Avaliação do exame nacional do curso de administração

Indice
1. Apresentação
2. Proposta
3. Metodologia
4. Conclusões
5. Bibliografia
6. Anexos

1. Apresentação

Este artigo tem caráter exploratório e pretende incentivar uma discussão sobre um dos instrumentos do Sistema Nacional de Avaliação do Ensino Superior, o Exame Nacional de Cursos (ENC), mais conhecido como Provão (Lei 9131/1995). Os resultados do Provão juntamente com os demais procedimentos e critérios determinarão a qualidade e eficiência do ensino, pesquisa e extensão capazes de contribuir com a melhoria da qualidade do ensino superior. A chegada do Exame Nacional de Cursos (Lei 9131/1995 e Decreto 2026/1996) em 1996 – PROVÃO – impactou o ensino superior brasileiro. O cenário universitário, não foi mais o mesmo desde então. De um lado, o provão provoca apreensão e desconfiança dos administradores e o boicote por parte dos universitários. De outro, estimula o debate, a crítica e quebra a letargia do sistema. As instituições de ensino são levadas a investirem nos recursos humanos, dobrando o número de professores titulados nestes seis anos, e nas estruturas físicas (Revista do Provão, N. 6, 2001, p. 12).
A idéia central deste artigo é tentar contribuir para um debate que se torna premente na gestão universitária, o Provão, a partir das percepções dos 40 alunos do 5.º ano do curso de Administração de Empresas da Faculdade de Ciências Sociais Aplicadas / UNIVAP: Quais são os limites e possibilidades de se trabalhar com os resultados do provão para além do cenário
universitário? É válido utilizar o resultado do provão para selecionar futuros profissionais?
Estas questões tomam a ordem do dia no momento em que uma das principais funções do provão é justamente a de se efetivar como um instrumento de avaliação legitimado pela opinião pública, administradores escolares e empresariais. Segundo a Lei 9131/95, o Exame Nacional de Cursos faz parte de uma proposta política que pretende "assegurar a participação da sociedade no aperfeiçoamento da educação nacional (...)" "realizando "avaliações periódicas das instituições e cursos de nível superior, usando procedimentos e critérios abrangentes que determinam a
qualidade e eficiência do ensino, pesquisa e extensão"
O provão, parece-nos estar consolidado como um dos indicadores e um importante agente de transformação do ensino superior. A partir dele, a rede física foi melhorada, cresceu o número de docentes titulados, inicia-se diferentes investigações à luz de novas propostas pedagógicas, investe-se num novo jeito de administrar o ensino superior, avalia-se o desempenho dos cursos, dos professores e dos alunos.
As primeiras resistências ao provão foram superadas, principalmente junto à opinião pública, que vem legitimando os resultados e considerando-o como o processo de avaliação mais conhecido e transparente, segundo a presidente do INEP, Dr.ª Maria Helena Guimarães de Castro (Revista do Provão, N. 6, 2001, p. 12).
O Exame Nacional de Cursos – PROVÃO – parece chegar de forma definitiva numa sociedade que carece de uma cultura de avaliação, talvez esta seja a razão de sua chegada ter causado tanta resistência, nos mais diversos segmentos da realidade brasileira. Muitos dos programas de avaliação anteriores persistiram na definição de procedimentos que acabaram induzindo uma decisão e intimidaram tanto os profissionais como os gestores das unidades de ensino superior, subestimando o caráter essencial dos programas que é o de enfatizar a discussão entre os agentes sociais, já que é, a discussão, a função essencial da avaliação (Braskamp & Orly, 1997, p. 70-71).
Amodeo (1982), Saul (1988), Miller (1987) são alguns dos autores que tratam de discutir a avaliação. Miller apresenta os dois objetivos que devem orientar a escolha do instrumental: a forma de coleta de dados, a análise e a divulgação. Qualquer programa de avaliação deve assentar-se tanto sobre o objetivo de melhorar o desempenho (função formativa), como auxiliar na tomada de decisões eqüitativas e eficientes (função somativa).
Neste momento histórico, a avaliação deve centrar-se em discutir prioritariamente alguns aspectos que merecem destaque: a importância do aluno no processo, mesmo que os objetivos da avaliação sejam, ainda, o centro da discussão, em sua função formativa; o processo de avaliação deve contar com múltiplas fontes de informação e que o clima organizacional universitário vai favorecer ou não a instalação de uma cultura de avaliação. Neste sentido, o Provão tem o mérito de reiniciar o processo de discussão. Seus resultados ainda, destacam exatamente aqueles cursos cujos resultados ficam a desejar. Em outros termos, o resultado acaba intimidando os cursos e as universidades, muito mais do que criar um ambiente favorável à discussão e a tomada de novas decisões. Não se pode pensar que o resultado alcançado pelo aluno que não se responsabiliza com o provão, possa ser utilizado como indicador de qualidade de ensino. Os demais instrumentos e as demais fontes de informação que em tese devem auxiliar na avaliação do curso parecem não merecer da opinião pública o mesmo destaque pela mídia.
Os resultados que permitem afirmar que os cursos superiores estão melhorando, que a estrutura física melhorou, que as bibliotecas e os periódicos se encontram mais atualizados, os laboratórios melhor equipados e o perfil de qualificação do corpo docente melhor, são de exclusiva responsabilidade do INEP. Ainda, não se dispõe de estudos sistemáticos sobre a eficiência e eficácia do provão por outras entidades de pesquisa.
À nossa disposição temos os relatórios do INEP apresentados em discussões científicas, em seminários e as opiniões dos administradores de alguns cursos superiores. Na Revista do Provão (2001, N.6, p. 13), podemos encontrar a Reitora do UEFS, o Vice-Reitor da UFBA, como também a opinião dos primeiros colocados no último provão. No processo de aperfeiçoamento do provão e dos demais instrumentos de avaliação do Sistema Nacional de Avaliação do ensino superior brasileiro, a Diretoria de Avaliação e Acesso ao Ensino Superior do INEP, iniciou uma série de seminários envolvendo diferentes parceiros. Os resultados alcançados nas contínuas discussões vêm apontando na direção de que o Exame Nacional de Cursos tem alcançado o objetivo de melhorar a qualidade do ensino superior brasileiro.

