O Sentido Social e o Contexto Político da Guerra de Canudos

  1. Introdução
  2. O contexto político na república
  3. O comunismo cristão
  4. O sentido político de Canudos
  5. As guerrilhas sertanejas
  6. A ameaça militarista
  7. Arquivos usados e suas abreviaturas

Introdução

As tensões sociais, que a estagnação econômica gerava e a adversidade da natureza - clima e solo - engravescia, acumularam-se durante três séculos de colonização, nos sertões da Bahia, como em todo o nordeste do Brasil. De um lado, poucas famílias ricas e poderosas, dominavam uma vastidão de terras, latifúndios improdutivos, e se digladiavam entre si, a disputarem o poder político, por modo a assegurar e expandir suas propriedades. De outro, uma população de caboclos, sertanejos, na sua maioria índios mestiçados com brancos ou negros - mamelucos e cafuzos - que perderam ou jamais possuíram alguma terra e nada tinham, nem mesmo a possibilidade de vender sua força de trabalho e a esperança de alcançar uma vida melhor. A alguns não restava senão o descaminho do cangaço, fora da lei, se lei havia, e bandoleiros se tornavam. Outros, para sobreviverem, passavam a servir como jagunços, capangas dos senhores de terra, os coronéis, assim denominados porque recebiam do governo imperial a patente da Guarda Nacional, com a faculdade de organizar batalhões, quando necessário, para defender a ordem e o Estado. Em tais condições de atraso social e político, aquela massa de oprimidos, pobres e miseráveis, quase completamente isolada dos centros urbanos do litoral, devido à carência de transportes e de outros meios de comunicação, só encontrava esperança na religião, através da fé no "Bom Jesus", que pelos menos lhe abriria as portas do céu, a perspectiva de salvação e recompensa por tantos sofrimentos. A religião, naqueles sertões do nordeste, podia ser, como no conceito de Karl Marx, a "expressão da miséria real"[1]. Podia ser o "suspiro da criatura aflita", a "alma de um mundo desalmado" e até mesmo o "Opium des Volks"[2]. Mas o cristianismo, naquelas circunstâncias históricas, constituía o máximo de consciência possível, como utopia, e desvelava um sentido revolucionário, na medida em que o nível de atraso econômico, social e cultural do sertão faziam-no regredir à sua pureza original, como na Palestina, ao tempo do domínio de Roma.

O ambiente de religiosidade e misticismo favorecia o surgimento de beatos e messias, cujas ações reais, modeladas por uma ética de provação, tendiam a chocar-se contra a estrutura de classes da sociedade, tal como aconteceu com Thomas Münzer, que tentou organizar, na Alemanha do século XVI, uma completa comunidade de bens e igualdade total, a antecipar sobre a terra o reino de Deus. Por volta de 1877, ano da grande seca no nordeste, Antônio Vicente Mendes Maciel, que como Antônio Conselheiro se notabilizaria, já peregrinava pelos sertões, a fazer e a arrastar fiéis por onde passava. Segundo Euclides da Cunha, em toda a região, cidade ou povoado não havia onde ele aparecido não tivesse e sua entrada, "seguido pela multidão contrita, em silêncio, alentando imagens, cruzes e bandeiras do Divino, era solene e impressionadora"[3].

Em 1887, chegou a visitar a Vila do Conde, no litoral da Bahia, e deixou, em quase todos os lugares, um traço de sua passagem, ou seja, a reconstrução dos muros de um cemitério em ruína ou a renovação de uma igreja ou uma capela erguida[4]. Sua popularidade aumentava assim cada vez mais e a abolição da escravatura, em 1888, concorreu para aumentar-lhe as hostes, com negros libertos, sem destino e sem ocupação, em meio de grave crise econômica, que solapava as bases de sustentação do governo imperial.

O governo imperial efetivamente se debilitara, ao persistir na mesma política de valorização do câmbio e de restrição ao crédito, em que o contínuo endividamento externo completava a permanente escassez interna de meios de pagamento. Essa política não atendia às necessidades de circulação monetária do capitalismo emergente, para a expansão de suas forças produtivas, impulsionadas tanto pela acumulação da cafeicultura de São Paulo, à base, já em grande parte, do trabalho assalariado, quanto pelo crescimento do parque industrial do Rio de Janeiro, sob o impacto da concentração comercial, que a crise financeira dos anos 70, após a guerra contra o Paraguai, estimulara. A abolição da escravatura, em uma tentativa de salvar a monarquia, lançara à liberdade quase um milhão de escravos, no valor de dois contos de réis cada um, e agravou ainda mais a situação, dado que à maior parte dos senhores de terra, sobretudo do Rio de Janeiro e do nordeste, faltava o meio circulante para alugar a força de trabalho, de que necessitava para a produção das fazendas e dos engenhos de açúcar. O desconforto e a insatisfação destarte aumentaram, a generalizar-se entre os membros da nobreza e em todas as regiões do país. No recôncavo da Bahia, a baronesa de Alenquer, proprietária de vários engenhos de açúcar, observou, um ano após a abolição da escravatura, que, "quanto ao nosso governo, e a miséria que estamos passando, é uma calamidade! Deus nos acuda! Só vejo todos se queixarem, há uma falta de dinheiro nunca vista"[5].


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