O Pe. Lebret foi diretor de investigação do "Centre National de la Recherche Scientifique", doutor honoris causa da Universidade de São Paulo e conselheiro econômico dos governos de Senegal e do Líbano. Sua constante preocupação de responder às necessidades dos homens o impulsionou a fundar, a que viria a se constituir em raiz da crise de 1936, o Centro de Estudos Sociais e Econômicos "Economia e Humanismo", cuja finalidade foi a de pensar a economia em função dos homens. Sua fundação, a IRFED (Centro Internacional de Formação e de Pesquisa para o Desenvolvimento), que data de 1958, nasceu da urgência de preparar técnicos em questões sociais. Este Instituto, paralelamente a seu trabalho de investigação, contribuiu para a formação de especialistas dedicados a ajudar aos países em vias de desenvolvimento.
No ano de 1947, foi convidado, pela Universidade de Sociologia e Política de São Paulo para ministrar uma série de palestras introdutórias sobre a "Economia Humana". Viajou pelo Brasil e por outras partes da América Latina, tendo a oportunidade de constatar a extrema pobreza da maioria da população. Para esta realidade de pobreza, utilizou o mesmo método já usado por ele em outras realidades e ocasiões, ou seja, a observação, a análise dos dados, a investigação das causas, o assessoramento das necessidades, elaborando programas e projetos, treinando pessoas comprometidas e qualificadas para a mobilização dos lugares de poder e decisões. Por muito tempo, ocupou-se destes afazeres, tendo atuado ainda em outros lugares do mundo, como no Vietnã, Senegal, Ruanda e Líbano. A importância de seu trabalho ganhou reconhecimento de instituições internacionais vindo, inclusive, a trabalhar diretamente com a ONU e com a Igreja.
No Brasil, o padre dirigiu a Sociedade para Análise Gráfica e Mecanográfica Aplicada aos Complexos Sociais (SAGMACS). Segundo Dennison de Oliveira, "(...) esse grupo se destinava a forjar uma mentalidade de planejamento na periferia do capitalismo que fosse capaz de erradicar os piores excessos do populismo e do próprio capitalismo, contribuindo para afastar o perigo do comunismo, cuja atuação era tida como mais eficaz em áreas pauperizadas".
O termo solidarismo é o originado da expressão do Direito Romano "in solidum", que evoca pluralidade de sujeitos e identidade de objeto. O Jesuíta Heinrich Pest (1854 / 1926) empregou o termo em 1905, na obra "Lehrbuch der Nationalekönomie", no sentido de doutrina (solidariedade real entre pessoa e comunidade) e sistema (entre a descentralização atomizante do individualismo e a centralização monolítica do coletivismo). Em 1924, na França, Charles Bouglé publica "Le Solidarisme". O Solidarismo brasileiro, proposto pelo Padre Fernando Bastos de Ávila, aproveita as contribuicões do Padre Lebret, (Manifesto por uma Civilização Solidária) e de Teilhard de Chardin. Como doutrina, é um esforço de sistematização das implicações sociais da mensagem Bíblico-cristã, centrada em torno da categoria da pessoa humana. Como sistema, é dominado pela categoria de comunidade, da qual as pessoas participam como seres racionais e livres (é na idéia comunitária que se inspira toda a sua proposta de reestruturação da sociedade). Como ideologia, é dominado pela categoria da solidariedade.
Neste ponto passamos a apresentar, mais diretamente, a influência das idéias de Lebret no Brasil. A primeira seção aborda a influência de Lebret junto à Escola Politécnica de São Paulo; a segunda, trata da influência das idéias de Lebret no Partido Democrático Cristão (PDC) e, por último, trata da influência de Lebret nos Movimentos Sociais do Brasil nos anos 50.
3.1. As idéias de Lebret na Escola Politécnica de São Paulo
As idéias do Pe. Lebret influenciaram importantes intelectuais do Brasil, entre eles, o professor Luiz Cintra do Prado, diretor da Escola Politécnica de São Paulo, como bem explicita o seguinte depoimento: "Naquele tempo, se iniciou, na França, um movimento denominado Economia e Humanismo. Esse movimento tinha como lema o direcionamento da economia, em benefício do desenvolvimento e em benefício das pessoas".