Segundo o documento " Cinco anos do Exame Nacional de Cursos" (MEC/CNE/INEP, 2001, p.2), o provão enquanto um mecanismo de avaliação externa "propõe-se a verificar o processo de ensino e aprendizagem no que se refere à aquisição e aplicação de conhecimentos e habilidades básicas dos concluintes dos cursos de graduação. O Exame não se limita, porém, a ser um diagnóstico: é na verdade, uma ferramenta para conhecer a realidade dos cursos, com o objetivo de estimular a reflexão sobre o presente e constituição de um modelo desejado e necessário para as mudanças que se quer empreender, na consolidação de aspectos relacionados às prioridades sociais em termos de conhecimento e tecnologia" .Faz parte do Sistema Nacional de Avaliação do Ensino Superior e enquanto instrumento o provão pretende " verificar se, ao final do curso, aquele grupo de alunos demonstra conhecimentos atualizados na sua área, além de competências e habilidades que lhe permitam enfrentar os desafios de uma sociedade em transformação constante"

2. Proposta

As universidades em geral têm ficado satisfeitas com as análises realizadas pelo INEP e muito preocupadas quando os resultados não são satisfatórios. Raras têm sido as análises mais sistemáticas. As faculdades e universidades não têm se preocupado em analisar os resultados do provão, junto aos seus professores e alunos e muito menos têm se preocupado em procurar avaliar junto aos alunos dos diferentes cursos suas opiniões e percepções quanto ao provão, sua preparação e a participação do curso na preparação do seu desempenho. Este artigo se coloca na proposta de realizar um estudo exploratório sobre as opiniões e percepções dos 40 alunos do curso de Administração de Empresas / FCSA /UNIVAP. Nossa esperança é que esta análise contribua de fato com o debate sobre o provão e sobre o uso de seus resultados para além do cenário universitário.

