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As concepções do balé como possível recurso terapêutico na fisioterapia (página 3)

Daniela da Silva Andrade Cardoso
Partes: 1, 2, 3

Figura 27 - Desenho esquemático simplificado ilustrando as principais influências sobre as atividades musculares. 1. Região periférica (fuso muscular), 2. Região medular (circuitos locais intramedulares), 3.Tratos descendentes (córtico e retículo espinhal lateral), 4.Circuitos de controle (cerebelo e gânglios da base) ( Lundy-Ekman, 2000).

Fisiopatologia do controle motor

Conhecer a fisiopatologia do controle motor é indispensável para orientar, avaliar e selecionar as medidas cabíveis de uma metodologia específica e intervenção adequada nas alterações motoras para um tratamento eficaz. Um padrão exclusivo de sinais e sintomas é produzido na lesão cerebral de neurônios específicos do SNC podendo resultar em comprometimentos primários e secundários.

Os comprometimentos primários na fisiopatologia do sistema motor envolvem componentes como: componente neuromuscular, sensorial, perceptivo e cognitivo. Na alteração neuromuscular há fraqueza, tônus anormal, reflexos anômalos, movimentos involuntários e descoordenação (acinergia). Os comprometimentos secundários vão comprometer a estrutura musculoesquelética e a diminuição do movimento funcional, de acordo com Shumway-Cook e Woollacott (2003).

No comprometimento sensorial apresenta descontrole motor, interrupção das informações sensoriais para os sistemas somatosensitivo, visual e vestibular. Alteração na função perceptiva gera comprometimento da imagem corpórea, disfunção de relação espacial e limitação do movimento funcional. A cognição deficiente altera a consciência, mudança no status mental, déficits de aprendizagem, memória, atenção e processamento de informações. É comum haver comprometimentos compostos resultante da soma de um ou mais dos sistemas citados anteriormente, apresentando assim probabilidades fundamentais para uma avaliação adequada e uma melhor elaboração do tratamento (Shumway-Cook e Woollacott, 2003; Teixeira, 2006). Estes sistemas podem facilmente ser trabalhados com as concepções do balé.

Na lesão do SNC acontecem alterações comuns como tônus muscular insuficiente, fraqueza, atrofia muscular e tônus muscular excessivo. A musculatura que deixa de ser utilizada por longos períodos de tempo atrofia, diminuindo a quantidade de filamentos de actina e miosina das fibras individuais, como também poderá perder força resultante da atrofia de desuso (imobilidade a partir de duas semanas). O potencial de ação nas fibras musculares em uma unidade motora fornece substâncias tróficas que previnem atrofia (Teixeira, 2006).

A atrofia de desnervação pode ocorrer em lesão de motoneurônio inferior pela remoção da fonte que supre continuamente os nutrientes tróficos, podendo levar a deterioração funcional e estrutural. Esta situação só se reverte quando há estímulo e reinervação dos nervos preservados que, após dois anos as miofibrilas contráteis são substituídas por tecido conjuntivo fibroso perdendo suas propriedades como músculo, a presença da contração muscular pode-se evitar esta substituição. O sistema nervoso poderá ser prejudicado por lesão ou seqüela de patologias incapacitantes do desenvolvimento e alguns distúrbios específicos. A lesão a nível periférico em si tem como ponto forte a falta de propriocepçãono controle motor e a nível central podemos citar e descrever as mais conhecidas como a PC e o AVE, resultando em alterações em todo processo do controle motor na área acometida pela lesão (Smith et al, 1997).

A paralisia cerebral é o termo usado para descrever um grupo de distúrbios motores resultado de uma lesão cerebral em indivíduos na fase de desenvolvimento. Seu comprometimento neurológico é estacionário no entanto ortopedicamente progressiva por resultar na combinação de retardo com distúrbios no desenvolvimento sensitivo motor. Atualmente há um consenso que surgiu na década de 90 chamado mundialmente de Gross Motor Function Classification System – GMFCS – um sistema de classificação da função motora grossa que estabelece o potencial de desempenho motor dividido por grau de comprometimento motor. Este sistema permite objetivar a médio e curto prazo as probabilidades de prognóstico motor baseado no estudo de universalização do quadro motor. Assim, amplia as possibilidades de se desenvolver habilidades baseadas no potencial existente. Este sistema de classificação é validado e descritivo, fornecendo uma classificação objetiva dos padrões de incapacidade motora de crianças com PC apresentado em uma escala ordinal de cinco níveis, dividida em quatro faixas etárias, utilizada universalmente baseada no movimento auto-iniciado com ênfase na função de sentar e na marcha (Palisano et al, 1997).

O grau de incapacidade motora é classificado em cinco níveis, o nível I refere-se à melhor função e maior independência e o nível V ao maior grau de limitação e dependência motora. As distinções entre os cinco níveis motores deste sistema são clinicamente significativas, podem ser distribuídos em três grupos pela gravidade do comprometimento motor:

- Leve (GMFCS, I e II) melhor função e maior independência;

- Moderado (GMFCS, III) limitação funcional e independência motora parcial;

- Grave (GMFCS, IV e V) maior grau de limitação e dependência motora.

Para a prática do balé clássico a criança deve apresentar-se nos níveis I ou II do GMFCS para desenvolver seu potencial e prevenir o desenvolvimento de alterações motoras comuns na patologia, a dança em si oferece para estes pacientes a possibilidade de novas experiências agradáveis que estimularão suas vias sensoriais e motoras desenvolvendo sua psicomotricidade a fim de alcançar padrões próximos da normalidade (Palisano et al, 1997; Braccialli e Ravazzi, 1998).

O AVE consiste na lesão do SNC maduro causada por isquemia e/ou hemorragia que em geral apresenta déficits clínicos que incluem a fraqueza ou paralisia de face, tronco e/ou extremidades apresentando comprometimento na sensibilidade, propriocepção, déficit visual, dificuldade cognitiva, comprometimento da linguagem e problemas perceptuais que são fatores dependentes da área lesada. As lesões que, por exemplo, acometerem a região entre o tálamo e os gânglios basais gerando uma cascata de ausência ou excesso de estímulos eferentes e aferentes ligados diretamente ao ato motor (Smith et al, 1997). As concepções do balé clássico vão ser úteis se empregadas neste tipo de lesão.

Lesões em motoneurônios superiores danificam estruturas corticais e subcorticais produzindo descontrole motor, devido a produção de paresia e paralisia. Este fenômeno ocorre porque após uma lesão no córtex cerebral o SNC perde sua capacidade de modular a freqüência dos disparos durante os movimentos voluntários mínimos, principalmente em musculatura distal havendo atrofia seletiva de fibras musculares tipo I e II (Lundy-Ekman, 2000). No balé estas fibras musculares são recrutadas, podendo prevenir os comprometimentos secundários a lesão no SNC.