O líder desse movimento era um antigo sacerdote dominicano, padre L.J. Lebret, que veio ao Brasil e fundou uma organização ligada a esse movimento francês e cujo líder no Brasil, enquanto ele esteve à testa, foi exatamente o Prof. Luiz Cintra do Prado. Ele arregimentou nesse movimento, não só professores da Universidade, mas outras pessoas e muitos outros alunos externos." (NAKATA, Vera Lucia M., TORRE, Silvia Regina S. Della e LIMA, Igor Renato M. de. Entrevista com o professor José Augusto Martins, 2003).[2]
3.2. O Partido Democrata Cristão e a proximidade com a Economia e Humanismo
Sandro Anselmo Coelho, no artigo O Partido Democrático Cristão: teores programáticos da Terceira Via brasileira (1945-1964), vê na doutrina do PDC uma proximidade com as idéias do pe. Lebret, principalmente, na obra Economia e Humanismo. Afirma Coelho: "Não nos furtamos a dizer ainda que todo este intrincado quadro de mudanças em que o PDC estava inserido teve como resolução a construção de uma Terceira Via, que se aproximou de um movimento internacional denominado Economia e Humanismo, surgido pelas mãos do padre francês Louis-Joseph Lebret".[3]
O padre Louis-Joseph Lebret definiu economia humana "enquanto pesquisa, como a disciplina, especulativa e prática, da passagem, para uma determinada população, de uma fase menos humana para uma fase mais humana, segundo o ritmo mais rápido possível, com o custo financeiro e humano o menos elevado possível, sem esquecer a solidariedade que deve existir entre todas as populações" (1962, p.16). Para que esta elevação se estabelecesse, seria necessária "uma planificação desde as unidades territoriais elementares até o conjunto mundial. Não se trata, evidentemente, de propugnar um modo único de planificação, mas, pelo contrário, uma grande variedade, levando-se em conta, em cada caso, as possibilidades, as estruturas atuais, os tipos de necessidade, os estágios técnicos e culturais, a qualidade e intensidade dos esforços espontâneos ou a incrementar" (p.89).
Louis-Joseph Lebret faz, como o Partido Democrata Cristão (PDC), críticas ao capitalismo e ao comunismo. Quanto ao capitalismo, ele seria, principalmente em sua primeira fase liberal, um regime marcado pelo "direito exclusivo para os detentores de capital de decidir sobre a orientação dos investimentos decorrentes do lucro. É um regime incapaz de conduzir à satisfação ordenada das necessidades. É um regime fatalmente criador de exploração e opressão, contra as quais não podem deixar de existir reações de camadas sociais e de povos, através de um sistema complexo de tensões mais ou menos lentas ou destruidoras" (p.27). Quanto ao comunismo, a maior falha seria a "sua concepção da pessoa. Para ele, o homem individual pouco representa. O homem conta apenas pelo esforço de que é capaz na edificação do comunismo, tal qual a concebe o grupo que se apodera do poder. A verdade perde sua natureza absoluta. A inteligência é fundamentalmente comprometida. A violência torna-se universal. A selvageria aperfeiçoada e tecnicamente calculada é, em definitivo, muito semelhante à que foi praticada na primeira fase do capitalismo" (p.38). Todavia, a humanidade deveria se inspirar na planificação econômica e na nacionalização de alguns setores feitas pelos soviéticos, como forma de acelerar o seu desenvolvimento (p.40-41). Notamos, nos elementos apontados por Rogério Luiz de Souza como característicos da DC brasileira, uma profunda similaridade com os pressupostos de Economia e Humanismo. Segundo o autor, para o PDC "estava claro que o Estado deveria conhecer a fundo as contradições do sistema e da sociedade, firmando-se como um Estado tecnoburocrático. O serviço especializado de controle de preços e de fluxo de produção e a supervisão de um Estado técnico diminuiriam os riscos e os conflitos de classe, onde apareceria planejando o desenvolvimento nacional em bases técnico-científicas".[4]
3.3. A influência da teoria de Lebret nos Movimentos Sociais na década de 50
Marcelo Ridenti, no artigo O romantismo revolucionário da ação popular: do cristianismo ao maoísmo, descreve a influência das idéias de autores franceses, inclusive Lebret, nas principais lideranças da ação popular e da Juventude Universitária Católica (JUC).
