Enviado por Luiz Alberto Moniz Bandeira
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A "tradicional amizade" do Brasil com os Estados Unidos, da mesma forma que a antiga rivalidade com a Argentina, constitui, em grande parte, um estereótipo ideológico, manipulado, muitas vezes, com o objetivo de influenciar sua política exterior e conduzir, conforme determinados interesses, o funcionamento das relações internacionais, dentro do Continente Americano. Na verdade, as relações entre o Brasil e os Estados Unidos não foram sempre tão amigáveis, nem as relações com a Argentina, tão ásperas, como se supõe. No século XIX, o governo brasileiro suspendeu por três vezes (1827, 1847 e 1869) as relações diplomáticas com os Estados Unidos. No entanto, desde 1848, já se destinava ao mercado norte-americano a maior parte de suas exportações, em especial, as exportações de café. As relações entre os dois países somente melhoraram a partir de 1870 e o vínculo com os Estados Unidos, durante a primeira metade do século XX, refletiu uma situação de complementação econômica, em que o Brasil dependia em cerca de 60 a 70% das exportações de café e estas, na mesma proporção, do mercado americano.

Entretanto, assim como reagiu, no século XIX, ao predomínio da Grã-bretanha, com a qual entrou em conflito desde 1844, ao recusar às pressões para reiniciar o Tratado de Comércio de 1827, o Brasil não aceitou passivamente a hegemonia dos Estados Unidos, sobretudo a partir de 1951, quando Getúlio Vargas, de volta ao governo, tratou de continuar seu projeto de governo, consolidando e impulsionando o processo de industrialização, promovido desde 1930 como um projeto de Estado. O jornalista argentino Mariano Grondona, no artigo publicado no jornal "La Nación"[2], observou acertadamente que não se pode falar de uma política exterior do presidente Fernando Henrique Cardoso ou do presidente Luís Inácio Lula da Silva, visto que a política exterior do Brasil, qualquer que seja seu governo, é uma política de Estado. De fato, ela mantém uma linha de continuidade, mesmo dentro das transformações que eventualmente podem acontecer. O Brasil passou a dar ênfase ao conceito de América do Sul, mas não por dar como "perdido" seu projeto hegemônico na América Latina do Norte, isto é, México, América Central e o Caribe, com exceção de Cuba, "nas mãos" dos Estados Unidos, como escreveu o jornalista Mario Grondona, acrescentando que, com a exceção de Colômbia, "a América do Sul é a área onde o Brasil pode aspirar a um papel hegemônico, dividindo-se, desse modo, o Continente Americano em duas partes: o Norte, "norteamericano", e o Sul "brasileiro".
Na verdade, o Brasil não dá por "perdido" seu projeto hegemônico na América Latina do Norte, porque, desde o tempo da monarquia, no século XIX, nunca aspirou a ter qualquer interferência nos países daquela região, que sempre considerou dentro da área de influência dos Estados Unidos. O conceito de América do Sul sempre foi latente na política exterior, e não o de América Latina, muito genérico, e sem consistência com seus reais interesses econômicos, políticos, que sempre se restringiram, particularmente, à região do Prata, ou seja, Argentina, Uruguai e Paraguai. E, conforme ressaltou João Augusto de Araújo Castro, embaixador do Brasil em Washington (1971-1975), o Brasil jamais considerou suas relações com os Estados Unidos como um capítulo das relações entre os Estados Unidos e a América Latina[3]. "O Brasil deseja cooperar com todos os países do continente, mas não quer ser confundido com qualquer um deles, nem se quer admitiria ser confundido com sua "totalidade"", afirmou[4]. Isso significava que o Brasil não somente não queria ser confundido com a América Latina, em geral, como não aceitava tal conceito, difundido durante a ocupação do México (1862-1867) pelas tropas de Napoleão III, quando se instalarão naquele país e sustentaram o governo de Archiduque Maximilian Von Hapsburg, da Áustria.
A percepção de que existem duas Américas, distintas não por suas origens étnicas ou diferenças de idiomas, mas pela geografia, foi o que sempre moldou as políticas exteriores do Brasil, que desde o século XIX se abstinha de qualquer envolvimento na América do Norte, Central e Caribe, enquanto resguardava a América do Sul como sua esfera de influência. Em 1849, quando a Inglaterra incorporou a Costa de Mosquitos, na Nicarágua, o Brasil apoiou o protesto dos Estados Unidos, mas deixou claro que não se envolveria em uma guerra, reservando-se o "direito de manifestar-se conforme seus interesses e a dignidade da Coroa Imperial"[5]. Também, em 1861, não aceitou o convite do Secretário de Estado norte-americano, William H. Seward, para intervir, juntamente com os Estados Unidos, na ocupação do México pelas forças do Imperador Napoleão III, ainda que o imperador D. Pedro II, pessoalmente, não aprovasse a instalação do regime monárquico naquele país sob o domínio da França[6]. Alegou que não tinha maior interesse na questão. Os interesses do Brasil se restringiam, primordialmente, à "região do Rio da Prata" e, de certo modo, aos demais países da América do Sul.
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