Paisagem, retórica e valores: sobre o Vale do Côa



  1. Resumo
  2. Introdução
  3. Valores
  4. Informação
  5. Linguagem
  6. Conclusão
  7. Referências

Resumo

A paisagem é objecto de estudo em várias áreas científicas, desde logo a Geografia, mas também a História de Arte, a Ecologia, a Arquitectura Paisagista e o Urbanismo. Consoante o prisma de observação, a paisagem como símbolo, torna-se indutora de discursos a que se associam retóricas que priveligiam valores e a sua ordenação numa visão, física e mental. A paisagem como signo impõe-se como interpretante. Exemplifica-se com o caso da paisagem do Vale do Côa onde existem gravuras em xisto datadas desde o paleolítico.

Palavras-chave: paisagem, linguagem, valores, símbolo, Vale do Côa

Summary

Landscape is the object of study in various areas of science: Geography in particular, but also Ecology, Landscape Architecture, Urbanism and History of Art. Depending on the prism of survey, the landscape as a sign, a symbol, induces rhetorical features, structuring different sets of values and their hierarchy in a physical and mental vision. The object Landscape imposes as interpretant. A good example is Vale do Côa, the oldest open-air paleolithic site currently known.

Keywords: landscape, language, values, symbol, Côa Valley

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Introdução

Na Geografia, paisagem define-se como o conceito usado para descrever o aspecto global de uma área [1], sendo a paisagem cultural produzida pela ocupação humana onde o ambiente físico fornece o habitat e a cultura é o agente que condiciona a sua modificação. Carl Troll [2] em 1939 introduzia a ciência da Ecologia da Paisagem tendo por objecto uma extensão espacial, com um raio de quilómetros, com três dimensões analíticas: geográfica, ecológica e cultural, integradas corologicamente num complexo de ecótopos [3].

Tomando como objecto a paisagem geográfica há autores que procuram equacionar como o imaginário da natureza é descodificado em valores simbólicos economicamente materializados [4], considerando que as paisagens são os modos mais eloquentes de compor e decompor imagens através do discurso científico culturalmente centrado.

O caso das gravuras de Foz Côa [5] é exemplar de um confronto de valores na paisagem: a descoberta de inscrições no xisto que fornecem uma cronologia muito vasta, com núcleos fortes em gravuras paleolíticas e da Idade do Ferro, levou a que o valor da conservação da memória e da origem se sobrepusesse ao da geração de energia na barragem - anulou-se a obra e indemnizou-se em muitos milhões de euros.

De alguma maneira se julgou que a conservação do legado gráfico reportado há cerca de 25000 anos atrás, em sulcos zoomórficos e outros inscritos em placas de xisto, valia mais do que os investimentos previstos para a região. Tratou-se de uma decisão política movida por uma elite cultural que se inscreveu como um sentimento dominante e vingou.

Mais: as gravuras não foram retiradas para outro local para viabilizar a obra mas sim conservadas no sítio, nos locais, na sua paisagem de inserção, o que se pode interpretar como uma forma de apropriação de território [6], onde o monumento é o próprio vale. A paisagem do Vale do Côa tornou-se assim um objecto de valor propriamente dito com grande profundidade histórica, grande magnitude se utilizarmos um atributo vectorial. Trata-se afinal do maior espaço aberto de arte paleolítica conhecido até hoje [7], e actualmente denominado como parque, a que corresponde uma figura jurídica de ordenamento do território.

Valores

O conceito de valor tem várias conotações, denotando facetas distintas de objectos em diferentes áreas de estudo. Pesquisando o denominador comum tem-se que originalmente o termo de origem latina "valor" aplicava-se ao valor de um guerreiro, associado à sua coragem e valia na defesa ou expansão do território. Está relacionado com o termo virtus, raiz de virtude, equiparada a força, tendo radical em vir, também usado na acepção plural de "forças", vires, a que se associa o termo virens gerador etimológico da palavra "verde".

Em Química a valência de um átomo define-se como o número de ligações que pode estabelecer com outros através da partilha de electrões da última camada, as chamadas ligações covalentes.

Fontanille e Zilberberg utilizam o conceito de estrutura tensiva [8] para falar de valor: referem-se à valência como o valor do valor e invocam a analogia química colocando o valor de um objecto como sendo expresso num confronto entre intensidade e extensão, ou valores de absoluto e de universo, respectivamente associados a eixos ou gradientes num diagrama cartesiano no plano; a representação mais frequente ocorre como uma figura que se pode interpretar como um ramo de hipérbole e a aplicação deste esquema ao problema de equacionar o valor da paisagem foi esboçada no confronto entre estrutura tensiva e módulo [9].


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