À mesma época, com o conhecimento da CIA, os serviços de inteligência do Chile, Argentina, Brasil, Paraguai e Uruguai reuniram-se em Santiago do Chile, e criaram um sistema computadorizado, com o codinome de Condor, e concertaram estabelecer uma rede internacional de comunicações e expandi-la, inclusive na Europa.  E decidiram também empreender uma série de ações conjuntas, em várias fases, visando a coordenar a repressão e eliminar os adversários  dos  regimes ditatoriais existentes nos  países do Cone Sul. A terceira fase e a mais secreta da Operação Condor, segundo o documento desclassificado pelo Defense Intelligence Agency (DIA), do Exército americano, consistiu em formar equipes especiais dos países membros a fim de que viajassem por todo o mundo e executassem sanções, que incluíam até assassinatos, contra supostos terroristas   ou que apoiassem suas organizações, ou seja, contra adversários políticos dos  regimes militares instalados no Cone Sul.

Esses adversários não eram apenas os que recorriam à luta armada, indistintamente acusados de  serem "terroristas", mas também os que se opunham politicamente à ditadura. Se um adversário político ou um que apoiasse a organização adversa estivesse na Europa, uma equipe especial da Operação Condor seria enviada para o localizar e vigiá-lo. Quando culminasse a localização e a vigilância, uma segunda equipe de Operação Condor seria enviada para aplicar a sanção efetiva contra aquele adversário. Um país proveria de documentação falsa a equipo de assassinos, formada por agentes de um outro país.  E uma das primeiras vítimas foi o general chileno, Carlos Prats, que se voltara contra o golpe de Pinochet e estava exilado em Buenos Aires. Na madrugada de 7 de setembro de 1974, quando saía do automóvel em que ele e a esposa viajaram, uma bomba explodiu, matando os dois.

Os documentos desclassificados nos Estados Unidos evidenciaram que a CIA e outros serviços de inteligência encorajaram e apoiaram a integração das forças de segurança do Chile, Argentina, Brasil, Uruguai, Paraguai e Bolívia, iniciativa aplaudida em Washington e percebida como necessário para contrapor-se ao "international terrorism", representadas pelas organizações políticas de esquerda, que apelaram para a luta armada contra os regimes militares e formaram a Junta Coordinadora Revolucionaria em 1974.[12]

"The  political tragedy of this story is that the military leaders who carried out  the assassinations and mass  murders looked to the United States for technical assistance e strategic leadership" – escreveu o jornalista americano John Dinges.[13]

Os diplomatas, agentes dos serviços de inteligência e militares  americanos estiveram intimamente associados com as instituições que executavam a repressão. Os serviços de inteligência dos Estados Unidos proporcionaram  treinamento, material de apoio, informações e sistema de comunicações aos agentes da Operação Condor e disseminaram inteligência sobre seqüestros e torturas, que eles executavam.[14] Tanto a CIA quanto o Departamento de Estado tinham bastante informações, mas nada fizeram para desencorajar e impedir as sistemáticas violações dos direitos humanos e frustrar os planos de assassinato da Operação Condor.[15] O próprio contr-almirante Cesar Augusto Guzzetti[16], ministro de Relações Exteriores da Argentina, que havia referido, em  Santiago do Chile, a necessidade de coordenar ds atividades dos diversos serviços de segurança, disse a Kissinger, em dia 10 de junho de 1976, que  o "main problem in Argentina is terrorism" e liquidá-lo era a primeira prioridade do governo.