Baseado em depoimento de Francisco Whitaker, Löwy e Garcia-Ruiz, diz o autor: "a JUC e de modo geral a Ação Católica brasileira dividem-se, ao longo dos anos 50, em duas tendências divergentes: a dos discípulos de Maritain, que se tornarão democratas-cristãos, e aquela dos discípulos de Lebret e Mounier, que tomará o caminho do socialismo" (1997, p.21). O padre Lebret, descreve o autor, esteve no Brasil várias vezes, a partir de 1947, e manteve contato com dirigentes da JUC, inclusive como Plínio de Arruda Sampaio, que o encontrou em 1953.[5]
As idéias de Lebret influenciaram diretamente algumas lideranças ao nível local no município de Ijuí (Noroeste do Estado do Rio Grande do Sul), em meados da década de 50. Dois nomes aparecem como referência, trata-se do então frade capuchinho chamado Frei Matias (Mario Osorio Marques) e do professor Argemiro Jacob Brum.
Trataremos, especificamente neste ponto, da trajetória intelectual e da inserção de Mario Osorio Marques, bem como da estruturação institucional da FAFI/FIDENE e do Movimento Comunitário de Base (MCB).
A trajetória intelectual do professor Mario Osorio Marques pode ser dividida em três momentos: primeiro, como intelectual escolástico; o segundo, como sociólogo (inspirado nas idéias de Lebret) e, o terceiro, como pesquisador. A inspiração do sociólogo Osorio Marques na comunidade adveio do movimento criado e liderado pelo padre Lebret, denominado "Economia e Humanismo" ou "Civilização Solidária". Osorio Marques e Argemiro Brum foram marcados profundamente pelas idéias de Lebret. Ambos formularam, de múltiplas formas, tanto a prática do olhar, do pesquisar, do agir, quanto da mobilização social como forma de participação individual e coletiva na dinâmica do desenvolvimento. Daí surge a organização local, e sua conexão nacional e internacional, dos trabalhadores rurais, dos trabalhadores urbanos, dos jovens: estudantes secundaristas, universitários, agricultores e operários. Propunha-se simplesmente a busca e a contrução de um caminho próprio e autônomo, feito com as próprias forças, pelos sujeitos, em suas comunidades e a partir de seus problemas.[6]
Tendo presente a inspiração de Lebret, Osorio Marques procurou contextualizar e adaptar as idéias do padre francês à realidade local. Surge graças ao empenho pessoal de Marques, a instituição denominadada faculdade de Filosofia Ciências e Letras (FAFI) em 1957. Neste novo ambiente do saber, professores, alunos e lideranças comunitárias partilhavam a experiência da reflexão, do debate, da militância cotidiana e da organização popular que despontavam em outras regiões do país, bem como no Rio Grande do Sul e em outros países (Belato, p. 75).
Mario Osorio sofreu peseguições por parte de setores tradicionais da Igreja, bem como das organizações empresariais e até mesmo de partidos políticos tradicionais, exatamente pela sua militância e opção em seguir as idéias revolucionárias do padre Lebret. Porém, Mario Osorio sempre se manteve coerente e fiel aos princípios do fransciscanismo católico e ao ideário de Lebret do grupo Economia e Humanismo, não aderindo à retórica, nem metodologicamente, aos princípios marxistas ou de outras tendências socialistas.
