Dimensão estratégica e política externa dos Estados Unidos

  1. Ásia Central - Heartland
  2. Militarização da política externa
  3. Geopolítica do petróleo
  4. Great Game
  5. Projeções geopolíticas do Mar Cáspio
  6. O Ocidente em xeque
  7. O corredor do petróleo
  8. Rota do oleoduto Baku-Tbilisi-Ceyhan - Fonte: BBC
  9. Os limites do poderio militar
  10. A Segunda Guerra Fria

".America is too democratic at home to be autocratic abroad. This limits the use of America"s power, especially its capacity for military intimidation".

Zbigniew Brzezinski [1]

A Eurásia é a massa de terra que se estende da Europa à Ásia, separada pela cordilheira dos Montes Urais, tendo a Rússia e a Turquia parte de seus territórios nos dois continentes. Seu heartland, situado, fundamentalmente, entre a Ásia Central e o Mar Cáspio, abrange o Cazaquistão, Armênia, Azerbaijão, Quirguistão, Tadjiquistão, Turcomenistão, Usbequistão, Sibéria Ocidental e parte setentrional do Paquistão, e é circundado pelo Afeganistão, Rússia, China, Índia e Irã. [2] Sir Halford John Mackinder, no início do século XX, em conferência, na London"s Royal Geographical Society, sob o título "The Geographical Pivot of History" [3], sustentou que este "closed heartland of Euro-Asia" era o "pivot" do equilíbrio global e o Estado que o controlasse teria condições de projetar o poder de um lado para o outro lado da região.  Ali o poder terrestre teria maior vantagem, devido ao fato de que seus rios fluíam para mares mediterrâneos, o que a tornava inaccessível a uma força naval, através do Oceano Ártico, e poderia não apenas explorar os recursos naturais lá existentes como usar os meios terrestres de comunicação, mais rápidos que os marítimos. O Estado que dominasse heartland, "the greatest natural fortress on earth", teria, portanto, a possibilidade de comandar toda a Eurásia, chamada por Mackinder de World Island [4].

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Ásia Central - Heartland

Durante o governo presidente James Earl Carter (1977-1981), Zbigniew Brzezinski, seu assessor de Segurança Nacional, tratou de orientar a política externa, dentro dos mesmos parâmetros de Mackinder. Ele considerava que, naquele contexto da Guerra Fria, a forma como os Estados manejavam a Eurásia era crítica e enfatizou a doutrina segundo a qual o Estado que dominasse este vasto continente, que constituía um eixo geopolítico, controlaria duas das três mais regiões econômicas mais produtivas e avançadas do mundo, subordinaria África e tornaria o hemisfério ocidental e a Oceania geopoliticamente periféricos. Ali, na Eurásia, viviam 75% da população mundial e estavam depositadas 3/4 das fontes de energia conhecidas em todo o mundo.[5] Com esta percepção, Brzezinski induziu o presidente Carter a abrir um terceiro front, na Guerra Fria, instigando contra Moscou os povos islâmicos da Ásia Central, no heartland de Eurásia e integrantes da União Soviética, com o objetivo de formar um green belt[6] e conter o avanço dos comunistas na direção das águas quentes do Golfo Pérsico e dos campos de petróleo do Oriente Médio.[7]

Brzezinski, em seu livro Game Plan – How to Conduct the U.S. – Soviet Contest, reconheceu que a contenda entre os Estados Unidos e a União Soviética não era entre duas nações. Era "between two empires", i. e., entre duas nações que haviam adquirido "imperial attributes even before their post-World War II colision".[8] A União Soviética esbarrondou-se, entre 1989 e 1991, quando perdeu o domínio não apenas sobre os Estados do Leste-Europeu como, também, sobre outras repúblicas que a integravam, inclusive as do Báltico e da Ásia Central, abrindo um vacuum político, que os Estados Unidos aproveitaram para ocupar. E uma conseqüência geopolítica, produzida pelo fim da Guerra Fria, foi acirrar a disputa em torno das imensas fontes de energia – gás e petróleo – existentes naquela parte do heartland euro-asiático. Com independência das cinco repúblicas soviética da Ásia Central e a fraqueza dos novos Estados emergentes dos escombros da União Soviética, os Estados Unidos aproveitaram o vacuum e avançaram sobre a região. Expandiram a OTAN às fronteiras da Rússia, incorporando alguns Estados que antes pertenceram ao Bloco Socialista, impuseram sua preeminência nos Bálcãs, com o desmembramento da antiga Iugoslávia, e empreenderam guerras para a ocupação do Afeganistão e Iraque. A Rússia não podia tolerar que a OTAN, uma aliança militar, se transformasse em uma espécie de ONU, árbitro político com autoridade para intervir contra qualquer regime, como fez com respeito à Sérvia, na questão do Kosovo, e continuasse a incorporar as repúblicas orientais, como a Geórgia e a Ucrânia, que antes integraram a extinta União Soviética.[9]


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