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Câncer de mama e imagem corporal: Uma busca através da dança do ventre (página 2)

Thatiane Bortolozo Menéndez
Partes: 1, 2, 3, 4

Esta experiência despertou-me o interesse em levar estas atividades às mulheres que tiveram a vivência de um câncer de mama, buscando a sua reintegração física e psicológica.

Com este estudo pretendo mostrar uma forma eficaz de trabalhar a imagem corporal de mulheres após o câncer de mama. Com a dança do ventre buscarei primeiramente retirar o foco de atenção da mama amputada, levando-as a se reapropriarem de si mesmo para, então, buscar a sensualidade e a leveza, bem como uma melhor imagem do próprio corpo.

Escolhi a dança do ventre por ser uma dança totalmente voltada para a feminilidade, sensualidade, leveza e delicadeza da mulher; e optei pelo trabalho em grupo com a finalidade de lhes proporcionar novas vivências possibilitando que elas troquem experiências e ajudem-se mutuamente, além de promover maior descontração durante as aulas.

O conteúdo deste trabalho divide-se em: Introdução, onde o referencial teórico oferece dados para a elaboração dos objetivos; Objetivos; Método, em que há a descrição dos sujeitos, material e procedimentos utilizados; Resultados e Discussão, em que são expostos e discutidos os dados coletados no decorrer do estudo; Referências Bibliográficas, em que são descritas as fontes utilizadas para a elaboração deste estudo; e Anexos, onde constam as entrevista e redações das pacientes analisadas na pesquisa, além dos questionários e termos utilizados

Introdução

1.1 O câncer de mama

O câncer não é uma doença nova na história da humanidade, nem o é o câncer de mama. Heródoto em "Os nove livros da história", escrito entre 430 e 424 a.c., fala a respeito de Atossa, filha de Ciro e mulher de Dário, que tinha um pequeno tumor mamário e o ocultou até que este alcançasse a ulceração e se disseminasse. Mandaram então vir o médico Demócedes (525 a.c.), que conseguiu curá-la, mas nunca divulgou sua técnica (Helicarnaso, 2000)

O câncer de mama é uma patologia que, para a mulher, além do estigma do câncer em si, traz um grande sofrimento físico e psicológico devido à cirurgia de amputação de um órgão que simboliza a feminilidade, a maternidade e a sexualidade (GIMENES; FÁVERO, 2000).

O câncer de mama é a segunda neoplasia maligna mais freqüente na população feminina, com uma estimativa de 48.930 casos novos no ano de 2006 com um risco estimado de 52 casos a cada 100 mil mulheres. Na região Sudeste, o câncer de mama é o mais incidente entre as mulheres com um risco estimado de 71 casos novos por 100 mil. Sem considerar os tumores de pele não melanoma, este tipo de câncer também é o mais freqüente nas mulheres das regiões Sul (69/100.000), Centro-Oeste (38/100.000) e Nordeste (27/100.000). Na região Norte é o segundo tumor mais incidente (15/100.000) segundo o Instituto Nacional de Câncer (INCA, 2007).

Segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS), nas décadas de 60 e 70 registrou-se um aumento de 10 vezes nas taxas de incidência ajustadas por idade nos Registros de Câncer de Base Populacional de diversos continentes (INCA, 2007).

O câncer de mama é a segunda causa de mortalidade por neoplasia em mulheres; porém a mortalidade por câncer de mama declinou em 5% entre 1989 e 1992. Os trabalhos de incentivo à prevenção do câncer de mama, a divulgação do auto-exame e o aumento da utilização de mamografias são algumas razões para o declínio da mortalidade, porque facilita o diagnóstico em estágio inicial, o que proporciona o sucesso no tratamento e impede a metástase, além de possibilitar uma cirurgia mais conservadora. Em 1979, 22% das mulheres haviam realizado mamografias e em 1992 o percentual sobe para 68% (CANTINELLI et al., 2006).

As técnicas de tratamento do câncer de mama sofreram grandes mudanças nos últimos 20 anos, as cirurgias estão mais conservadoras e as terapias complementares procuram causar o menor efeito secundário possível. Também se tornou imprescindível uma abordagem multidisciplinar destas pacientes buscando não somente à cura do câncer mas à recuperação das pacientes em âmbito físico, psicológico e social, visando à melhora da qualidade de vida (GIMENES; FÁVERO, 2000).