Geralmente estas patologias neurológicas apresentam movimentos desiguais, porque não é capaz de associar o movimento de percurso retilíneo e suave, quando mais de uma articulação está envolvida devido a perda do acoplamento coordenado entre os músculos e articulações sinérgicas. O movimento funcional coordenado exige sistemas biomecânicos e neuromusculares como também as propriedades viscoelásticas dos músculos e tendões. Com a ruptura na ativação sequencial de regulação do tempo e na graduação da atividade muscular produzirá uma descoordenação (movimentos desajeitados, estranhos, bruscos ou imprecisos). A propriedade plástica apresentada pelo SNC permite trabalhar com movimentos isolados somando progressivamente até conseguir o sinergismo (Kandel e Schwartz, 2003; O'Sullivan e Schmitz, 2004). A tentativa de reabilitação com o balé poderá propiciar estímulos na modulação do controle motor, quando este estiver alterado.

A regulação do tempo de reação do movimento (fator neuromuscular e componente cognitivo), interrupção e finalização do movimento (pela imobilidade em controlar forças apropriadas do antagonista no final do movimento) são fatores que devido a lesão no SNC vão colaborar com a descoordenação. Os déficits sensoriais contribuem para o descontrole motor em pacientes com este tipo de lesão, pois a sensação tem funções múltiplas para o controle do movimento. A cinestesia é ausente ou diminuída em lesões no sistema lemniscal lateral (sensação) e tracto espinotalâmico (discriminação), já no córtex somatosensitivo poderá haver perda da sensação discriminativa com a propriocepção. Os problemas associados secundariamente estão relacionados as AVD"s, como os déficits visuais e alterações no sistema vestibular (Shumway-Cook, 2003).

A metodologia usada no balé clássico incluem a interação com o ambiente que auxiliará nas alterações cognitivas (capacidade de processar, selecionar, recuperar e manipular informações) e perceptivas (integração de impressões sensoriais em informações psicologicamente significativas), principalmente na imagem corporal e relação espacial. As práticas fundamentais do balé poderão atuar como coadjuvante eficiente na apraxia motora seja ela ideomotora e ou ideacional.

O elo entre o balé e a fisioterapia

O ponto fundamental nas terapias corporais para os bailarinos é o conhecimento do próprio corpo, respeitando suas individualidades e limites. As técnicas destas terapias corporais são curativas com a visão de reabilitação global, que ajudam o bailarino profissional a adquirir condições físicas adequadas ao aperfeiçoamento dos movimentos e sua correção com a consciência corporal. Entre as técnicas de terapia corporal se destacam as de Alexander (ênfase na respiração e no eixo do movimento), Feldenkrais (ênfase na sensação do movimento) e o Pilates (trabalho em cima da força controlada). Laban possui um sistema de análise do movimento que integra as terapias corporais, com a filosofia de que não se forma bailarino sem esforço, tentar encontrar uma forma simplificada para exercer profissionalmente a dança como arte cênica é tempo perdido. As técnicas inovadoras que seguem este sistema é Ideokinesis e Bartenieff Fundamentals (Caminada, 1999).

Estudos recentes vem observando que a aplicação da dança como propriedade terapêutica em pacientes com dor crônica, como na fibromialgia, vem sendo capaz de conseguir grandes benefícios a estes pacientes. Dentre os benefícios encontrados estão: a diminuição de dores, ansiedade, alívio da tensão, do estresse, melhora na disposição, aumento da auto-estima, melhora da mobilidade física. A propriedade terapêutica da dança atua globalmente no indivíduo em seus aspectos físico, emocional e cognitivo, alterando a fisiopatologia ao regular os níveis de cortisol no plasma sanguíneo (Bojner-Horwitz et al, 2003; Bojner Horwitz et al, 2006).

Segundo Bertoldi (1997) este tipo de intervenção tem mostrado resultados significativos pela prática da dança, como recurso terapêutico para o físico e psicológico devido seu ganho de força muscular, equilíbrio estático e dinâmico, flexibilidade, alterações significativas na noção de auto-imagem, imagem corporal e sexualidade. A prática da dança na reabilitação de portadores de deficiência física vai repercutir no aspecto físico, psicológico e profissional. Bertoldi completa dizendo que a arte contribui para a reabilitação destes indivíduos, pois acarreta também alguns benefícios da musicoterapia e educação física. Porém, o conjunto destas duas atividades agrega propriedades comuns ao balé, que pode desenvolver a reabilitação global melhorando suas atividades de vida diária e permitindo também a oportunidade de se tornar um profissional da dança.

A dança apresenta-se como um adequado processo de reabilitação por despertar no indivíduo o uso de suas potencialidades ao máximo, até mesmo daquelas que ainda estão inconscientes. Esta habilidade adquirida pela dança, pode promover a uma capacitação profissional caso o indivíduo desenvolva a capacidade de tal forma que ministra aulas exatamente como pessoas já habilitadas no mercado de trabalho (Bojner-Horwitz et al, 2003; Bojner Horwitz et al, 2006; Bertoldi, 1997).

A dançaterapia foi elaborada na década de 50, por uma bailarina argentina chamada Maria Fux sendo oficializada em 1996 nos EUA quando formou-se a Associação Americana de Dança Terapêutica. Por si própria a dança estimula a flexibilidade, controle motor, coordenação, ritmo e o alinhamento postural assim, proporciona momentos de auto-conhecimento e socialização. Disponível em: http://www.hiae.br; Acessado em: 11 de junho de 2007.

O Hospital Israelita Albert Eisnten tem usado como recurso terapêutico a dançaterapia que promove nos pacientes a liberação de endorfina, melhora a resposta aos estímulos, o equilíbrio, trabalha a propriocepção, postura, coordenação motora, condicionamneto e alongamento muscular. Através das danças mais ritmadas é possivel melhorar o condicionamento cardiovascular. Os objetivos de tratamento são individualizados de acordo com as necessidades e limitações de cada um. As coreografias proporcionam a noção de tempo e espaço, oferecem a oportunidade de interação e convivência com o meio social e a percepção que os movimentos não são mais os mesmos, mas ainda possuem função. Disponível em: http://www.hiae.br; Acessado em: 11 de junho de 2007.

O tratamento fisioterapêutico tem por objetivo tornar o indivíduo o mais funcional possível a fim de que seja capaz de interagir com o meio e realizar suas atividades da vida diária pessoal, trabalhando o aperfeiçoamento daquilo que ele já possui através das atividades específicas progressivas com seqüências que permitirão que o paciente adquira ou readquira habilidades relacionadas às funções necessárias para o dia-a-dia (Prentice, 2003).

A avaliação cinético-funcional é capaz de verificar o que cada indivíduo tem de fisiológico, patológico e funcional, no que auxilia na constituição de um conjunto de procedimentos que podem aprimorar o movimento e contribuir para um trabalho lúdico mantendo uma boa postura. O fisioterapeuta é capaz de reeducar ou ensinar através do movimento integral associando conhecimentos e práticas, combinando suas aplicações conforme a necessidade do indivíduo e criatividade do profissional responsável, seguindo sempre as premissas da diferenciação da musculatura dinâmica e estática e a biomecânica da coordenação motora.