Como vimos, as idéias de Lebret, objetivadas na prática pedagógica de Mario Osorio, influenciaram diretamente na estruturação da FAFI deixando um perfil acadêmico diferenciado em relação às demais instituições de ensino superior, por força da manutenção de seu compromisso social, educativo e de independência acadêmica (BELATO, p.76)
4.1. O Movimento Comunitário de Base
Inspirado nas idéias de Lebret, Mario Osório Marque e Argemiro Jacob Brum foram os responsáveis pela estruturação de importantes movimentos e instituições no município de Ijuí. Como exemplo de participação comunitária, Ijuí viu florescer, no início dos anos 60, o Movimento Comunitário de Base (MCB), nascido da realidade da população local, a partir de ação extensionista da Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras de Ijuí (FAFI).[7]
O Movimento Comunitário de Base (MCB) surge como uma tentativa de dar uma resposta à crise por que passava Ijuí. Neste sentido, podemos definir o MCB como um modelo de trabalho comunitário construído com base na experiência religiosa dos capuchinhos e centrado na idéia da dignidade e valor da pessoa humana, na pedagogia do pequeno grupo e da participação (BRUM, 1994, p.20). Nos grupos e associações – e nos demais momentos da vida –, as pessoas eram estimuladas a (re)conhecerem-se, encontrarem-se e confrontarem-se como iguais. Um dos objetivos principais do MCB era o de participar no diagnóstico e nas soluções dos problemas locais e regionais.
Como vimos, a inspiração para o trabalho do MCB provinha de quatro fontes: a) do testemunho de Francisco de Assis e do espírito da Ordem dos Frades Menores Franciscanos (frades capuchinhos) que administravam a FAFI; b) de pensadores e educadores da vanguarda renovadora do pensamento católico na época (Maritain, Mounier, Lebret); c) do contexto brasileiro da época, fervilhante de idéias na busca de saídas para uma crise profunda, da afirmação como povo e instrumentalização para o exercício da cidadania e da definição do Brasil como nação; e d) da formação e tradição histórico-cultural de Ijuí e região, com acentuada tradição comunitária, alicerçada no elevado grau de consciência do valor da pessoa, espírito de iniciativa e capacidade empreendedora (BRUM, 1994, p.20). A tradição comunitária e associativista provinha dos primeiros imigrantes, que criavam associações, escolas, igrejas, capelas, grupos de canto, clubes esportivos e clubes sociais. A intenção do MCB era resgatar tais valores cívicos.
O MCB foi um movimento de idéias e ações centrado no valor da dignidade humana, tendo como vocação a convivência humana, buscando espaços para a solidariedade e união com o objetivo de criar grupos sociais conscientes e participantes. A essência do movimento era o conceito de "participação", do qual a organização e presença eram elementos primordiais. O MCB estava voltado às necessidades das camadas sociais mais carentes, principalmente aos moradores recém-chegados na cidade, muitos expropriados de suas terras em conseqüência da modernização agrícola por que o município e região passaram anteriormente. Carentes, desenraizados, e vivendo no anonimato com muitas privações, essas pessoas eram, de certa maneira, sensíveis ao aspecto comunitário, mais propensas à participação nos grupos sociais.
Inicialmente, as reuniões eram semanais e tinham como objetivo instruir os participantes sobre os problemas estruturais de conjuntura econômica e política, além de instigar o voluntarismo, a participação e a organização de grupos urbanos e rurais. Com o término do curso de extensão (reuniões semanais), foi proposta a continuidade das reuniões num âmbito mais abrangente, com a estruturação de um Conselho Municipal de Desenvolvimento de Ijuí, uma espécie de Assembléia Comunitária, que mobilizou amplas camadas da população local. Esta Assembléia Comunitária realizou-se em agosto de 1961, com público "numeroso, representativo e vibrante".[8] É nesse espírito que, no meio urbano, (re)ativaram-se os círculos de pais e mestres, grêmios estudantis, sindicatos, associações de bairros – Conselho de Bairros de Ijuí (CBI) e Encontro de Líderes de Bairros de Ijuí. No meio rural, foram organizados em torno de 80 núcleos, que tinham como meta a organização e sindicalização dos agricultores. Os núcleos estruturavam-se distribuídos em 10 Conselhos Distritais, com assembléias periódicas denominadas de Encontro de Líderes Rurais de Ijuí.