Nos séculos passados o tumor de mama era tratado quase que exclusivamente com cirurgia, que se tornou mais radical até o início do século XX. Este tipo de tratamento, sem os recursos atuais da microscopia operatória era a única forma de tratar a doença, porque removia o tumor em toda sua extensão. Com a evolução da ciência passamos a ter mais recursos, o que possibilitou o estudo da fisiologia e fisiopatogenia do câncer levando ao desenvolvimento de novas terapias para o tratamento deste como a radio, a quimio e a hormonioterapia, assim como o surgimento dos marcadores tumorais que permitem delimitar a extensão dos tumores tornando a cirurgia menos radical (CONDE et al.; 2006).

Há registros muito antigos sobre cirurgias para extirpação do câncer de mama. Galeno escreveu:

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Foi somente no séc. XVI que o tratamento cirúrgico do câncer de mama obteve progresso, passando-se em alguns casos a fazer somente a retirada parcial da mama, depois ainda começou-se a utilizar a retirada dos gânglios axilares (CANTINELLI et al., 2006).

Valpeau apud Gimenes e Fávero (2000, p.79), em 1856, emitiu a opinião que ainda hoje é válida:

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Em 1867, Moore esboçou os princípios da mastectomia radical, utilizada até hoje em alguns casos. Com o surgimento da quimioterapia, da hormonioterapia e da radioterapia a cirurgia deixou de ser a única terapia para o tratamento do câncer, passando então a ser utilizada como um tratamento multidisciplinar visando à melhor qualidade de vida e aumentando as taxas de cura (GIMENES; FÁVERO, 2000).

A cirurgia objetiva o controle local do câncer removendo todas as células tumorais presentes. Serve para orientar as terapias sistêmicas, definir o estadiamento cirúrgico da doença e identificar o grupo de maior risco de metástase e proporcionar maior sobrevida às pacientes. O esvaziamento axilar é um recurso auxiliar para o estadiamento cirúrgico e avaliação do prognóstico no que diz respeito a recidivas e orientar a terapêutica complementar (CAMARGO; MARX, 2000).

A seleção do método terapêutico apropriado depende de diversos fatores: tamanho e localização do tumor, análise da mamografia, idade da paciente, tipo histológico, tamanho da mama e como a paciente se sente em relação ao câncer e à retirada da mama. A retirada ganglionar no caso de comprometimento dos linfonodos tem papel terapêutico e de estadiamento (OTTO, 2002).

Atualmente temos as cirurgias conservadoras: tumorectomia, quadrantectomia ou segmentectomia; a mastectomia simples, a mastectomia radical e radical modificada (CANTINELLI et al., 2006).

A tumorectomia consiste na remoção do tumor sem margem de tecido circunjacente. Cerca de 25 a 30% das cirurgias se enquadram neste procedimento. A segmentectomia ou quadrantectomia é a retirada de um quadrante ou segmento da mama. A opção por uma delas depende da extensão do tumor e de sua localização (CAMARGO; MARX, 2000; GIMENES; FÁVERO, 2000).

A mastectomia radical modificada consiste na remoção de toda a mama e dos linfonodos axilares preservando o peitoral maior e podendo ou não preservar o peitoral menor. Aproximadamente 57% das mastectomias são deste tipo, segundo Gimenes e Fávero (2000).

A mastectomia radical consiste na remoção de toda a mama, linfonodos axilares e músculos peitorais menor e maior, raramente utilizada nos dias atuais. Estudos demonstram que, em pacientes submetidas à cirurgia conservadora da mama, o impacto negativo em relação à atividade sexual e à imagem corporal é menor que nas pacientes submetidas a mastectomia (SALES et al., 2001).

Entretanto, na grande maioria das instituições públicas que realizam o tratamento para câncer da mama no Brasil, os estadiamentos III e IV chegam a corresponder à cerca de 60% dos diagnósticos iniciais. Como a maioria dos casos são diagnosticado em uma fase mais avançada da doença, conseqüentemente, o número de mastectomias realizadas no Brasil ainda é alto (SALES et al., 2001).