Depois ressaltou que o problema do terrorismo era geral em todo o Cone Sul e que o governo da Argentina estava a apoiar esforços conjuntos, para integrar os países vizinhos[17]. Kissinger, por sua vez, declarou-lhe que a situação política no Estados Unidos era "crazy", estava claro que James Eearl Carter seria o candidato do Partido Democrata à sucessão de Ford e que havia fortes pressões domésticas para que se fizesse alguma coisa sobre os direitos humano. "A curious time, when political, criminal, and terrorist activities tend to merge without any clear separations – comentou. [18]  E, complacentemente, observou que "if there are things that have to be done, you should be done, you should do them quickly", para voltar rapidamente aos "normal procedures." Kissinger explicou que, nos Estados Unidos havia pressões por causa dos direitos humanos, e reconfortou Guzzeti, dizendo:

"We want you to succeed. We do not want to  harass [sic] you. I will do what I can."[19]

Dado que as constantes violações dos direitos humanos na Argentina, inclusive por causa da prisão e tortura de três cidadãs americanas, estavam a repercutir na opinião pública dos Estados Unidos, o embaixador Hill, em 17 setembro de 1976, voltou a falar sobre o assunto com o almirante Guzzetti e este lhe retrucou, dizendo que Kissinger esperava que o governo da Argentina terminasse "as quickly as possible"o problema dos terroristas, assim chamados os que resistiam e se insurgiam contra o regime militar.[20] O governo militar argentino entendia que Kissinger lhes dava pleno apoio.

E estava certo. Cerca de de algumas semanas após a conversa do embaixador Hill com Guzzetii e o assassinato de Orlando Letelier, ex-embaixador do Chile (governo de Allende) nos Estados Unidos, e sua secretária, Ronni Moffit (21 de Setembro), na terceira fase da Operação Condor[21], o sub-secretário de Estado, Charles W. Robinson, acopanhado pelo secretário de Estado-Assistente para os Assuntos Interamericanos,  Harry Shlaudeman,  recebeu, em Washington, o almirante Cesar Augusto Guzzetti e disse que era possível entender que o governo argentino fosse  duro, a princípio, mas era importante avançar para uma postura moderada, que os Estados Unidos eram "an idealistic and moral country", cujos cidadãos tinham grande dificuldade em compreender a espécie de problema que a Argentina estava a enfrentar. Acrescentou que a tendência era aplicar "our moral standards" e a Argentina devia entender a reação do Congresso com respeito aos empréstimos e assistência militar.

Segundo Robinson, o povo Americano, "right or wrong",  tinha a percepção de que havia ma Argentina "a pattern of gross violations of human rights", e sob a legislação vigente a administração poderia ser impedida de votar a favor de financiamentos no Banco Interamericano de Desenvolvimento. "The government is placed in a difficult position" – acentuou, apontando ainda motivos, entre outros, o fato de que  "many well meaning people in the United States, though perhaps somewhat naïve, who indiscriminately take the side of those imprisoned in Argentina". Esse pensamento era reforçado quando o governo argentina negava pronto acesso consultar aos seus cidadãos presos[22].

Kissinger enviou às Embaixadas sinais de que a defesa dos direitos humanos era de baixa prioridade, subordinada aos objetivos estratégicos dos Estados Unidos, e desencorajou os informes sobre as violências e abusos cometidos pelos regimes militares, nos países da América do Sul. Queria evitar que os protestos recrescessem em Washington. E, ao receber o almirante Guzzetti em uma suíte de Waldorf Astoria Hotel (7 de outubro), em New York, recomendou que o governo argentino se apressasse para terminar a dirty war antes de que o Congresso americano se reunisse e cortasse a ajuda militar. De acordo com Memorandum of Conversation, desclassificado por requerimento do National Security Archive, Kissinger disse-lhe:

"Look, our basic attitude is that we would like you to succeed. I have an old-fashioned view that friends ought to be supported. What is not understood in the United States is that you have a civil war. We read about human rights problems but not the context. The quicker you succeed the better. The human rights problem is a growing one. Your Ambassador can apprise you. We want a stable situation. We won't cause you unnecessary difficulties. If you can finish before Congress gets back, the better. Whatever freedoms you could restore would help."[23]

O almirante Guzzetti informou que as "terrorist organizations" seriam desmanteladas e que, se assim continuasse, o perigo estaria contornado por volta do fim do ano, embora pudessem ocorrer isolados atentados. E Kissinger insistiu: "When will they be overcome? Next Spring?" Guzzeti esclareceu que por volta do fim daquele ano, 1976, e Kissinger manifestou mais uma vez a sua compreensão e apoio ao que ocorria na Argentina.