Nas palavras de Argemiro Brum, um dos principais idealizadores do movimento: "a organização e participação (idéia e força) eram as palavras chaves do MCB". Todo o trabalho e organização se colocavam na perspectiva de um processo educacional e cultural de libertação e promoção humana a partir dos próprios indivíduos-sujeitos. A organização da base era tida como a forma mais consistente e eficaz de construção do poder do povo e de sua expressão como ator político e sujeito histórico. Assim, corporifica-se o MCB em diferentes organizações e atividades: a) nos bairros, com mais de 20 associações de amigos; b) nas escolas, com reativação do círculo de pais e mestres e grêmios estudantis (mais de 20); c) na zona rural, com a criação dos núcleos de base (mais de 80 ao todo) nas vilas e povoados do Município, fomenta-se a participação para o fortalecimento do associativismo – sindicalismo e cooperativismo; na cidade com a dinamização dos sindicatos urbanos das diversas categorias de trabalhadores – criação dos Conselhos de Desenvolvimento de Ijuí. Reuniões, encontros, seminários, palestras, debates, cursos, jornal, programas de rádio, campanhas e solução de problemas concretos foram os principais meios utilizados para a propagação do avanço e a consolidação do Movimento (BRUM, 1994, p.22).
Com o golpe de 1964, o MCB sofreu abalos em sua estrutura, vindo, gradativamente, a diminuir sua atuação junto à sociedade ijuiense. O Movimento deixa de existir formalmente, as lideranças locais dos núcleos de base e das associações de amigos de bairros sentiam esgotarem-se seus limites e passaram a levantar a necessidade de cursos para maior fundamentação, melhor instrumentalização e ampliação de seus horizontes culturais. Como resposta à necessidade sentida naquele momento, foi criado o Instituto de Educação de Base (IEB), que estava vinculado à Faculdade de Filosofia, e assumiu a articulação do trabalho de extensão que vinha sendo realizado pelo MCB. Em 1969, criou-se a Fundação de Integração, Desenvolvimento e Educação do Noroeste do Estado (FIDENE) e o IEB passou a denominar-se Instituto de Educação Permanente (IEP) (BRUM 1994, p.23.)[9] Podemos afirmar ainda que a criação de importantes instituições, como o MADP (Museu Antropológico Doutor Pestana) em 1961, a EFA (Escola Francisco de Assis) em 1969 e, mais tarde, em 1985, a UNIJUÍ, são exemplos vivos do espírito participativo e associativo do ijuiense. Mesmo não mais existindo como organização, as idéias do MCB influenciaram as pessoas do município e região, bem como as referidas instituições, que ainda hoje trazem a marca da participação e da organização, fruto das idéias de seus empreendedores.
Ao concluir este trabalho, gostaria, inicialmente, de agradecer ao Sr. Dr. Hélgio Trindade, pela oportunidade de tê-lo como professor durante o segundo semestre de 2005. Foi particularmente produtiva a compreensão da origem e desenvolvimento das Ciências Sociais na América Latina e no Brasil.
Uma das conclusões por mim assimiladas no decorrer das aulas direciona para a influência das idéias de pensadores franceses nas Ciências Sociais do Brasil. É dentro deste contexto que este trabalho procurou evidenciar: a incontestável a importância das idéias do Pe. Lebret para a formação de lideranças religiosas, políticas e sociais do Brasil, na década de 50 do século passado.
Apresentamos, inicialmente, uma biografia básica de Lebret, sua atuação no Brasil e a influência das suas idéias em nosso meio. Tratamos, especificamente, da influência de Lebret a lideranças locais, como a Mario Osorio Marques, que foi o principal articulador da fundação da Faculdade de Filosofia Ciências e Letras (FAFI) de Ijuí – RS e do Movimento Comunitário de Base de Ijui, em fins dos anos 50 e início dos anos 60 do século passado. Cabe-nos ressaltar que a essência das idéias de Lebret assimilada e postas em prática por Mario Osorio Marques, marcaram profundamente, não só as instituições sociais, políticas e educacionais do município, mas, o espírito da comunidade ijuiense, que soube, em momentos de crise e dificuldades, solucionar os problemas, graças ao espírito associativo e comunitário de suas lideranças forjando o desenvolvimento regional.
