O questionamento da técnica em Heidegger



Partes: 1, 2, 3

  1. Resumo
  2. Introdução
  3. O questionamento da técnica segundo Heidegger
  4. O ente intramundano pré-temático: da incontornabilidade do ser simplesmente dado no manual
  5. Niilismo: o fim do questionamento da técnica
  6. Conclusão
  7. Referências bibliográficas

"[...] O martelar não somente não sabe do caráter instrumental do martelo como se apropriou de tal maneira desse instrumento que uma adequação mais perfeita não seria possível [...]"

(HEIDEGER, 2006b, p. 117)

Heidegger questiona no § 16 de Ser e Tempo o caráter incontornável do ser simplesmente dado no manual. Compreender esse caráter incontornável, por exemplo, do martelo em relação ao martelar, significa compreender o que Heidegger entende por apropriação. O fenômeno da técnica, em sua essência, revela-se como um evento apropriador (Ereignis). À essência desse evento chamamos armação (Gestell). E do que esse evento se apropria? Do próprio tempo e, em correspondência, daquele que responde ou corresponde ao seu apelo: o ser humano. A correspondência a esse apelo se desdobra em várias direções. Em primeiro lugar, corresponder a esse evento significa a confirmação do esquecimento do ser. Esquece-se do ser representando. Ao representarmos não só correspondemos ao apelo, como também confirmamos a questão da verdade do ser como a questão do seu próprio esquecimento. Faz parte da história do ser, portanto, o seu esquecimento e, por esse mesmo motivo, o evento apropriador é uma verdade, é alétheia. A relação entre Ser e Tempo e A questão da técnica é a relação entre o martelar do martelo e o pensar calculador do homem gestéltico, em correspondência ao apelo da técnica. Esta constatação abre novas perspectivas e nos coloca diante de um novo modo de pensar a verdade por correspondência, não no sentido lógico, mas no sentido ontológico. O ser humano corresponde ao apelo, e ao corresponder realiza o evento apropriador que, fenomenologicamente, é uma verdade.

INTRODUÇAO

Heidegger questionou a técnica em pelo menos dois sentidos: a técnica como modus operandi, um modo de fazer humano, como um meio para fins; e a técnica como um modo de pensar: um pensamento calculador, também um meio para uma finalidade. Esse modo de pensar algorítmico ou calculador, se exacerbado, limita ou suplanta o modo de pensar filosófico. Pensar filosoficamente significa não apenas pensar o pensamento que se pensa a si mesmo, mas também o pensamento que questiona as outras coisas, pela crítica e reflexão radicalmente livres.

A mudança da questão do sentido do ser, em Ser e Tempo, para a questão da verdade do Ser (Seyn) nas Beiträge zur Philosophie (Vom Ereignis), indica a mudança de perspectiva do pensamento heideggeriano: "Die Seinsfrage ist die Frage nach der Wahrheit des Seyns" [1]A verdade da técnica é uma verdade como acontecimento, evento. Há perigo, em um primeiro sentido, porque, sendo a verdade do ser exatamente o seu esquecimento, todo o pensar reduz-se ao cálculo. Sem a reflexão filosófica ou outra saída para o pensamento, o ser-aí se converte em representante incontornável do apelo gestéltico.[2]

O esquecimento do ser, no entanto, é também parte da história do ser, e por isso mesmo é uma verdade. O pensamento representativo calculador expressa esse esquecimento e, ao fazê-lo, não questiona o perigo por trás da desenfreada superprodução. Heidegger faz, portanto, um alerta sobre o perigo inquestionado da técnica, como uma possibilidade não pensada pelos "funcionários da técnica". Há um sentido escatológico ou apocalíptico aqui, mas não como uma profecia sobre o fim do mundo, e sim uma possibilidade não vislumbrada pelo pensamento técnico.

Ser-aí é ser aberto para as possibilidades de ser e pensar. Possibilidade, como o exposto em Ser e Tempo significa liberdade. Conforme o § 41 deste tratado, o ser do ser-aí ("Cura") é abertura e, por esse motivo, o ser-aí é livre. A liberdade, possibilitada pela angústia, permite a alternância senão intermitência existencial-existenciária.

É no anteceder-a-si-mesma, enquanto ser para o poder-ser mais próprio, que subsiste a condição ontológico-existencial de possibilidade de ser livre para as possibilidades propriamente existenciárias. O poder-ser é aquilo em virtude de que a presença[3]é sempre tal como ela é faticamente. Na medida, porém, em que este ser para o próprio poder-ser acha-se determinado pela liberdade, a presença também pode relacionar-se involuntariamente com as suas possibilidades, ela pode ser imprópria. (HEIDEGGER, 2006 b, p. 260).

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