Algumas convergências e divergências entre São Tomás de Aquino e Aristóteles



  1. As três teorias sobre a génese das formas corpóreas
  2. O entendimento prático move a vontade
  3. Para Aristóteles, Deus é substância, tema em que São Tomás se contradiz

O pensamento filosófico de São Tomás de Aquino não coincide em toda a sua extensão com o de Aristóteles, ainda que as teorias do acto e da potência, da forma e da matéria e muitas outras que São Tomás estabelece como traves mestras do seu sistema filosófico sejam, indubitavelmente, aristotélicas.

1. As três teorias sobre a génese das formas corpóreas

A génese das formas corporais segundo Tomás de Aquino é explicada de três modos diferentes: internalista, externalista e misto. «A respeito das formas corporais, alguns disseram que procedem totalmente de dentro, pensando assim os que punham formas latentes. Outros pelo contrário, disseram que procedem literalmente de fora, como aqueles que pensavam que as formas corporais procedem de alguma causa separada. Outros, por fim, disseram que procedem a partir de dentro, enquanto existem potencialmente na matéria, e em parte de fora, enquanto são reduzidas ao acto por um agente. »

(Santo Tomas de Aquino, Suma de Teologia II, Parte I-II, pag 475, Cuestion 63, Artículo 1, Biblioteca de Autores Cristianos, Madrid, 2006; o bold é nosso)

A primeira posição, internalista, refere-se a Anaxágoras segundo o qual as formas dos objectos visíveis, macroscópicos, são obtidas por composição de miniaturas invisíveis de formas algo similares, os princípios homeoméricos. Exemplo: Uma cenoura é composta de milhares de cenouras muito pequenas invisíveis e também de algumas miniaturas invisíveis de olhos se se parte do princípio que a cenoura fortalece a vista, melhora a visão.  «Anaxágoras de Clazomene, filho de Hegesibulo, sustentou que os primeiros princípios das coisas eram as homeomarias. Pois parecia-lhe impossível que alguma coisa chegasse a ser a partir do que não é o que nisso se dissolvesse.

Em todo o caso, alimentamo-nos do que é simples e homogéneo, como pão e água, e com isso se nutrem o cabelo, as veias, as artérias, a carne, os nervos, os ossos e as demais partes do corpo. Em consequência, há que reconhecer que, no alimento que tomamos, estão todas as coisas e que tudo deriva o seu crescimento das coisas que existem. Nesse alimento deve haver algumas partes produtoras de sangue, de nervos, de ossos, partes que só a razão pode contemplar.» (Aecio, I, 3,5 (DK 59 a 46), citado em Kirk y Raven, Los Filósofos presocráticos, Editorial Gredos, Madrid, pag 535; o bold é nosso).

A segunda posição, externalista, é a de Platão, segundo a qual as formas dos corpos materiais procedem do mundo imóvel e eterno dos arquétipos (formas incorruptíveis sem matéria) que são as causas separadas a que alude São Tomás. Por exemplo, as formas das cabeças e corpos humanos são cópias, projecções à distância sobre a matéria informe (hylé) da forma ideal de cabeça e do corpo humano existente no Mundo do Mesmo ou inteligível suprafísico.

A terceira posição, mista, é a de Aristóteles e São Tomás e é verdadeiramente dialéctica pois joga com essa extraordinária lei dialéctica do acto e da potência uma coisa é simultaneamente de dois modos distintos: em acto (presente) e em potência (futuro previsível) – teorizada por Aristóteles: as formas corporais estão potencialmente, invisivelmente ou virtualmente, em parte dentro, isto é, na matéria e, na outra parte, estão fora da matéria, na mente de um agente (o homem, as formas espirituais autosubsistentes, Deus no caso de São Tomás).

Eis, pois, a lei da tríade patente na relação entre estas teorias: se a teoria dos princípios homeoméricos (formas internas à matéria, invisíveis e miniaturais) é a tese, a teoria de Platão das formas imóveis e separadas exteriores à matéria é a antítese e a teoria aristotélico-tomista das formas imanotranscendentes à matéria é a síntese.

Note-se que Aristóteles e São Tomás não coincidem sobre o papel de Deus ou forma suprema, acto puro: São Tomás entende Deus como causa final e como causa eficiente, isto é, fabricante do mundo, ao passo que Aristóteles, em cujo pensamento se filiam algumas correntes gnósticas, concebe Deus como causa final do mundo (é para Deus que estrelas e planetas olham ao colocarem-se em movimento nas esferas celestes, com o fim de o alcançar) e não como causa eficiente.

2. O entendimento prático move a vontade

Na Suma de Teologia, uma das grandes obras da filosofia de todos os tempos, São Tomás de Aquino coloca milhares de questões e responde a elas, entre as quais a da relação entre a vontade e o entendimento.


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