Entre os cursos que vêm conquistando excelência no provão, encontra-se o curso de Administração de Empresas. Estes cursos, mesmo cumprindo o Parecer 776/97, têm na opinião de 63,8% dos alunos que fizeram o provão em 2000, um nível de exigência "insatisfatório" (INEP,2000). Isto pode significar que as sólidas competências que devem preparar o graduado para e desafios das rápidas transformações da sociedade, do mercado de trabalho e das condições do exercício profissional, não estão sendo construídas. Se os alunos não se vêm com capacidade de identificar as dificuldades e as oportunidades, de lidar e propor soluções em processos de mudança, de raciocínio lógico, crítico e analítico e nem se vêm capazes de coordenar equipes de trabalho e liderar, a coordenação destes cursos precisa, com urgência, elaborar uma agenda para discussão com seus professores. O aluno precisa se sentir capaz de enfrentar o provão, graças à sua própria preparação e à preparação feita pelo curso, e se tornar responsável socialmente pelo provão.
O curso de Administração de Empresas da Faculdade de Ciências Sociais Aplicadas / UNIVAP, participa do Exame Nacional de Cursos desde 1997. Neste primeiro ano, alcançou o conceito "B", nos anos de 98 e 99, o conceito "C", e no ano 2000, conceito "A".
Este estudo, embora exploratório, é o primeiro realizado pelo curso de Administração de Empresas da Faculdade de Ciências Sociais Aplicadas – UNIVAP. A expectativa é que volte a ser realizado nas próximas turmas, para que se tenha no final de algum tempo resultados acumulativos, representatividade estatística que permitam a generalização dos dados e permitam avaliar o provão segundo a opinião dos graduandos em Administração de Empresas e orientem a organização de uma agenda de discussão sobre o curso.
Procura-se identificar as opiniões destes sujeitos quanto à sua formação profissional e o tipo de qualificação profissional desenvolvida durante o curso; as opiniões e percepções quanto ao provão e sua importância. Concomitantemente, procurou-se, delinear a preparação e o desempenho pessoal para o provão.

3. Metodologia

O estudo como já afirmamos anteriormente é exploratório, portanto não conclusivo, impedindo qualquer nível de generalização, e partiu de um levantamento por meio de um questionário (anexo 3) composto por 19 itens, considerando o tipo de formação e qualificação profissional oferecidos pelo curso, expectativas quanto a especialização profissional e opiniões sobre o resultado, sobre a preparação e interesse pelo provão. O questionário é uma adaptação do instrumento elaborado por Nicodemo (2001) e aplicado aos alunos do curso integral da Faculdade de Odontologia de São José dos Campos/ UNESP.
Para a análise dos dados será utilizada a estatística descritiva. Para garantir o entendimento das opiniões e percepções dos alunos sobre o provão se fará uso da análise de discurso. A análise de discurso é uma metodologia que vem sendo usada para os estudos centrados tanto no processo de construção das representações sociais, como nos estudos que visam entender as representações sociais de um dado grupo (Spink, 1993a,1993b, 1999; Wagner, 1999; Pimentel Mello, 1999). Seguimos os seguintes passos para a análise: leitura flutuante para aflorar os temas, a prática e o investimento afetivo e em seguida definimos o objeto da representação considerando os objetivos do presente estudo.

Resultados
Dos 40 alunos questionados para o presente estudo, 55 % pertencem ao sexo masculino (tabela1 e gráfico 1) e 52,5% se encontram na faixa etária de 22 a 25 anos (tabela 2 e gráfico 2).
Quando questionados sobre as disciplinas do curso que desenvolveram as habilidades técnicas, pessoais e sociais, encontramos a seguinte situação (ver quadros 1.1; 1.2;1.3;1.4; 1.5; 1.6):