Ferreira (2001) conceitua o balé como uma representação dramática em que se combinam a dança, a música e a pantomima. Também traduzida como série de exercícios corporais utilizada para o desenvolvimento físico e técnico do bailarino.

A técnica do balé clássico não substitui o tratamento tradicional, mas auxilia com suas propriedades físicas que treina a propriocepção, equilíbrio, cinestesia, força, coordenação e controle motor. Os exercícios e posturas selecionados pelo terapeuta, deverão se adaptar as capacidades dos pacientes e realizados progressivamente. Prentice (2003) diz que as propriedades físicas, citadas anteriormente, facilitam o processo inconsciente de interpretar e integrar as sensações periféricas recebidas pelo SNC assim, resulta em respostas condizentes.

O balé como recurso terapêutico poderia ser realizado em sala tradicional de balé (com espelho e barras horizontais na parede, piso de madeira revestido com linóleo), mas com o número reduzido de pessoas, de maneira que o fisioterapeuta seja capaz de dar assistência a todos. A sugestão de no máximo cinco indivíduos como é realizado no iso-streching e pilates. O vestuário para crianças pode ser o tradicional do balé e para os adultos roupas de ginástica (Souchard, 1996; Herdman e Selby, 2000).

A sugestão da população a se beneficiar deste recurso envolvem pacientes que necessitarão de cinesioterapia sendo capazes de realizá-la de forma ativa. Incluem pacientes do sexo masculino ou feminino, crianças e adultos que apresentem seqüenciamento anormal da atividade muscular, paresia e espasticidade, com déficits que interfiram na execução da biomecânica correta dos movimentos.

O elo entre o balé e a fisioterapia é o condicionamento do movimento, no qual as concepções do balé se apresentam como um possível recurso terapêutico. Através da técnica, biomecânica, concepções e movimentos do balé (série de exercícios corporais) que podem exercer o papel da cinesioterapia ativa, está dividida de maneira didática para melhor compreensão.

7.1 A TÉCNICA DO BALÉ

O centro de onde todo movimento se origina e por onde deverá fluir no balé está no eixo do prumo (postura). O bailarino durante toda sua movimentação retorna a sua posição de alinhamento e gradualmente vai educando os reflexos estabelecendo o mais eficiente estruturamento esquelético de como funcionar no ato da dança. A resultante da distribuição do centro de gravidade em repouso ou no movimento é relacionar cada parte do corpo com o posicionamento. Todos os movimentos devem passar pelas posições básicas na técnica da dança clássica necessitando um bom ajuste e execução para ter controle e eficiência na evolução dos movimentos em uma coreografia ou exercício (Sampaio, 1999).

A coluna é o eixo do prumo que permite o bailarino ter estabilidade, no quadril a raiz desta estabilização é auxiliada pelo tornozelo e pé ganhando mobilidade através do joelho, como também os ombros e musculatura que atua na estabilização central do tronco, que são fundamentais para menor gasto energético e melhor desempenho. O posicionamento correto para uma eficiente descarga de peso através do tornozelo e do pé torna-se essencial por serem fonte de força suporte e percepção durante a dança, as sensações percebidas pelos pés são informadas ao resto do corpo e refletidas imediatamente em cada movimento (Achcar, 1998).

O bailarino clássico é um artista que em média dedica de seis a sete dias por semana a uma intensa atividade física, a qual pode iniciar-se entre quatro e seis anos de idade. No balé o movimento não se restringe a um resultado físico, um deslocamento de matéria e a força que o determina, havendo sempre uma força intrínseca resultante de uma reação psíquica e emocional que atua sobre a regulação das variações de tensões musculares. Podem ou não resultar no deslocamento de um ou mais segmentos do corpo que é determinado pelo desprendimento de energia. Uma boa execução da técnica permite uma mudança rápida em todas as direções e ao mesmo tempo dirigir a silhueta do corpo para o público, todos os passos e movimentos são cuidadosamente apresentados, seguindo a técnica o bailarino pode controlar seu sistema músculo-esquelético permitindo manter o equilíbrio em todas as situações (Miller et al, 1975; Lima, 1995 e Goertzen et al, 1989).

As técnicas do balé são baseadas nos princípios da boa postura e colocação do corpo, mantendo-se em todos os movimentos. Os posicionamentos e os movimentos realizados no balé clássico exigem um preparo físico adequado, bom condicionamento cardíaco e respiratório, já que o bailarino pode permanecer em cena por até uma hora e meia, dependendo da coreografia apresentada (Margherita, 1994).

As cinco posições básicas dos pés no Balé exigem uma máxima rotação externa do quadril, sendo que este fato auxilia na execução de movimentos graciosos e estéticos dos bailarinos. Estas posições são consideradas básicas e se dividem de primeira à quinta posição, nesta seqüência sendo que todas as posições deverão promover uma rotação onde os pés se posicionarão a 180º. Deste modo, também há vinte e seis posições de MMII, sete de tronco e sete de braços que são executadas com os pés totalmente apoiados no chão, em meia ponta realizando flexão plantar, com os joelhos estendidos ou nas pontas. Portanto, há uma enorme possibilidade de variações que podem ser executadas em CCF e CCA (Bertoni, 1992; Margherita, 1994; Khan et al, 1995).

A técnica do balé poderá ser mais uma ferramenta para o fisioterapeuta, quando seus objetivos de seu tratamento forem semelhantes às séries de exercícios corporais propostos no balé.

7.2 BIOMECÃNICA E CINESIOLOGIA DO BALÉ

Sampaio (1999) acredita que os resultados da dança só são possíveis se levarmos em conta dois conceitos: a postura em que o bailarino está trabalhando com os seus músculos e a "energia" que deve estar vibrando dentro dele. Cada parte do corpo do bailarino tem que estar bem postulada. Esta postura envolve os pés, joelhos, quadris, abdômen, costas, braços e o eixo (coluna, esqueleto axial).

Os pés devem suportar bem o peso do corpo, em forma de um triângulo: um ponto no hálux, um ponto no quinto dedo e um ponto no calcanhar. Os dedos devem estar alongados e pressionando o chão. O arco do pé deve ser estimulado para cima evitando uma sobrecarga no hálux. Os impulsos são finalizados nos pés e as aterrissagens são iniciadas neles, sendo os pés o maior ponto de contato com o solo (Achcar, 1998).

Os joelhos só flexionam em uma única direção, que seria em relação ao segundo artelho do pé. Se o bailarino trabalha com a rotação externa de quadril, o joelho precisa permanecer fiel a esta posição, flexionando-se na direção do pé (movimento en dehors). Para isto o quadril e o pé devem permanecer alinhados (o ângulo de abertura do pé tem que corresponder ao ângulo de abertura do quadril) para preservar então a articulação do joelho, porque caso contrário haverá rotação inversa da tíbia com relação ao fêmur, excedendo a tensão nos ligamentos e pressão sobre os meniscos. Alongar a musculatura que envolve a articulação do joelho é extremamente importante para a preparação muscular de um bailarino, pois os exercícios de flexão e extensão modulam o tônus muscular (Sampaio, 1999).