Essa "guerra suja" contra a "subversão" e o "terrorismo", à qual Kissinger e outras autoridades da administração de Gerald Ford deram o seu beneplácito, deixou, entre 1976 e 1983, pelo menos 8.960 argentinos "desparecidos", em grande maioria trabalhadores (30,2%) e estudantes (21%)[24], que foram sequestrados, torturados, clandestinamente executados, muitos dos quais atirados vivos no meio do Rio da Prata, enquanto cerca de 8.625 pessoas permaneceram presas por largos anos, durante o regime militar[25]. O número de mortos, segundo alguns cálculos, chegaria perto de 30.000, contando os que guerrilheiros do Ejército Popular del Pueblo (de origem trotskista) e das Formaciones Especiales da Juventud Peronista (Montoneros), mortos no interior da Argentina.

Notas

[1]  The Washington Post, 25.9.1977. Apud Schoultz, 1987, p. 116. Dinges, 2004, p. 158.

[2] Sáenz Quesada, 2003, p. 424

[3] Report. Secret. 13 February 1976. From: Bureau of Inter-American Affairs – William Rogers. To: Secretary of State – Henry Kissinger. Subject/Title: Possible Coup in Argentina. Agency: Department of State. Source: U.S. Government Chile De-Classification Project. National Security Archive.

[4] Ibid.

[5] Ibid.

[6] Secret – EXDIS. Document Number 1976 - Buenos03460. Info – OCT-01  - ISO-000 SS-00 – 065165 – P 251156z  May 76 – From Amembassy Buenos Aires to SecState WashDC – Piority 5774 – Secret – Section 1 of Buenos Aires 3460. National Security Archive.

[7] Ibid.

[8] Apud Sáenz Quesada, 2004, p. 659.

[9] Stateman, May 27, 1976. Elida Betriz Messina to George S. Beckett, Security Officer of the U.S. Departament of State. Witnessess: Charles R. Meyer, Cultural Affairs Officer – USIS - 28.05.1976. State Department Opens Files on Argentina's Dirty War.  National Security Archive. Os documentos da Argentina Dirty War foram editados pelo historiador Carlos Osório, diretor do Southern Cone Documentation Project no National Security Archive.

[10] O governo de Juan José Torres, de caráter militar-nacionalista, foi derrubado em agosto de 1971 pelo general Hugo Banzer, golpe encorajado também pelo Brasil.

[11] Departament of State Telegram. 7 June 1976. From Amembassy Buenos Aires Aires. Object: Possible International Implications of Violent Deaths of Political Figures Abroad. Action: Secstate, WashDC, IMMEDIATE, Buenos Aires 3741. Ref State 127156. State Department Opens Files on Argentina's Dirty War.  National Security Archive.

[12] Essas organizações foram Movimiento de la Izquierda Revolucionaria (Chile), Ejército Revolucionário del Pueblo (Argentina), Frente de Liberación Nacional – Tupamaros (Uruguai), Frente de LIberación Nacional de Bolívia, entre outras.

[13] Dinges, 2004, p. 2.

[14] Id., ibid., p. 250.

[15] Id., ibid., p. 2.

[16] O contra-almirante Guzzeti sofreu, posteriormente, um atentado a bomba e ficou paralizado.

[17] Memorandum of Conversation. Santiago Chile, June 6, 1976. Secretary"s Suite. 8:10 a.m. – 9:15 a.m.

Participants:The  United States: The Secretary, the Under Secretay Roger et alt. Argentina: Foreign Minister Guzzeti, Ambassador Carasales, Am,bassador Pereyra et lat. Distribution: ARA, S/P. . State Department Opens Files on Argentina's Dirty War.  National Security Archive.

[18] Memorandum of Conversation. Santiago Chile, June 6, 1976. Secretary"s Suite. 8:10 a.m. – 9:15 a.m.