  1. Administração Financeira (15%), Administração de Produção (15%), Teoria Geral da Administração (15%) e Organização e Métodos (12,5%) são apontadas como as disciplinas que mais colaboraram no desenvolvimento das habilidades técnicas. Em segunda opção, as disciplinas selecionadas são: Contabilidade (12,5%), Organização e Métodos (12,5%) , Teoria Geral da Administração (10%) e Análise Financeira (7,5%).
  2. Recursos Humanos (50%), Psicologia (17,5%) e Marketing (12,5%), foram as disciplinas escolhidas como aquelas que mais auxiliaram no desenvolvimento das habilidades pessoais, como tolerância, paciência, identificação com a profissão, realização e satisfação. Em segunda opção, as escolhas recaíram sobre Recursos Humanos (22,5%), Projetos (12,5%) e Psicologia (5%). O que nos chama a atenção é a escolha das disciplinas "Relações Humanas" e "Projetos". Muitas podem ser as variáveis e as circunstâncias sociais que levam 50% dos alunos a selecionarem Recursos Humanos e 12,5% Projetos. Entender as relações humanas não significa que se tenha qualidades pessoais para a atuação profissional. O isolamento ou a distância de situações conflitantes experimentadas pelo profissional de Projetos podem estar sendo vistas como valorização social, mas com certeza, não colabora com o desenvolvimento de habilidades pessoais, como se espera da Psicologia, indicada por apenas 7,5% dos alunos questionados.
  3. Recursos Humanos (22,5%), Sociologia (22,5%) e Psicologia (5,%), são as disciplinas apontadas como favoráveis ao desenvolvimento das habilidades sociais, como o respeito pelo outro, comunicação, clareza da hierarquia social e da localização no espaço social. Em 2.ª opção, a Sociologia (17%), Recursos Humanos (12,5%) e Filosofia (5%) foram as escolhidas.
  4. O percentual da categoria "sem resposta" chama atenção . Entre 10 a 15% dos alunos preferiram não identificar qualquer disciplina do curso que tivesse contribuído com o desenvolvimento de habilidades técnicas, pessoais e sociais.

Quando questionados sobre como avaliam a formação profissional oferecida pelo curso de Administração de Empresas (ver gráficos e tabelas 3 e 4), 47,5% dos alunos consideram ser "bom" o fato de ela ser generalista, embora 72,5% não pretendam continuar sendo um administrador generalista (gráfico e tabela 7). Destes, 92,5% pretendem se especializar (gráfico e tabela 8) e de preferência no próximo ano (67,6%) (ver gráfico e tabela 9), quando pensam estar trabalhando em empresas locais (82,5%) (ver gráfico e tabela 6). Dos alunos questionados, 32,% consideram ser "bom" ela ser tecnicista. Para 62,%% dos alunos, a formação profissional obtida no curso de Administração de Empresas é tida como com qualificação tanto para o trabalho como humana (gráfico e tabela 5).
Ao pretenderem se especializar, selecionam as seguintes áreas (quadro 2): Marketing (13,5%), Administração de Materiais (10,8%) e Logística (10,8%). As razões que justificam a escolha destas áreas são principalmente a atualização na área (35,1%) e identificação com ela (43,2%), e em 2.ª opção, o gosto pela pesquisa (13,5%), facilidade, utilidade e habilidade na área (16,2%) e a possibilidade de crescimento na área (13,5%) (quadros 3A e 3B).

O resultado do provão (ver gráfico e tabela 10) é considerado importante muito mais para a UNIVAP e para os alunos (37,5%) do que para o curso e alunos (25%). A contribuição da Faculdade de Ciências Sociais Aplicadas e do curso de Administração de Empresas somada ao aproveitamento pessoal foram significativos para a preparação individual para 53,5% dos questionados (gráfico e tabela 12). Mesmo recebendo esta preparação, 55% se acham preparados de maneira "satisfatória", e 25% não se consideraram preparados (gráfico e tabela 11). A preparação dada pelo curso constou, segundo os alunos de simulados (55%), revisão geral e revisão em Recursos Humanos (12,5% respectivamente) (ver gráfico e tabela 15).
O interesse pelo provão é "regular" para 47,5% (ver gráfico e tabela 13) e o conceito "A" (quadro 4) tirado pelo curso em 2000, significa 100% de aproveitamento no curso (15%), treino (15%), empenho e reconhecimento da instituição(10% respectivamente). Dos alunos questionados, 10% são da opinião de que o conceito "não significa nada" e "a avaliação é enganosa" e 12,5% preferiram não responder.
Quando questionados sobre as relações entre a interferência do desempenho pessoal e a preocupação com a realização do provão, temos os seguintes resultados:

  1. para 17,5%, a preocupação com o resultado do provão existe e a influência do desempenho pessoal é "muita" (ver tabela e gráfico 14);
  2. para 25%, a preocupação existe e a influência do desempenho pessoal é "relativa";
  3. para 25%, a preocupação não existe e a influência do desempenho pessoal é "relativa".

Os alunos parecem não perceber que o provão:

  1. pode garantir o aperfeiçoamento por meio de bolsas da CAPES, como prêmio por receberem altas notas no provão;
  2. faz o aluno assumir a responsabilidade com a manutenção da qualidade do curso, juntamente com o corpo docente e o corpo administrativo-pedagógico da universidade – faculdade;
  3. que o resultado do provão passou a ser um certificado adicional que ele tem e um aliado, já que descoberto pelas empresas, algumas estão adotando o conceito do provão como critério na hora de selecionar os candidatos a futuros profissionais ou estágios. "as empresas catarinenses já estão usando os resultados do provão como critério de contratação pessoal. Até na hora de contratar estagiários, elas vão aos cursos que obtiveram melhores resultados no exame" (INEP, Revista do Provão, N. 6/2001, p. 33). "Vários alunos têm relatado que a primeira pergunta dos empresários é sobre o conceito do curso no provão (SCOZ, F. R. Revista do Provão, N. 6/2001, p. 33). Lebarbenchon ( Revista do Provão, N. 6/2001, p. 34), responsável pela central de estágios da UFSC, vê uma nítida relação entre conceitos no provão e emprego.

Para 53,3% dos questionados houve tanto contribuição do curso de Administração de Empresas da FCSA, por meio de simulados (55%) e revisão (25%), como empenho do aluno, mas o interesse pelo exame foi "regular" para 47,5% (ver tabelas 12 e 13). Dos alunos questionados, 15% (tabela 15) são da opinião de que a faculdade e o curso "não colaboraram" com o provão (tabela 15), a interferência do desempenho pessoal é "relativa" e a preocupação com o exame "não existe" (10%, ver tabela 14).
Quanto à preparação do aluno questionado para o provão (tabela 11 e gráfico 11), não há diferenças de gênero, pois tanto os homens (37,5%) como as mulheres (37,5%) se acham "sim" preparados "plenamente" e "satisfatoriamente", para o exame. Quanto às mulheres, 15% delas "não" se sentem preparadas para o exame.
Não existem diferenças significativas entre a distribuição por sexo e o tipo de qualificação recebida durante a formação profissional, pois 25% dos homens como 35% das mulheres acreditam terem obtido tanto uma qualificação para o trabalho como uma qualificação humana (tabela 16).
Dos alunos questionados, 12,5% dos alunos e 25% das alunas (tabela 17) definem que a importância do provão é tanto para a UNIVAP como para os alunos e que estão "satisfatoriamente" preparados para o provão (homens=22,5% e mulheres=32,5%, ver tabela 18).
Como o estudo foi realizado para conhecer e descrever as opiniões de um determinado grupo de alunos, 5.º ano do curso de Administração de Empresas /FCSA – UNIVAP, turma 2001, a generalização dos resultados obtidos não cabe. Mesmo assim, aplicamos o teste x2, relacionando a distribuição por sexo e o tipo de qualificação profissional (tabela 16A), a importância do provão (17A) e a preparação do aluno para o provão (18A) para explicitar a proporção entre as variáveis. Os resultados dos testes nos levam a concluir que as proporções "não diferem" e estes resultados nos levam a inferir que as opiniões se mantêm independentemente da categoria sexo. O tamanho da população-alvo (N=40) pode não ter sido significativa, o que reforça a nossa impossibilidade de generalizar os resultados acima descritos.