Em estudos revisados por Conde et al. (2006), observa-se que mulheres submetidas à cirurgia conservadora referiam melhor auto-imagem enquanto as submetidas à mastectomia relatavam maior insatisfação com o resultado estético e maior estresse emocional com relação à aparência física. Independente da idade, a mastectomia se associa de forma negativa à auto-imagem.

Em 1898, Marie e Pierre Currie descobriram o rádio e descreveram suas potentes propriedades radioativas. E em menos de um ano após esta descoberta, portadores de câncer estavam sendo tratados com radioterapia (SILVA, 2000).

A radioterapia destrói as células malignas remanescentes, interferindo no DNA; os raios bloqueiam a divisão celular ou destroem as células, na tentativa de realizar esta divisão. Por estar restrita à área tratada, constitui um tratamento de caráter local; seus efeitos tóxicos também são de efeito local, assim não há risco de lesões a outros órgãos (AVILÉS; VALDÉS, 1981).

Segundo Camargo e Marx (2000), a irradiação pré-operatória está indicada em casos localmente avançados seguida de cirurgia, geralmente higiênica.

Em tumores no estádio clínico II e III, alguns esquemas de tratamento incluem irradiação e quimioterapia pré-operatória. Alguns casos permitem tratamento conservador. Nos casos de estádio clínico III, a quimioterapia é o tratamento inicial seguida por cirurgia ou radioterapia (MURAD, 2000). No tratamento conservador (estádio clínico II e III) a radioterapia é iniciada geralmente de 3 a 5 semanas após a cirurgia, quando a cicatrização da incisão cirúrgica estiver completa, sem serosidade axilar e com recuperação motora escapuloumeral. A quimioterapia pode ser necessária (VERONESI et al., 1992).

Paul Erhlich cunhou o termo quimioterapia em 1898. Os agentes alquilantes foram desenvolvidos como armas químicas, num programa secreto, durante a Segunda Guerra Mundial, sendo que seu uso clínico só foi publicado em 1946. Em 1960, Skipper e colaboradores traçaram os princípios da quimioterapia antineoplásica e só daí em diante, com a descoberta de novas drogas, é que a quimioterapia se desenvolveu (GIMENES; FÁVERO, 2000).

A quimioterapia consiste em agentes modificadores da resposta biológica que afetam células cancerosas por todo o corpo. Eles bloqueiam reações químicas dos tumores e tecidos comuns, portanto seus efeitos são sistêmicos, assim como seus efeitos adversos. Geralmente atuam na síntese ou na transcrição do ácido desoxirribonucléico, o DNA, agredindo todas as células em divisão, sendo assim, os efeitos colaterais da quimioterapia mais comuns são: queda na produção das células do sangue, o que faz com que o paciente fique mais suscetível a infecções e menos disposto a atividades físicas, inflamações do trato digestório e a queda capilar; também podem ocorrer náuseas, vômito, fadiga, diminuição cognitiva e falência ovariana, levando à Síndrome Climatérica (AVILÉ; VALDÉS, 1981; CONDE et al., 2006).

Há três condições para as quais é indicada a quimioterapia: como terapia principal, com objetivo de cura ou controle parcial da doença; a quimioterapia adjuvante, que é aplicada logo após o tratamento cirúrgico com retirada do tumor, muito eficaz na destruição das micrometástases; e a quimioterapia neoadjuvante, aplicada antes da cirurgia, com a intenção de reduzir localmente o tumor, proporcionando margem de segurança e melhor resultado cirúrgico (PESSOA et al., 2007).

A hormonioterapia é um dos tratamentos sistêmicos adjuvantes mais eficazes no caso do câncer de mama, entretanto, só é eficaz nas pacientes que apresentam os receptores hormonais de estrogênio e/ou progesterona. Seu efeito é antiestrogênico. Os principais efeitos colaterais se assemelham à menopausa (CONDE et al., 2006). A secura vaginal é um dos mais importantes efeitos colaterais da hormonioterapia em geral e prejudica a atividade sexual, influenciando diretamente na qualidade de vida destas mulheres. A hormonioterapia também pode causar o aumento de peso e está relacionado com maior incidência de câncer de endométrio (CANTINELLI et al.,2006).