O quadril e as cristas ilíacas devem fazer uma linha reta à frente dos dedos dos pés, nunca uma linha recua para o calcanhar. A pelve deverá estar retrovertida mantendo a contração do assoalho pélvico e rotadores externos do quadril, o abdômen deverá estar contraído para estabilização do tronco (deixando o esqueleto apendicular livre para o movimento controlado). O quadril é o ponto fixo do corpo na execução dos exercícios ou passo de balé. A falta do controle motor fará surgir compensações nos joelhos (apertar um contra o outro), má contração abdominal (retificação ou aumento das curvaturas da coluna) gerando uma impossibilidade de encaixar o quadril através da estabilização central. Para que o quadril esteja bem encaixado o bailarino deve ter consciência que precisa fortalecer os músculos responsáveis pela estabilização central e alongar o quadríceps, iliopsoas, trato iliotibial e músculos posteriores de MMII (Sampaio, 1999).

O abdômen no balé é fundamental, assim como no pilates é o centro da força para estabilização central. Assim, o bailarino precisa sempre ter uma boa força e controle dos músculos abdominais, como também dos músculos estabilizadores de ombro. A partir daí, há uma liberação do músculo reto abdominal (alongado) e contração dos músculos oblíquos, como se quisesse trazer as costelas em direção ao umbigo. O bailarino precisa do centro de força (princípio do pilates) se fechando na cintura, produzida pelo músculo transverso do abdômen (Herdman e Selby, 2000).

Nas costas há um conjunto de músculos trabalhando, enquanto o glúteo ajuda a encaixar o quadril, os músculos abdominais ajudam a estabilizar a coluna lombar, e a estabilização da cintura escapular libera os movimentos dos MMSS e da cabeça mantendo a linha do eixo. As escápulas devem estar deprimidas (ação do músculo trapézio inferior) obedecendo a distância entre os ombros, que devem estar em leve rotação externa, com as axilas expostas. A cabeça deve estar com seu peso bem distribuído sobre o corpo, não pender para frente ou para trás (ação dos músculos posteriores do pescoço), deixando o pescoço livre para o movimento próprio da cabeça, durante os movimentos e posturas do balé. Assim, as costas também têm um papel fundamental para manter as curvaturas da coluna e recrutar contração muscular sem compensações, no entanto o pescoço tenso e hipertrofiado é sinal de má postura (Achcar, 1998).

Os MMSS devem se apresentar de forma arredondada: ombros levemente abduzidos e rodados internamente, cotovelos levemente flexionados e supinados, com a palma da mão acompanhando a supinação. A linha do eixo do braço deve estar na direção do terceiro dedo da mão com o dedo anular virado para dentro e o dedo indicador levemente separado do terceiro dedo como veremos mais adiante quando forem citadas as posições dos braços, visualizadas nas figuras 31, 32 e 33 (Achcar, 1998).

A colocação geral da boa postura consiste em manter os pés totalmente colocados com todas as partes no chão mantendo o arco fisiológico do pé, escápulas em depressão estabilizando os ombros e relaxando músculos peitorais, contração dos músculos abdominais sem relaxar as escápulas, mantendo as curvaturas fisiológicas da coluna, contração da musculatura profunda da coluna aumentando os espaços intervertebrais, pelve retrovertida com joelhos estendidos, rotação externa do quadril com joelhos e tornozelo acompanhando o movimento, sentir forças opostas e que se complementam no tronco e membros (Sampaio, 1999).

O eixo é a linha de equilíbrio do corpo sobre os pés, para uma boa distribuição do peso corporal, como se fosse o fio de prumo. Dentro da postura correta se olhar em perfil, esta linha deve passar pelo lóbulo da orelha, acrômio, trocânter maior do fêmur, cabeça da fíbula, maléolo lateral e cabeça do quinto metatarso. Já na vista anterior deve-se ter um bom alinhamento horizontal dos ombros, mamilos, cristas ilíacas, patelas e comprimento dos braços. Nesta mesma visão só que posteriormente devem estar alinhados as escápulas e as pregas glúteas. Se a postura estabelecida nestes parâmetros citados deverá fazer com que o corpo forme um ângulo reto com o solo, então teremos uma postura ideal, gerando menor gasto energético, melhor controle motor e flexibilidade ao bailarino para manter a estabilização do corpo em pé e durante os movimentos.

A biomecânica e cinesiologia do balé retomam conceitos do alinhamento biomecânico fisiológico. No ponto de vista terapêutico o balé se apresenta como um possível recurso de tratamento na fisioterapia.

7.3 CONCEPÇÕES BÁSICAS DO BALÉ (SÉRIE DE EXERCÍCIOS CORPORAIS)

Por convenção internacional os termos referentes ao balé são sempre escritos em francês. As concepções do balé ou sua cinesiologia está dividida em postura, posições e movimentos que a partir destes são feitas combinações entre eles aumentando o grau de complexidade de acordo com o nível do bailarino. Aqui serão descritos a série de exercícios corporais básicos sem combinações, para entender um pouco será apresentado como funciona uma aula de balé clássico. Esta aula se divide em duas etapas: na barra e no centro, todas com objetivo fundamental aprender ou reeducar a postura correta do corpo como também cuidados profiláticos a lesões como o aquecimento e alongamento (Achcar, 1998).

Os passos de balé são aprendidos de forma progressiva com a realização freqüente. Na barra com apoio de um ou os dois MMSS, vão condicionar o corpo porque os exercícios de barra seguem um ritmo certo, primeiro são feitos os movimentos mais lentos depois os mais rápidos gerando força e agilidade ao corpo. No centro da sala que o bailarino dança livremente exigindo postura, coordenação, força e agilidade, no entanto são desenvolvidas tanto na barra como no centro exercícios lentos e rápidos primeiro com os pés no chão até chegar aos saltos (Bertoni, 1992).

Os exercícios corporais no balé são divididos de forma didática de acordo com sua realização: a) posições do corpo; b) posições na barra e no centro da sala.

A. POSIÇÕES DO CORPO

As posições do corpo no balé utilizam a musculatura da estática com contração isométrica principalmente em tronco, quadril e MMII.

Durante todos os movimentos e posturas no balé deve-se manter o quadril na posição en dehors, termo francês que significa para fora, baseando-se na concepção de virar os pés e as pernas para os lados externos do corpo, sendo seu princípio básico. É um movimento anti-fisiológico chamado de segunda natureza. Utilizado como direção de movimento horário das pernas e corpo. Sua cinesiologia se apresenta pela colocação dos MMII em rotação externa iniciado na articulação do quadril, contraindo os músculos rotadores externos. O joelho, tornozelo e pé devem acompanhar o movimento de rotação externa de quadril e não realizá-lo. A rotação externa de quadril é combinada com retroversão femoral e alongamento anterior da cápsula, sendo que principalmente na 1° posição que o pé e o tornozelo de uma das pernas se posicionam exatamente na direção oposta à outra perna e forma um ângulo de 180° entre os pés e os joelhos de ambos os MMII, para iniciantes é de 100° com intuito de evitar compensações, sendo bem visualizada na figura 28. A função do en dehors é possibilitar uma maior estabilidade, facilidade na movimentação como na beleza das linhas (Khan et al, 1995; Toledo et al, 2004).

