Enviado por Luiz Alberto Moniz Bandeira
".America is too democratic at home to be autocratic abroad. This limits the use of America"s power, especially its capacity for military intimidation".
Zbigniew Brzezinski [1]
A Eurásia é a massa de terra que se estende da Europa à Ásia, separada pela cordilheira dos Montes Urais, tendo a Rússia e a Turquia parte de seus territórios nos dois continentes. Seu heartland, situado, fundamentalmente, entre a Ásia Central e o Mar Cáspio, abrange o Cazaquistão, Armênia, Azerbaijão, Quirguistão, Tadjiquistão, Turcomenistão, Usbequistão, Sibéria Ocidental e parte setentrional do Paquistão, e é circundado pelo Afeganistão, Rússia, China, Índia e Irã. [2] Sir Halford John Mackinder, no início do século XX, em conferência, na London"s Royal Geographical Society, sob o título "The Geographical Pivot of History" [3], sustentou que este "closed heartland of Euro-Asia" era o "pivot" do equilíbrio global e o Estado que o controlasse teria condições de projetar o poder de um lado para o outro lado da região. Ali o poder terrestre teria maior vantagem, devido ao fato de que seus rios fluíam para mares mediterrâneos, o que a tornava inaccessível a uma força naval, através do Oceano Ártico, e poderia não apenas explorar os recursos naturais lá existentes como usar os meios terrestres de comunicação, mais rápidos que os marítimos. O Estado que dominasse heartland, "the greatest natural fortress on earth", teria, portanto, a possibilidade de comandar toda a Eurásia, chamada por Mackinder de World Island [4].

Durante o governo presidente James Earl Carter (1977-1981), Zbigniew Brzezinski, seu assessor de Segurança Nacional, tratou de orientar a política externa, dentro dos mesmos parâmetros de Mackinder. Ele considerava que, naquele contexto da Guerra Fria, a forma como os Estados manejavam a Eurásia era crítica e enfatizou a doutrina segundo a qual o Estado que dominasse este vasto continente, que constituía um eixo geopolítico, controlaria duas das três mais regiões econômicas mais produtivas e avançadas do mundo, subordinaria África e tornaria o hemisfério ocidental e a Oceania geopoliticamente periféricos. Ali, na Eurásia, viviam 75% da população mundial e estavam depositadas 3/4 das fontes de energia conhecidas em todo o mundo.[5] Com esta percepção, Brzezinski induziu o presidente Carter a abrir um terceiro front, na Guerra Fria, instigando contra Moscou os povos islâmicos da Ásia Central, no heartland de Eurásia e integrantes da União Soviética, com o objetivo de formar um green belt[6] e conter o avanço dos comunistas na direção das águas quentes do Golfo Pérsico e dos campos de petróleo do Oriente Médio.[7]
Brzezinski, em seu livro Game Plan – How to Conduct the U.S. – Soviet Contest, reconheceu que a contenda entre os Estados Unidos e a União Soviética não era entre duas nações. Era "between two empires", i. e., entre duas nações que haviam adquirido "imperial attributes even before their post-World War II colision".[8] A União Soviética esbarrondou-se, entre 1989 e 1991, quando perdeu o domínio não apenas sobre os Estados do Leste-Europeu como, também, sobre outras repúblicas que a integravam, inclusive as do Báltico e da Ásia Central, abrindo um vacuum político, que os Estados Unidos aproveitaram para ocupar. E uma conseqüência geopolítica, produzida pelo fim da Guerra Fria, foi acirrar a disputa em torno das imensas fontes de energia – gás e petróleo – existentes naquela parte do heartland euro-asiático. Com independência das cinco repúblicas soviética da Ásia Central e a fraqueza dos novos Estados emergentes dos escombros da União Soviética, os Estados Unidos aproveitaram o vacuum e avançaram sobre a região. Expandiram a OTAN às fronteiras da Rússia, incorporando alguns Estados que antes pertenceram ao Bloco Socialista, impuseram sua preeminência nos Bálcãs, com o desmembramento da antiga Iugoslávia, e empreenderam guerras para a ocupação do Afeganistão e Iraque. A Rússia não podia tolerar que a OTAN, uma aliança militar, se transformasse em uma espécie de ONU, árbitro político com autoridade para intervir contra qualquer regime, como fez com respeito à Sérvia, na questão do Kosovo, e continuasse a incorporar as repúblicas orientais, como a Geórgia e a Ucrânia, que antes integraram a extinta União Soviética.[9]
Página seguinte ![]() |