pescaria e, como resultado, o peixe mais saboreado na região é o pacu, que dentre outros preparos, a preferência é pelo pacu assado. Há também o pequi, fruto do cerrado muito utilizado para preparar alimentos, sobretudo com o arroz; é aproveitado para se fazer licor de pequi, bebida muito apreciada no Mato Grosso.

Em se tratando das festas populares, a mais tradicional é a de São Benedito, festa de origem negra que cultua tal santo desde o século XVIII, tanto na Capital quanto no interior do Estado.

Além dos rituais sagrados, comuns a todas as festas de Irmandade, nas Festas de São Benedito, destacava-se a presença do Rei, um negro, que levava na cabeça uma coroa de prata, e que, junto com os Juízes, saíam em procissão, acompanhados de música de banda e um grande número de irmãos com chapéu de sol e a realização das Congadas ou Dança do Congo [...] a festa ocorre em algumas cidades do interior do Estado, como Vila Bela da Santíssima Trindade e Nossa Senhora do Livramento. (LOUREIRO, 2006: 45).

Nas festas religiosas é comum a apresentação de músicas e danças regionais, sendo as mais conhecidas e executadas o siriri e o cururu. Este é uma manifestação folclórica que atualmente é dançado por homens, mas que antigamente, sobretudo nas Igrejas, tinha a participação de mulheres. Essa música é executada como se fosse uma reza cantada na qual os cururueiros se revezam na cantoria. De acordo com Loureiro, é "... uma música de poucas notas, repetitiva, acompanhada pelo ritmo marcado pelas violas de cocho e ganzás, trovos, carreiras e toadas sobre religião, comandos de rituais sagrados, assuntos do cotidiano..." (2006: 73).

O siriri, por sua vez, é uma dança executada em fileiras, em roda, de pares um frente ao outro; utilizando a viola de cocho, o ganzá e o mocho, "cantam os participantes versos e músicas com temas regionais, vários deles compostos pela comunidade". (LOUREIRO, 2006: 84).

Uma questão importante a ser observada no linguajar do mato-grossense são as expressões "pau rodado" e "pau fincado". Tais expressões marcam a relação do nativo com o forasteiro, pois pau rodado é a pessoa de outro Estado ou país e pau fincado é o nativo. Essa forma de se expressar evidencia um conflito simbólico na questão identitária em relação à ocupação do Estado pós-divisão, embora seja comum dizer que o Mato Grosso é um Estado hospitaleiro. O estrangeiro é compelido a considerar-se pau fincado, a partir da prática dos costumes locais. Nesse sentido, podemos recuperar o que os Estudos Culturais abordam quando se referem ao fato de que as identidades são constituídas e percebidas a partir da relação com o outro, com a diferença.

Veja-se que todas essas manifestações culturais, típicas do Mato Grosso, são contempladas nas letras dos rasqueados acima apresentados. Dessa maneira, o rasqueado, tido como acontecimento, a cada vez que é executado faz com que haja uma atualização constante, via memória social, da identidade mato-grossense, ou seja, os indivíduos se envolvem nessas práticas sociais reivindicam para si um sentimento de pertença às tradições de seu Estado. Para tanto, há uma recorrência à memória social, à memória que institui a identidade por meio de sua relação com o passado. é nesse sentido que apresentamos o rasqueado como um arquivo da identidade mato-grossense, uma vez que nele estão imbricadas uma diversidade de práticas sociais, como vimos acima, que funcionam, por meio de seu aspecto repetível dado como acontecimento, para dizer, na recorrência à história, o que é ser mato-grossense.

Bibliografia

ARRUDA, Zuleika. O que é o rasqueado cuiabano? Cuiabá: Entrelinhas, 2007.

CHAUI, Marilena. Brasil: mito fundador e sociedade autoritária. São Paulo: Fundação Perseu Abramo, 2006. Reimpressão.

FOUCAULT, Michel. A arqueologia do saber. 7. ed. Rio de Janeiro: Forense Universitária, 2004.

HALL, Stuart. A identidade cultural na pós-modernidade. 9. ed. Rio de Janeiro: DP&A, 2004.

HENRIQUE & CLAUDINHO. Pixé. São Paulo, s/d. Disco Compacto. Digital, Áudio. 199.001.914. Vol. 5.

_____. Rasqueado do pau rodado. São Paulo, s/d. Disco Compacto. Digital, Áudio. 199.001.914. Vol. 5.

LOUREIRO, Roberto. Cultura mato-grossense: festas de Santos e outras tradições. Cuiabá: Entrelinhas, 2006.

PESCUMA, HENRIQUE & CLAUDINHO. é bem Mato Grosso. São Paulo: 2007. Disco Compacto: Digital, Áudio. CD 1. (Rasqueia Brasil).

SIQUEIRA, Elizabeth Madureira. História do Mato Grosso: da ancestralidade aos dias atuais. Cuiabá: Entrelinhas, 2002.

VERA-ZULEIKA. Pau fincado. Cuiabá, 2007. Disco Compacto: Digital, Áudio. 312MT032. Parte integrante do livro ARRUDA, Zuleika. O que é o rasqueado cuiabano? Cuiabá: Entrelinhas, 2007.

WOODWARD, K. Identidade e diferença: uma introdução teórica e conceitual. In: SILVA, Tomaz T. (org.) Identidade e diferença: a perspectiva dos Estudos Culturais. 3. ed. Petrópolis: 2004.

 

 

Autor:

Flávio Roberto Gomes Benites

frgbenites[arroba]gmail.com

Professor do Departamento de Letras da Universidade do Estado de Mato Grosso (UNEMAT) - Campus de Cáceres -  Mestre em Letras pela UFPB



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