A última parte do trabalho (anexos), apresenta uma entrevista inédita com Plínio Arruda Sampaio, uma das principais lideranças sociais e políticas do Brasil, da qual fora diretamente por Lebret. Ao pesquisar em outras fontes na rede mundial de computadores, percebemos que muitas lideranças sociais e políticas do Brasil foram influenciadas por Lebret.
Pela pertinência do tema julgamos que este trabalho apresenta certas limitações, exatamente pela escassez de tempo e pela proximidade da data da entrega do mesmo. No entanto, por este tema interessar diretamente a este pesquisado, tenho a dizer que a pesquisa continua... Quem sabe na estruturação, em um futuro próximo, num artigo científico...
BELATO, Dinarte. "Mario Osorio: o intelectual". In. BRUM, Argemiro J. Trajetórias de uma vida: depoimentos. Ijuí: Unijuí, 2003.
BRUM, Argemiro J. Modernização da agricultura: trigo e soja. Ijuí: 1985.
________________. Trajetórias de uma vida: depoimentos. Ijuí: Unijuí, 2003.
________________. Unijuí: Uma experiência de universidade comunitária, sua história, suas idéias. Ijuí: Unijuí, 1994.
COELHO, Sandro Anselmo. O Partido Democrático Cristão: teores programáticos da Terceira Via brasileira (1945-1964). Revista Brasileira de História, vol. 23, n 46. Disponível em http://www.scielo.br/pdf/rbh/v23n46/a09v2346.pdf. Acesso em janeiro de 2006.
LEBRET, Louis-Joseph. Manifesto por uma civilização solidária. São Paulo: Duas Cidades, 1962.
MARQUES, Mario Osorio e BRUM, Argemiro Jacob. Uma comunidade em busca de seu caminho. Porto Alegre: Sulina, 1972.
NAKATA, Vera Lucia M.; TORRE, Silvia Regina S. Della; LIMA, Igor Renato M. de. Entrevista com o professor José Augusto Martins, 2003. Disponível em http://www.poli.usp.br/Organizacao/Historia/Diretores/Menezes_Rocha.asp. Acesso em fevereiro de 2006.
RIDENTI, Marcelo. O romantismo revolucionário da ação popular: do cristianismo ao maoísmo. Disponível em http://168.96.200.17/ar/libros/lasa98/Ridenti.pdf. Acesso em janeiro de 2006.
TRINDADE, Hélgio Henrique Casses. "Participação político-social ao nível local". In: Dados do Instituto Universitário de Pesquisas. Rio de Janeiro, n. 9, 1971.
Entrevista com Plínio Arruda Sampaio
1) Quem foi o padre Lebret e qual o fundamento de sua doutrina (Economia e Humanismo)?
RESPOSTA:
Prezado Dejalma, respondendo muito brevemente às suas perguntas. O Padre Lebret O.P. foi um frade dominicano que, em 1941, criou um movimento denominado Economia e Humanismo. Esse movimento tinha a finalidade de levar os cristãos sociais a propor novas formas de organização da economia. Passar da economia capitalista a uma economia das necessidades humanas. O fundamento do pensamento de Lebret é a doutrina social da Igreja. Ele é um herdeiro direto de Ozanam, Lacordaire, Lammenais, Buchez e mais uma plêiade de cristãos que, em 1848, propuseram a opção pelos "bárbaros" contra a opção pelo Trono, dando origem ao catolicismo social.
2) Qual a contribuição da teoria de Lebret para as Ciências Sociais do Brasil (influência aos intelectuais brasileiros)?
Aqui no Brasil, Lebret teve uma enorme influência entre os cristãos. Sua presença coincidiu com a entrada de um grupo importante de cristãos no Partido Democrata Cristão. Alceu Amoroso Lima, André Franco Montoro, Antonio Queiroz Filho, Afonso Arinos de Mello Franco e vários outros foram discípulos de Lebret. O Francisco Whitaker Ferreira, criador do Fórum Social Mundial, trabalhou no escritório de Economia e Humanismo, diretamente sob a orientação do Padre Lebret. O Padre Lebret, no tempo do governador Lucas Nogueira Garcez, dirigiu um importante estudo sobre a Bacia Paraná-Uruguai. Desse estudo, surgiram as grandes hidroelétricas (como Urubupungá) que deram enorme impulso à economia do Sudeste brasileiro. Da equipe que trabalhou com Lebret, saiu os técnicos que elaboraram o Plano de Ação do Governo de São Paulo, durante o governo do Professor Carvalho Pinto.