Figura 28 - A figura mostra o en dehors, sendo menor angulação usada para iniciantes

(Achcar, 1998).

Segundo a codificação e elaboração da técnica clássica acadêmica do mestre Beauchamps em 1650 as classificou seqüencialmente de acordo com a dificuldade exigida as posições do balé. A técnica do balé exige alguns cuidados para evitar compensações e lesões futuras, entre eles estão a distribuição homogênea da descarga de peso em MMII a contração isométrica de quadríceps e rotadores externos dos quadris, abdominais, a manutenção dos ombros baixos contraindo musculatura que faz adução e retração da escápula e do pescoço livre e relaxado. O posicionamento dos pés, mãos, braços e cabeça são fundamentais para uma execução sem desequilíbrios biomecânicos, a seguir serão descritos todos eles (Bertoni, 1992).

As posições dos pés possuem variações (figura 29). Pé no chão = Pied a terre, ponto de apoio no arco plantar mantendo-o, não deixando desabar com en dehors (acompanhando a rotação externa do quadril) exceto na sexta posição (figura 29a). Pé na meia ponta baixa = Pied à quart (pé a ¼), tem função de aumentar o en dehors, seu ponto de apoio é no ante-pé com leve flexão plantar com en dehors (figura 29b). Pé na meia ponta = Pied sur la demi pointe. Apoio no ante-pé mantendo flexão plantar submáxima com en dehors (figura 29c). Pé na meia ponta alta = Pied a trois quarts (pé a ¾), com a função de aumentar a ADM das articulações dos ossos do tarso e tem o ponto de apoio sobre a articulação metatarsofalangeana, mantendo flexão plantar máxima com en dehors (figura 29d). Pé na ponta = Pied sur la pointe, realizada com auxílio de sapatilha específica, o ponto de apoio está sobre as extremidades distais das falanges principalmente do hálux, mantendo uma flexão plantar máxima associada à eversão do tornozelo com en dehors (figura 29e). O pé fora do chão (no ar) deverá sempre manter uma flexão plantar máxima associada à eversão do tornozelo com en dehors (figura 29f).

Figura 29 - As diferentes posições dos pés usadas no balé:

a(Pé no chão = Pied a terre); b(Pé na meia ponta baixa = Pied à quart); c(Pé na meia ponta = Pied sur la demi pointe); d(Pé na meia ponta alta = Pied a trois quarts); e(Pé na ponta = Pied sur la pointe); f(pé no fora do chão - no ar) (Achcar, 1998).

Segundo Achcar (1998) os MMII serão posicionados em en dehors exceto a 6° posição e são divididas em 1º, 2º, 3º, 4º, 5º e 6º posição (figura 30).

A 1° posição, os calcanhares estarão encostados um no outro formando na face medial uma linha reta de 180°, exceto para iniciantes que é de 100°, ou seja, adução com rotação externa de quadril e extensão dos joelhos (figura 28 e 30a).

A 2° posição, é mantida a 1° posição, mas agora com abdução de quadril, distante aproximadamente o tamanho de um pé e meio (figura 30b).

A 3º posição mantém a 1° posição agora com adução negativa de quadril, onde um calcanhar vai ficar encostado à frente do arco longitudinal medial do pé contralateral (figura 30c).

A 4° posição, a 1° posição com hiper-adução flexão e extensão unilateral de quadril com descarga de peso nas duas pernas. Croisé (cruzado) pés paralelamente separados com uma distância de um pé e meio entre os dois, um calcanhar vai ficar frente à ponta do outro pé na altura do hálux (figura 30d1). Ouvert (aberto) ou effacée (apagado) pés paralelamente separados com uma distância de um pé e meio entre os dois com um calcanhar frente ao outro calcanhar (figura 30d2). A 5° posição, irá manter a 1° posição agora com hiper-adução de quadril e pés paralelos onde o calcanhar de um pé se encontra atrás encostado no quinto metatarso e falange do pé contralateral, o que está à frente do outro pé ficará encostado no hálux (figura 30e). A 6° posição é a posição anatômica, adução de quadril sem rotações com pés paralelos.

Figura 30 - As diferentes posições dos MMII usadas no balé:

a(1º posição); b(2º posição); c(3º posição); d1(4º posição croisé); d2(4º posição ouvert); e(5º posição)

(Achcar, 1998).

As mãos devem permanecer relaxadas, com oposição do polegar e leve flexão do terceiro e quarto dedo, a palma da mão sempre virada para dentro/anterior (antebraço supinado) ou para baixo (antebraço pronado) conforme a figura 31.

Figura 31 - O posicionamento das mãos no balé, a (para dentro ou anterior, antebraço supinado); b (para baixo, antebraço pronado) (Achcar, 1998).

A posição dos braços têm suas variações de acordo com cada escola e há divergências quanto à denominação de algumas posições, variando apenas a concepção de estilo e denominação. Todas seguem o princípio de ombros baixos, braços redondos e palmas para dentro. A 2° posição é única em todos os sistemas. O movimento dos braços que alterna as posições chama-se port de bras. A escola inglesa usa o Sistema Royal Academy of Dancing, é um método mais complexo onde há seis posições sendo adotado na maioria das escolas de balé, possui as seguintes posições: bras bas, 1°, 2°, 3°, 4° e 5° posição (figura 32). A escola russa usa o Sistema Vaganova, um método simplificado, onde há somente três posições: bras bas, 1°, 2° e 3º posição (figura 33), podendo ser feita combinações entre elas.

Figura 32 - O posicionamento dos braços no Sistema Royal Academy of Dancing:

a(bras bas); b(1° posição); c(2° posição); d(3° posição); e(4° posição); f(5° posição)

(Achcar, 1998 e Fontes, 1998).

Figura 33 - O posicionamento dos braços no Sistema Vaganova são:

a (bras bas); b (1° posição); c (2° posição); d (3° posição) (Achcar, 1998).

As escolas francesa e italiana usam o mesmo sistema o Cecchetti que foi o primeiro sistema de notação do balé no séc. XVII. Segue os mesmos princípios, mas quanto às posições adota a idéia antiga de Jean Georges Noverre que deu continuidade ao primeiro sistema de dança, determinando que todas as vezes que o braço está redondo ele é denominado 5° posição.

As posições da cabeça podem ter cinco variações conforme a figura 34: reta (olhar para horizonte, posição anatômica), para trás (olhar para cima fazendo extensão da coluna cervical, aproximando occipital da vértebra C7), para baixo (olhar para baixo fazendo flexão da coluna cervical, aproximando a região do mento ao manúbrio do esterno), inclinada (olhar para frente, inclinação lateral da cabeça como se as orelhas repousassem quase sobre o ombro, aproximando a região temporal ao acrômio), virada (com o corpo reto olhar para a direita ou esquerda, fazendo rotação da coluna cervical aproximando a região do mento ao acrômio).