Com a evolução dos exames de imagem e métodos de detecção precoce, os tumores passaram a ser descobertos em estadiamentos iniciais, favorecendo o tratamento e aumentando a sobrevida das pacientes exigindo novas abordagens cirúrgicas que propiciassem uma melhor estética (CAMARGO; MARX, 2000).

A idéia da reconstrução mamária data da mesma época da sua amputação. A primeira descrição de reconstrução mamária é atribuída a Czerny, que em 1893, substituiu o tecido glandular mamário por um lipoma da mesma dimensão extraído da região lombar da mesma paciente. A partir de então, muitos outros estudaram diversas formas de reconstrução, na tentativa de fazer uma mama esteticamente mais bonita e sensual. Para tal, utilizaram retalhos miocutâneo, bipartição da mama contralateral, próteses de silicone, expansores, microcirurgias e incisões diferentes para melhor estética da cicatriz cirúrgica (CAMARGO; MARX, 2000).

A reconstrução mamária pode ser imediata ou tardia. A mastectomia sem reconstrução proporciona uma piora na qualidade de vida, o que terá um impacto negativo na evolução da doença. A reconstrução imediata oferece as vantagens de ser realizada na mesma cirurgia que a retirada da mama, não sendo necessário, então, a paciente passar por nova cirurgia, e é psicologicamente preferível (GIMENES; FÁVERO, 2000).

Quanto à reconstrução tardia, deve-se levar em consideração diversos fatores, como: melhor ocasião para a reconstrução levando em conta o estadiamento da doença; tipo de mastectomia; áreas que possam doar tecidos para a reconstrução a fim de se escolher a melhor técnica (CAMARGO; MARX, 2000).

Além das técnicas já descritas, também se utiliza expansores, que são bolsas de silicone fino e elástico conectado a válvulas especiais que permitem a injeção de solução salina. As vantagens são a simplicidade, o menor tempo cirúrgico, não necessidade de nova incisão; quanto às desvantagens, pode ocorrer contratura capsular, rompimento do expansor e retração da pele (CAMARGO; MARX, 2000).

Em estudo realizado por Ferreira e Mamed (2003), nota-se que as mulheres submetidas a mastectomia têm necessidade de recuperar o espaço perdido e se referem à reconstrução mamária como uma possibilidade para tal.

1.2 Psique e qualidade de vida

A mulher que descobre ser portadora de câncer de mama passa por alguns conflitos internos que vão desde a negação até a aceitação da existência da doença, passando pela revolta, isolamento e barganha. Esses conflitos infelizmente não terminam com a cirurgia, mas vão muito além, com os tratamentos de quimioterapia, radioterapia e hormonioterapia (CAMARGO; MARX, 2000).

Ao longo do processo de tratamento, a mulher portadora de câncer de mama passa por vários lutos. O primeiro pela possibilidade de ter câncer, o segundo quando se confirma o diagnóstico, o terceiro quando passa pelo tratamento cirúrgico, um quarto luto gerado pela alteração da imagem corporal e ainda pode haver um quinto luto, causado pelas possíveis limitações conseqüentes da cirurgia e um último causado pelos tratamentos quimioterápicos, radioterápicos e hormonioterápicos aos quais muitas vezes as mulheres são submetidas (MALUF et al., 2005).

O processo de luto é um conjunto de reações em conseqüência de uma perda. Na realidade, o processo de luto pelo qual passa a mulher com câncer de mama é um momento em que ela tem a possibilidade de entrar em contato consigo mesma e se chocar com a nova realidade, trabalhando então para que possa refazer sua auto-imagem, através do contato com esta realidade. No entanto, este processo é doloroso, sendo acompanhado de tristeza e até mesmo de uma profunda depressão, além de gerar sentimentos como angústia, medo e desesperança (MAKLUF et al., 2006).

Neste período de luto a mulher se confronta ao mesmo tempo com o sentimento de alívio e felicidade por estar livre da doença e com a tristeza e principalmente baixa auto-estima devido à mutilação. Pois não é apenas uma mutilação física, mas uma mutilação emocional, uma mutilação da sua feminilidade. Todos estes fatores citados, desde alterações e complicações físicas até as alterações psicológicas interferem diretamente na qualidade de vida destas pacientes (MALUF et al., 2005; CANTINELLI et al., 2006).