Obs. A premência de tempo não me permite estender mais esta exposição, mas o amigo pode conseguir informações mais acuradas com o Francisco Whitaker (11 3064 1535) ou com o Darcy Passos (11 5506 6621) - pessoas que trabalharam diretamente com Lebret durante anos.
Há também o site de Economia e Humanismo (www.economieethumanisme.org). Mas imagino que você já o conheça.
Um abraço, Plinio
Outros depoimentos referentes ao Pe. Lebret:
"Eu sigo um ensinamento do padre Lebret: o importante é você se considerar um zé-ninguém a serviço de uma grande obra. Sou um zé-ninguém há 80 anos, mas posso olhar para trás com orgulho e para frente com esperança." Franco Montoro, entrevista dada por ele mesmo ao jornalista Elio Gaspari, quando completou 80 anos, em 1996. Citado por José Serra no artigo Um homem público (Folha de São Paulo - Tendências e Debates - 30/10/2003). Disponível em http://www.unicamp.br/unicamp/canal_aberto/clipping/outubro2003/clipping031030_folha.html. Acesso em janeiro de 2006.
" Deve o político – como aprendi com o Padre Lebret – procurar andar mais depressa que os acontecimentos, ver com antecipação a realidade e agir prontamente sobre a causa dos problemas." Senador Marco Maciel. Discurso de recepção pelo acadêmico Marcos Vilaça. Disponível em http://www.senado.gov.br/web/senador/marcomaciel/academia_discurso_recepcao.asp. Acesso em janeiro de 2006.
"Uma tarde fomos todos com o Padre Lebret ao Mosteiro. Guardei bem a cena porque eu ia atrás e podia observar bem as várias configurações que tomava o grupo, e ouvir o que diziam sem necessidade de intervir ou apartear. Na frente, ao lado de Dom Abade curvado e afável, a carrure robusta do dominicano de rosto quadrado, duro e resoluto. Dois monges esticavam o pescoço para o gosto de ouvir falar francês, e Murilo Mendes, desembaraçado e afoito, quis em certo momento dizer uma frase definitiva. E lançou: "O comunismo é chato por não ter o senso da poesia". E então eu vi, com estes mesmos olhos mais moços, uma cena inesquecível. O Pe. Lebret voltou-se como se o tivessem picado, e com dois olhos azuis implacáveis pregados no rosto de Murilo retorquiu: "C'est vous que n'avez rien compris du communisme". Os monges sorriram. O abade sorriu. Ninguém sabia o que fazer dos braços e do rosto. Murilo meteu a viola no saco. Felizmente terminava ali o corredor e uma porta envidraçada produziu um torvelinho de pequenas amabilidades que encerraram o episódio". Gustavo Corção. O século do nada. Disponível em http://gustavocorcao.permanencia.org.br/Artigos/secnada1.htm. Acesso em janeiro de 2006.
"Em 1947 o Aziz Simão e eu nos aproximamos dos dominicanos. Fiquei amigo do padre Lebret e participei um pouco do movimento Economia e Humanismo. O padre Lebret nos disse naquela ocasião uma coisa que calou fundo em mim: "O futuro da humanidade está nas mãos dos socialistas independentes e dos cristãos convertidos ao cristianismo..." Ele fez em São Paulo notáveis palestras sobre o movimento operário e as teorias políticas, para chegar à explicação da sua, que era uma espécie de socialismo cristão. Antonio Candido, entrevista concedida a Eder Sader e Eugênio Bucci. Disponível em http://www.fpa.org.br/td/td02/td02_memoria.htm. Acesso em janeiro de 2006.