Figura 34 - O posicionamento da cabeça no balé:

a(para frente); b(inclinada); c(para cima); d(para baixo); e(para o lado)

(Achcar, 1998).

As posições do corpo e pernas nos movimentos do balé também são sistematizadas. Um bailarino deve se considerar sempre o centro de um quadrado imaginário onde se irradiam oito linhas que indicam sua posição no palco, estas linhas também servem para direcionar o corpo e saber por onde o movimento se inicia, por onde deve passar e terminar. O ponto um é a frente, o cinco é o fundo e os números pares são as diagonais do palco (figura 35).

Figura 35 - As posições do corpo e pernas nos movimentos do balé (Achcar, 1998).

O aprendizado das posições do corpo e sua manutenção no balé permitem ao indivíduo desenvolver a noção espacial e sua interação com o meio trabalhando em conjunto com as propriedades físicas da dança, o raciocínio e a memória, proporcionando ao indivíduo vencer suas limitações. A mobilidade articular é trabalhada a todo momento, principalmente nas articulações do quadril e tornozelo (flexão plantar e dorsiflexão), na maioria dos exercícios e posturas. O posicionamento do quadril no en dehors poderá ser substituído pela posição neutra do quadril a fim de evitar compensações nos joelhos ou quando o fisioterapeuta achar necessário.

B. POSTURAS NA BARRA E NO CENTRO

Quanto às direções do corpo, o aprendizado da boa estabilidade se inicia na barra com a postura do corpo reto e natural com peso distribuído entre as pernas e os pés com arco longitudinal fisiológico. Se não conseguir manter este arco longitudinal fisiológico, deverá diminuir o ângulo do en dehors. A coluna deverá ser a base do equilíbrio mantendo contração da musculatura responsável em aumentar os espaços intervertebrais. O posicionamento com o ombro do lado da perna que está em frente ligeiramente avançado obrigando o corpo a girar em direção da perna de trás e a cabeça também para o lado da perna que está na frente é chamado de épaulement (épaule = ombro). Existem três direções do corpo para o público: croisé (cruzado), en face (de frente) e effacé (apagado)/écarté (separado). A terminologia utilizada para as direções da perna são: devant (frente), de cote (lado)/á la seconde (na 2º posição) e derrière (atrás). Assim são as posições do corpo na sala e no palco visualizado na figura 36: epaulement croisé, epaulement croisé en face, epaulement efface/écarté.

Figura 36 - As posições do corpo e pernas na sala de aula e no palco:

a(epaulement croisé); b(epaulement croisé en face); c(epaulement efface / écarté) (Achcar, 1998).

As direções e posicionamentos dos MMII são usados como as direções do corpo já citadas podendo ser feita combinações. As posições dos MMII (figura 37): par terre (no chão), en L"air (no ar). Quanto às posições e direções do corpo e pernas temos os: arabesques, attitudes (figura 38).

Figura 37 - As direções e posicionamentos dos MMII no balé:

a(par terre a frente); b(par terre ao lado); c(en L"air na anterior 90°); d(en L"air na posterior 45°)

(Achcar, 1998).

O arabesque, nome de origem árabe que significa ornamento, representa a posição em que o tronco é direcionado para frente deve estar totalmente alongado, o quadril em simetria com os ombros e os braços estendidos na posição determinada, estabelecendo a continuidade harmônica da linha desenvolvida desde a ponta do pé (da perna em arabesque), até os dedos das mãos fluindo sem tensão (figuras 38a e 38b). Assim, considerado como um movimento que compõe os passos mais característicos da técnica (Achcar, 1998; Khan e et al, 1995; Hall, 2005; Bertoni, 1992).

No balé o arabesque é a posição com apoio unipodal com variações do pé que poderá estar no chão ou meia ponta ou na ponta com ou sem flexão de joelho, o membro inferior – MI – que está sem descarga de peso deverá manter-se com extensão e rotação externa de quadril joelho estendido e tornozelo em flexão plantar máxima com flexão dos dedos, pode estar no chão (par terre) ou no ar (en l"air) que é o mais utilizado (figura 37). O corpo posiciona-se em allongé (alongado ao máximo) ou penché (pendente ou inclinado). A classificação é determinada pelas diferentes posições dos braços em ambos os sistemas: Royal possui três tipos e Vaganova quatro tipos que vão ser determinados também pela posição do corpo em relação ao palco, os dois sistemas tem a 1º e 2º posição do arabesques iguais (Achcar, 1998; Khan e et al, 1995; Hall, 2005; Bertoni, 1992).

O attitudes, palavra derivada do italiano attitudine, representa uma posição inventada por Carlos Basis lembrando a estátua de mercúrio de Gian de Bologna no séc. XVI foi desenvolvida inicialmente para terminação de giros. Os exemplos dos tipos de attitudes são: effacée, croisée derrière (figuras 38c e 38d). Caracteriza formas da posição no balé onde o corpo permanece em apoio unipodal como no arabesque enquanto a outra é levantada atrás ou na frente a 90°, mas o MI que está sem descarga de peso estará com o joelho semiflexionado posicionado na posterior (par terre nas poses de eupalement ou en l"air) ou anterior uma postura que proporciona desenvoltura e elegância aos giros. Esta situação proporciona ao tronco maior flexibilidade quando comparado ao arabesque (Bertoni, 1992 e Achcar, 1998).

Figura 38 - Posições e direções do corpo e pernas:

a (arabesque); b (arabesque en penché); c (attitude effacée); d (attitude croisée derrière)

(Achcar, 1998).

As posturas na barra e no centro necessitam principalmente do controle motor e equilíbrio. A tentativa de um paciente executar tais posturas poderá ser um potencializador das habilidades preservadas, como também das que foram perdidas, podendo ser um desafio a cada aula.

7.4 MOVIMENTOS DO BALÉ

Os movimentos básicos do balé são: plié e en croix. Todos são executados mantendo a posição de MMII em en dehors, já descrito anteriormente, usando musculatura dinâmica fazendo contração muscular concêntrica e excêntrica (Bertoni, 1992 e Achcar, 1998).

O plié quer dizer dobrado/flexionado, é o primeiro exercício na barra sendo o princípio básico da técnica da dança e o segredo dos grandes bailarinos. Tem a função de alongar e relaxar os músculos dos MMII tornando-os flexível, preparando para os exercícios, como também realizado para ligação dos movimentos do balé. Pode ser classificado: como postura/posição e movimento na execução de exercício de base. O bailarino realiza este movimento vagarosamente ao flexionar seus joelhos na mesma linha dos pés, que estarão em total rotação externa juntamente com o quadril. Também solicitado quando é executado qualquer tipo de combinações de pequenos ou grandes saltos conforme Khan et al (1995) e Achcar (1998).

O plié possui alguns objetivos, entre eles está o alongamento do tendão do músculo tríceps sural, aumento da ADM na dorsiflexão que poderá melhorar o controle motor durante a marcha.

