Enviado por Luiz Alberto Moniz Bandeira
Henry Kissinger, assessor de Segurança Nacional do presidente Richard Nixon (1969-1974) e depois secretário de Estado até o fim do governo do presidente Geral Ford (1974-1977), fazia distinção entre "agressive totalitarianism and other governments that, with all their imperfections, are trying to resist foreign pressure or subversion and that thereby help preserve the balance of power in behalf of all free peoples".[1] Os governos, "with all their imperfeccions", eram as ditaduras militares, cuja implantação os Estados Unidos encorajavam, para preservar o equilíbrio de poder em favor de "all free peoples", embora esses povos não fossem livres, como no caso do Chile, mas, sim, a comunidade dos homens de negócios americanos e seus associados, de outras nacionalidades.
Tal argumentação levou Kissinger não só a tolerar como a encorajar a sangrenta repressão na Argentina. Apesar de que a CIA, cujas atividades no Chile o Church Committee investigava, mantivesse, aparentemente, certa distância do golpe de Estado, que derrubou o governo de Maria Estela Martinez de Perón (Isabelita), em 24 de março de 1976[2]. O Departamento de Estado estava perfeitamente informado sobre a conspiração e não tomou nenhuma iniciativa para abortá-la. Sabia que o Congresso argentino seria fechado e que
"the military government would be conservative one and would have as its most urgent goals the crushing of terrorism, the elimination of corruption from the government and the labor movement"..[3]
Esperava que o governo militar na Argentina fosse "friendly toward the United States" e previu que, com a intensificação da luta contra as guerrilhas ele "would be almost certain to engage in human right violations", provocando "internacional criticism", e gerando na opinião pública dos Estados Unidos pressões que "would complicate our relation with the new regime"[4]. Por fim, o report do Bureau of Inter-American Affairs observou que o reconhecimento do novo regime não apresentaria nenhum problema para os Estados Unidos, que poderia fazê-lo, de acordo com suas normas, após receber uma nota do governo militar argentino e reconhecê-lo "preferably after several Latin American states had done so".[5]
Como o Bureau of Inter-American Affairs antecipara, as execuções não só de argentinos, mas também de dissidentes políticos exilados - chilenos, uruguaios, bolivianos, brasileiros e paraguaios – recrudesceram na Argentina depois da queda de Isabelita Perón. Até duas cidadãs americanas Gwenda Loken Lopez e Mercedes Naveiro Bender, residentes em Buenos Aires, foram capturadas e selvagemente torturadas. E, em 19/20 de maio, foram asssassinados dois parlamentares uruguaios, o senador Zelmar Michelini e o deputado Héctor Gutiérrez Ruiz. Tais fatos repercutiram nos Estados Unidos, onde as revelações do Church Committee sobre o papel da CIA no golpe do Chile e os assassinatos de líderes políticos estavam a chocar a consciência democrática de grande parte da população. Robert Hill, embaixador americano em Buenos Aires, transmitiu então ao sub-secretário da Presidência da Argentina, Ricardo Yofre, as preocupações existentes nos Estados Unidos com respeito à violação dos direitos humanos que lá estavam a correr. Yofre declarou que o general Jorge Rafael Videla, presidente da Junta Militar, também ficara chocado com o seqüestro e o assassinato, mas explicou que a Argentina estava envolvida in "an all-out war against subversion" e que, no calor da batalha, haveria "inevitably be some violations of human rights". Acrescentou que o governo tinha planos de incrementar drasticamente a campanha "against the terrorists very shortly"[6] . E ponderou que o problema ainda era mais complicado, porquanto havia numersos grupos operando, sem seu controle, e que provavelmente foram esses que raptaram e assinaram o senador Zelmar Michelini y o deputado Héctor Gutiérrez Ruiz[7]. Na definição do general Videla, porém, "el terrorista no sólo es considerado tal por matar com uma arma o colocar uma bomba, sono también por activar a través de ideas contaria a nuestra civilización oocidental y cristiana".[8]
Poucos dias depois após a conversação do embaixador Robert Hill com o sub-secretário da Presidência, a situação agravou-se ainda mais, quando outra cidadã americana Elida Beatriz Messina, coordenadora em Buenos Aires da Fulbright Commission, foi raptada e torturada pelas forças de segurança da Argentina[9]. O embaixador Hill teve de fazer démarche junto ao Ministro de Relações Exteriores da Argentina, almirante César Augusto Guzzetti. As violências, porém, prosseguiram, cada vez com maior intensidade.
Em 3 de junho o cadáver do general Juan José Torres, que fora deposto do governo na Bolívia[10], apareceu. O embaixador Hill informou ao Departamento de Estado que havia "considerable circumstantial evidence" que as forças de segurança da Argentina estavam haviam executados os parlamentares uruguaios Michelini e Gutiérrez, assim como o general boliviano Juan José Torres, e em outro telegrama acentuou que
"(1) that Armed forces and intelligence services of all these countries cooperate to some extent, (2) That all these governments are capable of covert killing." [11]
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