"Betinho formou-se na geração da Juventude Universitária Católica (JUC), que recebeu a influência do pensamento e da prática social cristãos, entre eles o notável Padre Lebret, inspirador da Encíclica sobre o Desenvolvimento dos Povos, a Populorum Progressio, do Papa Paulo VI. Lebret era um incansável estudioso das questões econômicas à luz dos princípios éticos dos Evangelhos e articulou uma rede de pesquisadores, pessoas e entidades em torno desse compromisso. Betinho aprendeu com ele que a economia é um instrumento para o promover o bem maior, o desenvolvimento com justiça social. A primazia e o fim último é sempre a vida e a dignidade da pessoa humana. Teoricamente, as pessoas razoáveis concordam com isso." PATRUS ANANIAS. Cidadania e Solidariedade. Disponível em http://noticias.cardiol.br/listanotsql.asp?P1=208705. Acesso em janeiro de 2006.
Autor:
Professor do Departamento de Ciências Sociais da UNIJUÍ (RS). Doutorando em Ciência Política da UFRGS (Brasil)
Website: www.capitalsocialsul.com.br
UFRGS - Universidade Federal do Rio Grande do Sul
IFCH – Instituto de Filosofia e Ciências Humanas
Programa de Pós-graduação em Ciência Política
Professor: Hélgio Trindade
Ijuí, fevereiro de 2006.
[1] BELATO, Dinarte. "Mario Osorio: o intelectual". In. BRUM, Argemiro J. Trajetórias de uma vida: depoimentos. Ijuí: Editora da Unijuí, 2003.
[2] Disponível em < http://www.poli.usp.br/Organizacao/Historia/Diretores/Menezes_Rocha.asp>. Acesso em fevereiro de 2006.
[3] Coelho, Sandro Anselmo. O Partido Democrático Cristão: teores programáticos da Terceira Via brasileira (1945-1964). Revista Brasileira de História, vol. 23, nº 46. Disponível em http://www.scielo.br/pdf/rbh/v23n46/a09v2346.pdf. Acesso em janeiro de 2006..
[4] SOUZA, Rogério Luiz de. p. 65, apud. Coelho, Sandro Anselmo. O Partido Democrático Cristão: teores programáticos da Terceira Via brasileira (1945-1964). Revista Brasileira de História, vol. 23, nº 46. Disponível em http://www.scielo.br/pdf/rbh/v23n46/a09v2346.pdf. Acesso em janeiro de 2006.
[5] RIDENTI, Marcelo. O romantismo revolucionário da ação popular: do cristianismo ao maoísmo. Disponível em http://168.96.200.17/ar/libros/lasa98/Ridenti.pdf. Acesso em janeiro de 2006.
[6] Conferir MARQUES E BRUM (1972).
[7] A FAFI (Faculdade de Filosofia) nasceu com o espírito do associativismo e da participação comunitária. "De uma dimensão individual e individualizante evoluiu-se para uma dimensão marcada pela preocupação com o social e voltada para a grupalização e o associativismo. Cada pessoa é um ser único, tem na comunidade um lugar e um papel seu, intransferível. é nos grupos e associações, no encontro e confronto com os outros - no espelho do outro - que as pessoas, ao descobrirem os outros, se encontram e descobrem a si próprios como sujeitos participantes e criativos - construtores solidários da História, criando o clima e gerando as condições para a efetiva convivência democrática" (BRUM, 1994, p.19).
[8] In. Cadernos de Extensão 1: Uma comunidade em busca de seu caminho. Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras de Ijuí, 1962. (apud Trindade, 1971, p.130).
[9] Sobre a criação da FIDENE, Brum assim argumenta: "Amplamente discutida, a idéia foi adquirindo forma e se corporificando em seus documentos fundamentais, em atendimento a exigências legais, até culminar com a instituição da Fundação de Integração, Desenvolvimento e Educação do Noroeste do Estado -FIDENE, em julho de 1969, através da escritura pública de dotação de bens pela transferência do patrimônio da FAFI, pertencente á Sociedade Literária São Boaventura, á Fundação e, através dela, para a comunidade regional, a quem, de fato, por intenção de origem e destinação de serviços, já pertencia" (p.26).
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