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Valor nutritivo de silagem de capim-elefante (Pennisetum purpureum Schum.) com diferentes níveis de (página 2)

Daniele Rebouças Santana Loures; Rasmo Garcia; Odilon Gomes Pereira; Paulo

 

4. Material e métodos

O experimento foi conduzido no Departamento de Zootecnia da Universidade Federal de Viçosa, em Viçosa, MG. A forrageira utilizada foi o capim-elefante (Pennisetum purpureum Schum.) cultivar Cameroon proveniente de capineira já estabelecida, onde são incorporados somente adubos orgânicos, esterco de bovinos, durante o ano. O capim foi cortado manualmente, rente ao solo, no dia seis de junho de 2000 quando apresentava altura média de 1,80 m. Em seguida, foi picado em partículas de aproximadamente 5 cm, em máquina ensiladeira estacionária.

A casca de café, adquirida de indústria beneficiadora localizada no sul do Estado de Minas Gerais, foi moída em moinho tipo martelo com peneira de 2 mm e adicionada à forragem recém-picada em cinco níveis: 0; 8,7; 17,4; 26,1 e 34,8 kg de MN/100 kg de forragem verde, com três repetições. Para confecção das silagens foram utilizados silos de PVC com 0,25 m de diâmetro e 0,75 m de altura, dotados de drenos para coleta de efluente. Em cada silo foi colocado 20,2 kg da mistura fresca, adotando-se uma compactação de 550 kg/m3. Após o enchimento, os silos foram vedados utilizando-se tampa de madeira revestida por plástico e fita plástica adesiva. No sexto dia após o enchimento procedeu-se a vedação dos drenos existentes na parte inferior de cada silo.

A composição químico-bromatológica e a digestibilidade in vitro da matéria seca do capim-elefante e da casca de café utilizadas são apresentadas na Tabela 1.

Após 64 dias de ensilagem, procedeu-se à abertura dos silos, coletando-se em seguida amostras referentes a cada unidade experimental, após a homogeneização das mesmas. As amostras foram colocadas em sacos plásticos etiquetados e armazenadas em freezer para posteriores análises. Os valores de matéria seca (MS), proteína bruta (PB), fibra em detergente neutro (FDN), fibra em detergente ácida (FDA), hemicelulose, lignina, pH e digestibilidade in vitro da matéria seca (DIVMS), foram determinados conforme procedimentos descritos por Silva (1990). Para determinação da DIVMS, utilizou-se o método de duas etapas (96h de incubação). Os teores de carboidratos ácidos digeríveis (CAD), nos quais estão contidos amido, monossacarídios e dissacarídios, foram quantificados conforme procedimentos relatados por Silva (1990). Já os teores de nitrogênio insolúvel em detergente ácido (NIDA) foram determinados de acordo com os procedimentos descritos por Licitra et al. (1996), sendo expressos como porcentagem do nitrogênio total (NIDA/NT).

O delineamento experimental utilizado foi inteiramente casualizado, com três repetições, sendo os resultados interpretados por meio das análises de variância e de regressão. A escolha do melhor modelo foi feita com base no coeficiente de determinação e na significância dos coeficientes de regressão, utilizando-se o teste "t" de Student, a 1% de probabilidade. As análises estatísticas foram realizadas utilizando-se o Programa SAEG, versão 7.1 (UFV, 1997).

5. Resultados e discussão

Os teores de MS e pH das silagens são apresentados na Tabela 2. Ao proceder ao estudo da regressão polinomial, verificou-se efeito linear (P<0,01) dos níveis de casca sobre o teor médio de MS das silagens, estimando-se acréscimo de 0,54% no teor de MS por unidade de casca de café adicionada. Estes aumentos foram superiores aos obtidos por Ferrari Jr. & Lavezzo (2001), que verificaram incrementos de 0,45% no teor MS da silagem de capim-elefante por unidade de farelo de mandioca adicionada a forrageira que apresentava 18,65% de MS, no momento da ensilagem.

Ao ensilar capim-elefante cv Taiwan A-148 (15,9% de MS) com 20, 30 e 40% de sabugo de milho ou após sofrer emurchecimento por 12 ou 24 h Tosi et al. (1999) encontraram valores de 25,27; 29,41; 33,41; 20,64 e 31,5% de MS para as respectivas silagens. No presente experimento os respectivos valores de MS poderiam ser obtidos com a adição de 18,59; 26,21; 33.58; 10,07 e 30,06% de casca de café, estimados pela equação de regressão. Estes dados indicam que a casca de café mostrou-se um aditivo eficiente em elevar o teor de MS de silagens de capim-elefante, produzidas com alto teor de umidade. Tal fato pode ser atribuído, entre outros, ao alto teor de matéria seca da casca de café (81,6%), bem como à sua boa capacidade em reter umidade.