Discussão
As evidências empíricas indicam que os atores sociais elaboram seus conceitos sobre os fatos e fenômenos do mundo histórico – social. Em geral, estes conceitos organizados pelo senso comum, são denominados pelo mundo científico, de representação social.
Entende-se por representação social, o sistema de interpretação, com valores, noções e práticas, da realidade que acaba de um lado, por organizar as relações dos indivíduos com o mundo histórico – social e orientar suas condutas e seus comportamentos; e de outro, possibilitar a comunicação com os demais membros da comunidade.

Para Jodelet,
As representações sociais são formas de pensamento utilizadas na comunicação, na compreensão e no ensino do meio social, material e ideativo, que surgem das obras dos atores sociais e de seus relatos de fatos e fenômenos sociais. A construção das representações sociais inclui, também, as estruturas imaginárias e simbólicas dos atores sociais (1994, p. 100).
Toda representação social é representação de algo e de alguém. Assim, não é a duplicação do real, nem é a duplicação do ideal, nem a parte subjetiva do objeto. Sendo que constitui o processo pelo qual se estabelece sua relação (1986, p. 175).

Os grupos e as categorias sociais têm impressões sensoriais e experiências pessoais distintas e percebem diferentemente o mundo histórico – social. organizando suas representações sociais na vida cotidiana.
Já que as representações sociais são elaboradas no cotidiano dos grupos ou categorias sociais, elas tendem a se distanciarem dos conceitos elaborados no mundo científico, pois é o saber que preenche nossa vida diária e que se possui sem haver procurado ou estudado, sem aplicação de um método e sem haver refletido sobre algo (Babini, 1957, p. 21; reforçado por outros autores como Ander-Egg, 1978, p. 13-14).
Como se trata da análise de discurso sobre as representações sociais de alunos do 5.º curso de Administração de Empresas/FCSA/UNIVAP sobre o provão, utilizamos como dimensões analíticas: a teoria sobre o provão e sobre o aluno, candidato ao provão, ofertada pelo INEP; a prática do provão no que diz respeito ao tratamento do provão, assim como os encaminhamentos específicos no cotidiano do curso; e os investimentos afetivos. Em seguida construímos dois mapas (p.9 e p.10) que transcrevem a fala dos alunos nos questionários, respeitando a ordem do discurso para as dimensões criadas e possibilitam a associação de idéias entre estas dimensões. Da leitura flutuante, elaboramos os mapas 1 e 2. O primeiro sintetiza as construções sobre provão e candidato ao provão; o segundo sintetiza o discurso do aluno sobre o provão. De um lado está a obrigatoriedade de realizá-lo e de outro o curso não os prepara como devia. Concomitantemente identificam-se as práticas dos candidatos, a adoção pelo aluno de uma conduta considerada adequada no sentido de seu desempenho pessoal favorecer a aprovação no exame ou a adoção de
uma retórica sobre os efeitos dos resultados.
No mapa das associações de idéias sobre o provão, mapeamos o discurso dos alunos a partir dos temas emergentes definidos pela leitura flutuante. Utilizamos três temas: a função do provão, a preparação para o provão, o interesse nos resultados do provão, de modo a entendermos a construção que os alunos questionados fazem do provão .
Associadas as idéias dos alunos sobre o provão, transportamos estas associações para o mapa 2, pontuando as relações entre os elementos cognitivos, as práticas e os investimentos afetivos, tal como orientados por Spink (1995, p.129-140).