O demi plié, meia ou pequena flexão em CCF fazendo flexão/abdução/rotação externa de quadril, flexão de joelho, dorsiflexão de tornozelo máxima sem tirar os calcanhares do chão veja a figura 39a. Caso este ocorra em CCA com apoio unipodal é chamado de fondu (fundido/desmanchado) com o membro de sustentação que está sem descarga de peso (CCF+CCA) executando os mesmo mecanismos do plié (figura 39b). O fondu treina o apoio unipodal com alinhamento biomecânico, semelhante ao movimento na fase de balanço da marcha. O demi plié é utilizado na execução de combinações de passos de allegro (pequeno ou grande) e na ligação desses passos. Podem ser executados em todas as posições exceto iniciantes que são realizam nas 1°, 2° e 3°posições.

O Grand plié refere-se grande flexão em CCF fazendo retroversão pélvica, flexão/abdução/rotação externa de quadril, flexão de joelho, dorsiflexão de tornozelo máxima até iniciar o tirar dos calcanhares do chão fazendo meia ponta baixa de acordo com a figura 39c. Deve se iniciar passando pelo demi plié realizando movimento contínuo e lento. Tem a função de aumentar força de MMII e tronco, propriocepção da descarga de peso homogênea. Pode ser realizado com apoio parcial, na barra (figura 39d) ou sem apoio, no centro (figura 39c).

Figura 39 - Variações do movimento plié:

a(demi-plié); b(fondu); c(grand-plié sem apoio); d(grand-plié com apoio) (Achcar, 1998).

O significado de en croix é em cruz, ou seja, é o movimento que segue o sinal em cruz, qualquer exercício executado nos planos, sagital e frontal com um dos MMII seguindo a seqüência do movimento para frente, lado, atrás e ao lado novamente (figura 40). O movimento en croix trabalha os movimentos nos planos funcionais dos MMII. Quando o movimento é iniciado pela frente denomina-se movimento em en dehors ou se iniciar atrás em en dedans. O movimento en dehors segue a seqüência das posições devant, a la second, arriere, ou seja, no sentido horário (frente-lado-trás) para MMII ou de abertura para MMSS (figura 41a). Movimento en dedans realiza a seqüência das posições arriere, a la second, devant, ou seja no sentido anti-horário (trás-lado-frente) para MMII ou de fechamento para MMSS (figura 41b). Todos os movimentos do balé seguem esta seqüência básica em seus exercícios, podendo ser feita algumas combinações a fim de aumentar o grau de complexidade.

Figura 40 - O movimento en croix:

a (visão do plano transverso seguindo a seqüência numérica inicia e termina na preparação);

b (visão lateral do movimento) (Achcar, 1998).

Figura 41 - Visão do plano transverso do movimento en croix en dehors (a) e en dedans (b), seguindo a seqüência numérica, inicia e termina na preparação (Achcar, 1998).

Com olhar terapêutico para os movimentos do balé, pode-se fazer um trabalho em CCA+CCF juntamente com a musculatura da estática e dinâmica recrutando fibras musculares de contração concêntrica e excêntrica. Os movimentos nos exercícios do balé podem ser divididos em: a) movimentos de exercícios básicos; b) movimentos auxiliares no balé.

A. MOVIMENTOS DE EXERCÍCIOS BÁSICOS

Os movimentos de exercícios básicos vão compor os passos e demais seqüências do balé entre eles estão: battement, pás, relever e sauter.

O battement significa batida, é o movimento executado em forma de batida ou compasso com extensão total de joelho com movimento de quadril no plano sagital e frontal (flexão, extensão, abdução e adução) com tornozelo em flexão plantar enquanto estiver fora do chão e posição neutra quando no chão. O termo petit quer dizer pequeno. O battement possui uma variedade de exercícios que proporcionam força flexibilidade para os MMII preparando para saltos e ligação dos movimentos, por exemplo, o battement tendu, battement jété veja na figura 42b e fondu. Estes são executados com ADM menor que 90 graus. Já o termo grand possui as mesmas propriedades do petit com a diferença que é executada em ADM maior que 90 graus, por exemplo, temos o grand battement (Bertoni, 1992 e Achcar, 1998).

O battement (batidas) tendu (esticado) é executado en croix par terre com contração isométrica máxima mantendo MMII esticados. Devant (a frente) há flexão de quadril extensão de joelho, derrière (atrás) há extensão de quadril e joelho, à la seconde (na segunda posição, ao lado) abdução de quadril sendo que nos três anteriores o tornozelo estará em flexão plantar máxima. O tronco permanece em contração isométrica dos estabilizadores centrais conforme a figura 42. Os braços vão variar as posições de acordo com o objetivo do exercício (Bertoni, 1992 e Achcar, 1998). Os battements recrutam com mais intensidade os músculos do tronco e MMII que proporcionam ao quadril uma maior mobilidade. A adaptação deste exercício poderá ser feita com o indivíduo no solo em decúbito (dorsal/ventral/lateral) ou numa piscina, que dependerá do objetivo a ser alcançado com o paciente.

Figura 42 - Battements: a(tendu en croix); b(jété a la second) (Achcar, 1998).

O pás (passo) é um único movimento de MI, quando no ato de andar ou dançar, utilizado como prefixo dos passos do balé, ex: pás de chat (passo de gato). O elever (subido) é o movimento de subir na ponta ou meia ponta sem fazer uso do plié ou fondu, executado sem flexão de joelho, com ou sem apoio unipodal. O relever (elevado) é o movimento de subir na ponta ou meia ponta fazendo uso do plié ou fondu, executado com flexão de joelho, com ou sem apoio unipodal, como mostra a figura 43. O elever enfatiza o equilíbrio e fortalecimento dos músculos gastrocnêmios, já o relever adiciona o trabalho dos músculos adutores e quadríceps. O sauter (saltado, pulado) pode ser realizado na 1º ou 2º posição dos pés como também em passos que são feitos pulados que partem e retornam do plié ou fondu. O sauter envolve as propriedades físicas da dança, a descarga de peso e a junção da contração concêntrica seguida da excêntrica, bem semelhante aos exercícios pliométricos (figura 44).

Figura 43 - Relever (elevado) movimento inicia no plié e termina com extensão dos joelhos com os MMII na 5º posição (Achcar, 1998).

Figura 44 - Sauter em primeira posição de MMII e MMSS na posição de bras bas (Achcar, 1998).

B. MOVIMENTOS AUXILIARES NO BALÉ

Conforme Achcar (1998) os movimentos auxiliares mais comuns no balé são: flic-flac, retiré, temps lié e ronds de jambe. O movimento flic-flac (figura 45) é feito com o pé que está fora do chão mantendo a flexão plantar, onde um passo em que o MI abduz em 2º posição e aduz num movimento brusco e firme passando a meia ponta no chão primeiro na anterior e repete o movimento anterior mas trazendo o pé agora na posterior (flic-flac en dedans) e o contrário fechando primeiro na posterior (flic-flac en dehors). O flic-flac enfatiza a flexão e extensão de joelho e a flexão plantar e dorsiflexão do tornozelo, movimentando sem mover o tronco (estabilização central).