Ao adicionar 17,4% de casca estimou-se pela equação um teor de 24,6% de MS, acima dos 20% relatado por McDonald (1981) para preservação de gramíneas na forma de silagem. Semelhante ao observado neste experimento Loures (2000), constataram que a silagem de capim-elefante com 25% de MS além de não ter produzido efluente apresentou ainda odor agradável e coloração característica.

O comportamento dos valores de pH das silagens é mostrado na Figura 1. Verificou-se efeito quadrático (P<0,01) dos níveis de casca, estimando-se valor mínimo de pH igual a 3,78 para o nível de 26,87% de casca de café, segundo a equação de regressão . As silagens com níveis de 0 e 8,7% de casca apresentaram baixos teores de MS, que associados aos maiores valores de pH registrados, podem ter contribuído para a ocorrência de uma fermentação inadequada, percebida por forte odor desagradável, semelhante a fermentação acética. Além do alto teor de MS, a concentração de carboidratos solúveis da casca, 17,1% (Souza et al., 2001), também pode contribuir para abaixamento do pH, uma vez que estes são os principais substratos utilizados pelas bactérias produtoras de ácido lático (McDonald, 1981; Rotz & Muck, 1994). Os maiores teores de carboidratos ácidos digeríveis determinados na casca de café em relação ao capim-elefante (Tabela 1) é indicativo de que este resíduo pode contribuir para melhorar o padrão de fermentação das silagens de capins.

O valor de PB da silagem sem casca de café foi próximo ao registrado por Tosi et al. (1999) na silagem do cv. Taiwan A-148 que foi de 8,57% de PB. As silagens com casca de café apresentaram maiores teores de PB que a silagem sem casca de café, a qual teve seu teor médio de PB reduzido de 11,1 para 8,9%, quando comparado à forrageira no momento da ensilagem. O comportamento dos teores de PB das silagens é mostrado na Figura 2. Observou-se efeito quadrático, , com adição dos níveis de casca de café, estimando-se valor máximo de 11,21 para o nível de 20,82% de casca de café.

O baixo teor de PB observado na silagem testemunha pode ser atribuído à perda de compostos nitrogenados solúveis no efluente. Segundo McDonald (1981), em silagens com 85% de umidade, a perda de MS na forma de efluente pode exceder a 9%. Já para a silagens com níveis superiores a 20,82% de casca, a queda no teor de PB pode ter sido causada por um efeito de diluição, pois a casca de café apresentou menor teor de PB em relação à forrageira (Tabela 1). Para as silagens com nível igual ou superior a 17,4% de casca de café que apresentaram teores acima de 24% de MS não foi constatado, através de observações visuais, sinais de produção de efluente. Além do que, nesta silagens os teores de MS e de pH, junto com observações de odor agradável e da ausência de bolores visíveis foram indicativos de silagens bem preservadas.

A análise de regressão revelou efeito linear dos níveis de casca de café sobre os teores de NIDA/NT das silagens. O aumento nos teores de NIDA/NT pode ser explicado pelos maiores valores de NIDA/NT da casca de café em relação ao capim-elefante no momento da ensilagem, conforme mostrado na Tabela 1. Os valores médios, estimados em função dos níveis de casca de café (0; 8,7; 17,4; 26,1 e 34,8%) foram de 6,40; 9,23; 12,05; 14,88 e 17,70%, respectivamente.

O aumento no teor de NIDA não é desejável, pois o nitrogênio retido na fibra em detergente ácido não é aproveitado pelas bactérias ruminais (Van Soest & Mason, 1991; Licitra et al., 1996). Entretanto, ao se estimar a quantidade de nitrogênio disponível (ND = NT - NIDA), verificou-se valores médios de ND de 1,32; 1,51; 1,57; 1,51 e 1,33, para os níveis de 0; 8,7; 17,4; 26,1 e 34,8% de casca de café, respectivamente. Além do aumento no teor de PB das silagens observa-se também aumento na quantidade de PB disponível (PBD) para síntese microbiana, observando valores mínimos e máximos de 8,24 e de 9,8%, para as silagens sem casca de café e com 17,4% de casca, respectivamente. Isso demonstra que a adição de casca de café ao capim-elefante, com 14,5% de MS, no momento da ensilagem, contribuiu de forma positiva sobre os compostos nitrogenados das silagens.

Os valores médios observados de FDN para as diferentes silagens encontram-se na Tabela 3. Ao proceder o estudo da regressão polinomial, verificou-se efeito linear (P<0,01) dos níveis de casca de café sobre os teores de FDN das silagens, estimando-se redução de 0,31% no teor de FDN por unidade de casca adicionada. Estes decréscimos podem ser explicados pelo menor teor de FDN da casca em relação ao do capim-elefante, e pela menor produção de efluente, observado visualmente, nas silagens com casca. A redução na concentração de FDN de dietas contendo alta proporção de volumosos pode contribuir para aumentar o consumo de MS e ao mesmo tempo aumentar a densidade energética da ração de ruminantes (Jung & Allen, 1995). Ao comparar os teores de FDN do capim no momento da ensilagem com a silagem sem casca, verificaram-se valores de 69,6 e 72,9%, respectivamente. Esta diferença pode ser explicada pela perda de componentes solúveis da matéria seca (McDonald, 1981), aumentando a concentração de componentes da fração fibrosa.