Participants:The  United States: The Secretary, the Under Secretay Roger et alt. Argentina: Foreign Minister Guzzeti, Ambassador Carasales, Am,bassador Pereyra et lat. Distribution: ARA, S/P. Ibid. O encontro de Kissinger com Guzzeti ocorreu em 10 de junho, durante uma reunião em Santiago da Chile, mas o Mememorandum of Conversation, por erro, foi datado de 6 de junho.

[19] Ibid.

[20] Document Number: 1976Buenos06130. Case Number: 200000044 - Buenos Aires 06130 202213Z Action SS-25 P 202115Z – From: Amembassy Buenos Aires. To: SecState WashDC Priority – 7180. Subject: Other aspects of September 17 conversations with Foreign Minister Ref: Buenos Aires 6100.

[21] O general Alejandro Fretes Davalos, chefe do Estado-Maior das Forças Armadas do Paraguai, informou ao embaixador  norte-americano Robert White que todos os chefes dos serviços de inteligência dos países da América do Sul na Operação Condor se mantinham em contacto um com o outro através das instalações de comunicação dos Estados Unidos na Zona do Canal do Panama Zone que cobriam toda a América Latina  Essas instalações eram empregadas para coordenar as informações de inteligência nos países do Cone Sul. State Department Cable, U.S. Ambassador Robert White (Paraguay) to Secretary of State Cyrus Vance, Subject: Second Meeting with Chief of Staff. Letelier Case, October 20, 1978, Confidential. Esse telegrama foi descoberto pelo professor J. Patrice McSherry, da Universidade de Long Island, e publicado pelo New York Times, de 6 de março de 2001.  http://www.gwu.edu/-nsarchiv/mews/20010306/.

[22] Ibid.

[23] Department of State of State – Memorandum of Conversations. Date: Oct. 7, 1976. Secret – NODIS. Subject: Secretary"s Meeting with Argentine Foreign Minister Guzatti. Date, Time and Place: October 7, 1976; 5:15 P.M., Secretary"s Suite Waldorf Astoria Hotel, New York. Participants: Argentina -  Foreign Minister Cesar Augusto Guzzeti, Ambassador to The United States Arnaldo T. Musich, Ambassador to the United Nations Carlos Ortiz: U.S. – The Secretary, Under Secretary Philip Babib et alt.. Source: Freedom of Information Act request by the National Security Archive, released November 2003. National Security Archive. Esse Memorandum não está entre os 4700 desclassificados em  agosto de 2002 pelo Argentina Declassification Project of the U.S. Department of State.

[24] Informe de la Comissión Nacional sobre la Desaparición de Personas: Nunca Más, pp. 479-481. Vide também Boccia Paz et alt., 2002, p. 188. Verbitsky, 2003, p.

[25] Informe de la Comissión Nacional sobre la Desaparición de Personas: Nunca Más, pp. 408-409.

 

Autor:

Luiz Alberto Moniz Bandeira

Moniz-Bandeira[arroba]t-online.de

Cientista político, professor titular de História da Política Exterior do Brasil, na Universidade de Brasília (aposentado) e autor de mais de 20 obras, entre as quais Fórmula para o caos – A derrubada de Salvador Allende (1970-1973) e Formação do Império Americano (Da guerra contra a Espanha à guerra no Iraque), pela qual recebeu o Troféu Juca Pato, eleito pela União Brasileira de Escritores (UBE) Intelectual do Ano 2005 

Revista Espaço Acadêmico Nº 59, Abril de 2006



 Página anterior Voltar ao início do trabalhoPágina seguinte 

As opiniões expressas em todos os documentos publicados aqui neste site são de responsabilidade exclusiva dos autores e não de Monografias.com. O objetivo de Monografias.com é disponibilizar o conhecimento para toda a sua comunidade. É de responsabilidade de cada leitor o eventual uso que venha a fazer desta informação. Em qualquer caso é obrigatória a citação bibliográfica completa, incluindo o autor e o site Monografias.com.