Figura 45 - Sequência do movimento flic-flac (Achcar, 1998).

Retiré (retirado) movimento unilateral de MI progressivo de abdução do quadril flexão de joelho e flexão plantar de tornozelo com flexão dos dedos enquanto outro membro serve de base mantendo-se en dehors de acordo com a figura 46. Passé (passado), termo utilizado em certos passos quando estes realizam passagem do MI para frente ou para traz. O retiré fortalece os músculos do quadril, como também melhora sua mobilidade. Fouetté (chicote) todos os movimentos realizados bruscamente com o MI geralmente associado a giros/piruetas.

Figura 46 - Movimento retiré dos MMII e MMSS com a variação iniciando na posição de bras bas e terminando na 5º(Sistema Royal) ou 3°(Sistema Vaganova)posição (Achcar, 1998).

De acordo com Fontes (1998) o temps lié, significa tempo ligado, é um movimento lento mantendo a extensão do joelho, pode ser associado ao demi plié para executar o battement tendu com transferência de peso (figura 47). Sua execução é feita pela transferência de peso de uma perna para outra, faz-se o battement tendu e transfere o peso da perna de base para a que está executando o exercício e faz o movimento inverso e pode ser executado nas posições en croix (figura 40). O temps lié poderá ser um exercício ideal para ganhar habilidade na transferência de peso em MMII, que se faz necessária durante a deambulação.

Figura 47 - Movimento temps lié de MMII: a. sem o plié; b. com o plié (Fontes, 1998).

O ronds de jambe é classificado em Petit e Grand, podem ser realizados seguindo a seqüência en croix en dehors e en dedans, o básico é sua execução par terre e en l"air. São movimentos realizados pelos MMII que trabalham sem movimentar o corpo para trabalhar movimentos independentes do tronco, porque este deve manter-se em contração isométrica dos músculos estabilizadores centrais. Segue o mesmo movimento do battement associando adução e abdução horizontal do MI em um movimento contínuo igualmente como no movimento en croix (figura 48) conforme Achcar (1998). O rond de jambes movimento de MMII fazendo uma circundução no quadril sem movimentar o tronco, contraindo musculatura profunda da coluna.

Figura 48 - Movimento rond de jambs dos MMII seguindo a seqüência numérica, MMSS com a variação da 2º posição com apoio de uma das mãos na barra (Achcar, 1998).

Os movimentos no balé são mais intensos para os MMII e tronco, no sentido de recrutar força, equilíbrio, coordenação, propriocepção, cinestesia e controle motor. A aula de balé exige concentração, raciocínio, memorização e expressão corporal. Para pacientes com déficit de força muscular em tronco e MMII, o uso dos movimentos do balé poderão proporcionar a aquisição de um condicionamento físico-funcional.

Os exercícios/posturas realizadas no balé permitem ser combinados de várias maneiras entre si, poderão ser utilizadas como forma de cinesioterapia ativa, que dependerá da criatividade do terapeuta. A técnica, biomecânica, cinesiologia, concepções básicas e movimentos do balé foram apresentados na tentativa de abrir novos horizontes quanto às cinesioterapias ativa já existentes. Entretanto, este tipo de cinesioterapia apresentada poderá aumentar a liberdade de escolha do fisioterapeuta quanto a terapia, diante das diversas alterações no movimento funcional existente em diferentes pacientes.

Considerações finais

O trabalho em comum do balé e a fisioterapia é aperfeiçoar o movimento corporal. Existem também objetivos em comum: no balé é a perfeição do movimento e na fisioterapia o extremo do movimento funcional. O balé como recurso terapêutico para fisioterapia está fundamentado nas propriedades físicas da dança, controle motor e as concepções do balé. Portanto, com este conhecimento é possível sugerir uma terapêutica com movimento do corpo.

Assim, as concepções do balé como possível recurso terapêutico na fisioterapia vai atuar no condicionamento do controle motor com as posturas e exercícios do balé, sendo mais uma ferramenta de reabilitação em patologias em que a finalidade do tratamento seja a reabilitação do controle motor, coordenação motora, equilíbrio, propriocepção, cinestesia e força muscular.

Os componentes anatômico, fisiológico e técnico que envolvem o balé foram descritos para ressaltar o que existe em comum com a fisioterapia. A proposta do uso do balé, como possível recurso terapêutico na fisioterapia, correlacionou as séries de exercícios com a cinesioterapia ativa. A atuação do fisioterapeuta usando o balé, em locais que permitam o tratamento em grupos, poderá abrir possíveis campos de trabalho.

De uma forma geral este estudo aperfeiçoou e ampliou o conhecimento científico na fisioterapia. Portanto, este trabalho de revisão bibliográfica sugere a inserção do balé como conduta de reabilitação motora, com uma visão de reintegração do ser nos aspectos físico, emocional e sua inserção na sociedade. Uma terapêutica alternativa que poderá ser sugerida às escolas que incluem deficientes físicos como também em centros de reabilitação.

Para a realização deste trabalho, que apresentou o balé como atividade física terapêutica, muitas bibliografias e artigos foram pesquisados mas não foram obtidas a quantidade desejada, nem tão pouco encontramos os temas específicos sobre a relação do balé com a fisioterapia. Novas pesquisas poderão ser realizadas, a fim de comprovar a eficiência do balé como possível recurso terapêutico na reabilitação motora do indivíduo. Como também as mesmas abordagens do tema deste trabalho para outras áreas específicas da fisioterapia.

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Dedico este trabalho a Deus pela oportunidade da vida em pró da ciência e a minha família por ter acreditado comigo neste sonho.

AGRADECIMENTOS

A Deus que me deu o dom da vida presenteando-me com o livre arbítrio, me abençoou com a inteligência, deu a graça e a força para lutar rumo a conquista de minhas realizações. A Ele dou o louvor, a honra e a glória.

Aos que amo. Muitos foram os momentos em que não pudemos ficar juntos. O tempo era curto, rápido e não esperava... Mas você compreendia e torcia por mim. Você foi muito importante! Agora, minha conquista te pertence, pois teu apoio, tua paciência, amizade e carinho amenizaram as dificuldades em minhas jornadas de uma forma muito especial. As alegrias são também tuas, realizo meu sonho e compartilho com você minha alegria, quero sorrir, chorar, te beijar e dizer que te amo muito.

Aos mestres! É inútil resumir certos indivíduos. Só se pode mesmo seguí-los... Aos que não se limitaram em teorias, aos que são professores por vocação e não por ocasião, aos que se mostraram amigos e preocupados com nossos interesses, meu respeito e eterna gratidão.

 

 

Autor:

Daniela Da Silva Andrade Cardoso

danielafisioterapeuta[arroba]gmail.com

FACULDADE PADRÃO

CURSO DE FISIOTERAPIA

TRABALHO DE CONCLUSÃO DE CURSO

GOIÃNIA

FEVEREIRO/2008

Partes: 1, 2, 3


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