A análise de regressão indicou efeito quadrático (P<0,01) dos níveis de casca de café sobre os teores de FDA das silagens, estimando-se valor mínimo de 41,60 para o nível de 20,09% de casca de café. O comportamento dos valores de FDA estimado pela equação é mostrado na Figura 3.

A redução nos teores de FDA das silagens, com a inclusão de até 20,09% de casca de café, pode ter ocorrido em função de uma resposta direta dos menores teores de FDN registrados na casca de café quando comparado ao capim-elefante no momento da ensilagem. Já os aumentos estimados nos teores de FDA das silagens com níveis superiores a 20,09% de casca de café podem ser explicados, em parte, pelos acréscimos nos teores de lignina das silagens com casca de café. Os valores médios e as equações de regressão da hemicelulose e lignina são mostrados na Tabela 3. Semelhantemente ao que ocorreu com a FDN, ao se compararem os teores de FDA, verificaram-se maiores valores para a silagem sem adição de casca (46,61%) em relação ao capim no momento da ensilagem (43,52%).

Ao se proceder ao estudo da regressão, verificou-se efeito linear (P<0,01) dos níveis de casca de café sobre a DIVMS das silagens, estimando-se decréscimo de 0,14% no valor da DIVMS por unidade de casca de café adicionada. Os valores médios estimados pela equação foram de 64,48; 63,24; 62,00; 60,77 e 59,53% para os níveis de 0; 8,7; 17,4; 26,1 e 34,8% de casca de café, respectivamente.

Mesmo com diminuição da DIVMS de 64,5 para 62,0% ao adicionar 26,1% de casca de café, este resultado pode ser considerado bom, por aproximar-se de 66,5%, valor registrado para o capim no momento da ensilagem. Cabe ressaltar também que apesar da DIVMS da silagem sem aditivo ter alcançado valor superior às demais, esta pelo fato de ter apresentado forte odor desagradável, típico da ocorrência de fermentações indesejáveis e alta incidência de bolores foi considerada imprópria para o consumo animal.

6. Conclusões

A casca de café mostrou-se eficiente em aumentar o teor de MS da silagem de capim-elefante contribuindo para a produção de silagens com maiores disponibilidade de nitrogênio e menores teores de FDN quando comparado à silagem de capim sem casca.

A adição de casca de café no nível de 17,4 kg/100 kg de forragem fresca, ensilada com alto teor de umidade, garantiu a produção de silagens com bom valor nutritivo.

7. Literatura citada

FERRARI JR., E.; LAVEZZO, W. Qualidade da silagem de capim-elefante (Pennisetum purpureum Schum.) emurchecido ou acrescido de farelo de mandioca. Revista Brasileira de Zootecnia, v.30, n.5, p.1424-1431, 2001.        [ SciELO ]

JUNG, H.G.; ALLEN, M.S. Characteristics of plant cell walls affecting intake and digestibility of forages by ruminants. Journal of Animal Science, v.73, n.9, p.2774-2790, 1995.        [ Medline ]

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LICITRA, G.; HERNANDEZ, T.M.; Van SOEST, P.J. Standardization of procedures for nitrogen fractionation of ruminant feeds. Animal Feed Science and Technology, v.57, n.4, p.347-358, 1996.

LOURES, D.R.S. Características do efluente e composição químico-bromatológica da silagem sob níveis de compactação e de umidade do capim-elefante (Pennisetum purpureum Schum.), cv. Cameroon. Viçosa, MG: Universidade Federal de Viçosa, 2000. 67p. Dissertação (Mestrado em Zootecnia) - Universidade Federal de Viçosa, 2000.

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UNIVERSIDADE FEDERAL DE VIÇOSA - UFV. SAEG - Sistema de análises estatísticas e genéticas. Versão 7.1. Viçosa, MG: 1997. 150p. (Manual do usuário).

Van SOEST, P.J.; MASON, V.C. The influence of Mallard reaction upon the nutritive value of fibrous feeds. Animal Feed Science and Technology, v.32, n.1/3, p.45-53, 1991.

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Alexandre Lima de SouzaI; Fernando Salgado BernardinoII; Rasmo GarciaIII; Odilon Gomes PereiraIII; Fernanda Cipriano RochaIV; Aureliano José Vieira PiresV - rgarcia[arroba]ufv.br

IZootecnista, MS, DZO/UFV.

IIZootecnista, DZO/UFV

IIIProfessor do Departamento de Zootecnia, UFV. Bolsista do CNPq

IVZootecnista, MSc, DZO/UFV

VProfessor do Departamento de Tecnologia Rural e Animal - UESB



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