Pensamos ter captado as divergências e aspectos comuns e compartilhados pelo grupo questionado, concomitantemente procuramos acessar os investimentos afetivos a partir das contradições presentes no discurso.
O mapa de associação de idéias (p.9) e o mapa apresentando a representação social do provão (p.10), nos levam a entender que, embora o Exame Nacional de Cursos - Administração de Empresas - seja um mecanismo de avaliação externa para verificar o processo de ensino-aprendizagem, legitimado pela opinião pública, os alunos questionados não o consideram como sendo sempre de seu interesse particular e que os resultados alcançados tanto pelo aluno como pelo curso podem ser "enganosos" , "não significarem nada ". Tão pouco estão "muito preocupados" com esta obrigatoriedade, embora se acreditem estar satisfatoriamente preparados devido às contribuições do curso por meio de revisões e simulados e ao próprio empenho durante o processo de formação.
Independentemente dos resultados que possam vir a ter, a maioria tem a expectativa de estar atuando como administradores em empresas locais e de se especializarem nos próximos dois anos.

4. Conclusões

Conhecer e compreender como o aluno, o protagonista, se relaciona com o Exame Nacional de Cursos, com a própria formação profissional e com o seu desempenho pessoal no provão e com os demais fenômenos sociais da sociedade brasileira podem levar os gestores e professores do ensino superior a dialogarem com mais clareza durante o ato educativo e acompanhá-lo por meio de uma pedagogia personalizadora fundamentada no estudo atento de seus limites e possibilidades. Os relatos que organizam sobre o Exame Nacional de Cursos demonstram as formas como estabelecem suas relações com a universidade, com o curso, com o provão e com o futuro mercado de trabalho.

A partir dos resultados alcançados e acima apresentados nos mapas 1 e 2, foi-nos permitido concluir que:

  1. Não há clareza quanto a responsabilidade social por parte do aluno com o provão realizado em julho/2001. Não se vêem como sujeitos de sua própria formação. O provão é uma obrigação que o aluno do ensino superior deve cumprir.
  2. Acreditam estar satisfatoriamente preparados para o provão, embora seu interesse seja regular e a interferência de seu desempenho pessoal, relativa.
  3. De um lado, acreditam-se preparados para o provão, respeitam o conceito "A "obtido pelo curso de Administração de Empresas / FCSA / UNIVAP. Acreditam que este resultado indica esforço, dedicação, sucesso, 100% de aproveitamento; de outro, não manifestam responsabilidade em repetir o conceito, nem "grande " interesse pelo provão. Estão pouco comprometidos e preocupados se há ou não desempenho pessoal com o provão.
  4. Na prática, a participação compulsória no provão, gera resistências pessoais, mas o torna importante para classificar o curso e universidade, o que acaba legitimando o provão como exclusivamente um instrumento de avaliação externa da qualidade do ensino, do aluno e da formação profissional. A participação de 100% dos alunos no provão legitima o processo de avaliação, mas nem sempre com a responsabilidade pessoal do aluno.
  5. O aluno recebeu uma formação generalista - tecnicista e uma qualificação tanto humana como para o trabalho, o que na maioria das opiniões dos alunos lhes permite atuar em empresas locais e se especializarem nas áreas de marketing, administração de materiais e logística. Embora persistam em que o curso deve, no futuro, melhorar sua contribuição para o provão.
  6. Os alunos não percebem que os resultados do provão ultrapassam o cenário universitário. Nenhum deles manifestou qualquer sentimento em relação ao uso do provão para a seleção de futuros profissionais, para facilitar o acesso à pós-graduação. O INEP deve melhorar a disseminação destas informações junto aos alunos, assim como as próprias universidades.

Os alunos desconhecem os demais mecanismos do Sistema Nacional de Avaliação. O Exame Nacional de Cursos, legitimou-se como o único instrumento de avaliação do ensino superior junto à mídia e a nota da prova passa a ser um certificado das condições de enfrentamento dos desafios de uma sociedade em transformação.
Pensamos ter inferido que o sentido que dão ao Provão/2001, venha, num futuro próximo, facilitar o processo de compreensão de que ele passa a ser mais que um instrumento que avalia os cursos, mas um indicador a ser utilizado na disputa pelo acesso ao mercado de trabalho. Que os alunos passem a se comprometerem com o provão, entendendo que sua participação deve ser de responsabilidade social, auxiliando a diagnosticar as deficiências e assim contribuir para melhorar a qualidade da educação e atender, assim, às necessidades de crescimento e desenvolvimento da sociedade brasileira.

 
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