Esta obra, O Governo João Goulart: As Lutas Sociais no Brasil – 1961-1964, reflete o espírito de uma época, uma época muito conturbada e difícil, em que ainda lutávamos pela restauração das liberdades democráticas, contra o regime discricionário vigente no Brasil. Escrita entre fins de 1976 e primeiro semestre de 1977, ela constituiu  a primeira tentativa de desmistificar, em termos acadêmicos, o golpe de estado que o implantara em 1964. Vali-me para tanto não só da pesquisa em fontes primárias, ou impressas, como de depoimentos dos mais diversos personagens que participaram da ascensão e queda do Governo João Goulart. De todos quanto pude, tanto dos que estavam com João Goulart como dos que contra ele conspiraram, tratei de ouvir depoimentos, a fim de fazer a reconstrução oral da história, pois, conforme o historiador inglês Timothy Garton Ash muito bem ressaltou, a testemunha, se tem sorte, pode ver coisas que o historiador não encontrará em qualquer documento[1]. Neste particular, posso dizer que fui também testemunha do que ocorreu no Brasil, desde a renúncia de Jânio Quadros à presidência da República, em 1961,  ao golpe de estado de 1964, na condição tanto de assessor do deputado Sérgio Magalhães, do PTB, presidente da Frente Parlamentar Nacionalista e vice-presidente da Câmara Federal, quanto de chefe da seção política do Diário de Notícias, um dos mais importantes órgãos da imprensa brasileira, o que me permitiu acompanhar de perto os acontecimentos, recebendo informações tanto do lado do governo quanto da oposição, dado que desde a minha adolescência aprendi a não confundir diferenças de idéias e opiniões políticas quer com meu trabalho profissional quer com minhas relações de amizade ou de mera cordialidade. Destarte, sempre fui bem informado e até mesmo soube, àquela época, que o então coronel Vernon Walters, Adido Militar na Embaixada dos EUA, estava a conspirar com a oposição ao Governo João Goulart, fato este que revelei através das "Notas Políticas" do Diário de Notícias, bem como a estranheza do Itamaraty diante da contínua solicitação pelo embaixador Lincoln Gordon de vistos oficiais para cidadãos norte-americanos, que se dirigiam, sobretudo, ao Nordeste. Este conhecimento direto  do que ocorria nos bastidores serviu para argamassar as informações colhidas para esta obra, através da pesquisa de documentos e das entrevistas que as dramatis personæ gentilmente me concederam, independentemente do papel que desempenharam contra ou a favor do golpe de estado. Assim, procurei ser tanto quanto possível objetivo, ao escrever O Governo João Goulart – As Lutas Sociais no Brasil – 1961-1964, que também representa um depoimento de quem viveu intensamente aqueles anos de crise e sofreu as suas conseqüências.

O golpe de estado não constituiu surpresa para mim. A ameaça estava latente na política brasileira, desde que Jânio Quadros renunciara à presidência da República, tentando compelir o Congresso a outorgar-lhe o poder legislativo e entrar em recesso permanente, como condição para que ele retornasse ao governo, diante do impasse político e constitucional, que se criaria com o veto previsível dos ministros militares à investidura no cargo do seu sucessor, o vice-presidente João Goulart. Este seu desígnio logo percebi, porque, conquanto nunca fosse partidário de Jânio Quadros, eu o acompanhara, durante a campanha eleitoral, pelo Diário de Notícias, do Rio de Janeiro, e possuía uma série de dados que me permitiram deslindar o enigma e publicar dois meses depois da renúncia um pequeno livro – O 24 de Agosto de Jânio Quadros – provocando certo espanto, porque  sustentei que Quadro pretendera "constituir-se como alternativa para a junta militar que ele próprio sugerira"[2], quando muitos ainda criam na hipótese de que fora deposto. O próprio Quadros, no entanto, confirmou, na obra História do Povo Brasileiro, escrita por ele em co-autoria com Afonso Arinos de Melo Franco, que seu propósito, ao renunciar à presidência do Brasil, fora de fato constranger o Congresso, coagido pelos acontecimentos, a delegar-lhe as faculdades legislativas, sem prejudicar, aparentemente, "os aspectos fundamentais da mecânica democrática"[3]. O próprio almirante Sílvio Heck, ministro da Marinha no seu governo, confirmou, entrevistado por mim em 1976, que "Jânio Quadros renunciou para voltar na crista da onda, com o povo, e tornar-se ditador", mas "seu erro foi ter renunciado sem antes ter conversado conosco", ou seja, com os ministros militares, que se opuseram à investidura de Goulart na presidência da República. "Ele queria João Goulart como vice-presidente porque sabia que as Forças Armadas não lhe dariam posse" – o almirante Sílvio Heck ressaltou[4].


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