As pacientes submetidas à cirurgia da mama apresentam comprometimento de sua vida sexual, no trabalho, nos hábitos da vida diária e principalmente na imagem corporal (FERREIRA; MAMED, 2003; MAKLUF et al., 2006; CONDE et al., 2006).

A Organização Mundial de Saúde (OMS) define qualidade de vida como sendo "a percepção do individuo de sua posição na vida no contexto da cultura e sistemas de valores nos quais ele vive e em relação aos seus objetivos, expectativas, padrões e preocupações". Segundo Sales et al. (2001), a avaliação da qualidade de vida global inclui os funcionamentos físico, psicológico, social, sexual e espiritual, variando entre os autores a nomenclatura ou divisão destas áreas de funcionamento e respectivos conteúdos.

A avaliação da qualidade de vida considera as percepções subjetivas da paciente, avaliando o impacto da doença sentido por ela. O que é um grande passo para uma abordagem mais abrangente da doença e do ser humano, que não visa mais a tratar somente a doença, mas considera a saúde e o bem-estar psicológico da paciente. (MAKLUF et al., 2006)

Trabalhos sobre a qualidade de vida de mulheres mastectomizadas demonstram que existem mudanças no funcionamento social, decorrente mais de dificuldades psicossociais do que físicas, dentre elas os maiores problemas encontrados foram em relação à sexualidade, imagem corporal e dificuldade de realizar as atividades do lar (SALES et al., 2001).

Em outro estudo realizado por Makluf et al. (2006) observou-se que o impacto negativo, tanto sobre a atividade sexual quanto sobre a imagem corporal, é menor em pacientes submetidas à cirurgia conservadora da mama do que naquelas submetidas à mastectomia.

É de fato uma questão extremamente significativa a imagem corporal relacionada à sexualidade, principalmente quando se trata de mulheres jovens. Fobair apud Cantinelli et al. (2006) demonstrou em um estudo que de uma população de 546 mulheres, metade experimentou dois ou mais problemas relacionados à imagem corporal, e 17% experimentou pelo menos um. Entre as mulheres sexualmente ativas, os maiores problemas de imagem corporal estavam relacionados à mastectomia e à reconstrução da mama, à perda de cabelos, às alterações de peso, perda de saúde mental, baixa auto-estima e às dificuldades do parceiro em compreender seus sentimentos.

1.3 Esquema e imagem corporal

Tem-se feito uma separação entre os termos esquema corporal e imagem corporal, sendo o primeiro utilizado pela neurologia e o segundo pela psicologia. Esquema corporal tem sido usado com referência ao biológico, em relação à postura e ao movimento, enquanto a imagem corporal tem sido utilizada pela psicologia, porém o esquema corporal faz parte da imagem corporal, sendo impossível a constituição de um sem o outro, assim como é impossível a constituição de um corpo humano sem pensamentos e sentimentos (BARROS, 2005).

O esquema corporal é definido, segundo Silva e Mattos (1996) como o conhecimento sintético do corpo, segmentos corporais, articulações e suas funções. É um conceito que tem origem na neurologia, fazendo referência ao equipamento neuromotor. Evolui juntamente com o homem, podendo variar de acordo com a aprendizagem e com o emprego do sistema neuromotor. Refere-se ao que é biológico, à postura e às referências de movimento.

Foi na escola britânica que os estudos sobre imagem corporal aprofundaram-se, tanto nos aspectos neurológicos, quanto fisiológicos e psicológicos. O neurologista Henry Head, do London Hospital, foi o primeiro a usar o termo "esquema corporal" e também o primeiro a construir uma teoria na qual "cada individuo constrói um modelo ou figura de si mesmo que constitui um padrão contra os julgamentos da postura e dos movimentos corporais" (FOBAIR apud PETO, 2000, p.4).

Contudo, a maior contribuição nesta área foi dada por Schilder (1999), pois desenvolveu sua experiência tanto na neurologia quanto na psiquiatria, assim como na psicologia. Schilder considera a imagem corporal um fenômeno multifacetado. Em suas investigações, ele analisou a imagem corporal não apenas no contexto orgânico, mas também na psicanálise e na sociologia. Sobre a imagem corporal diz que não é só uma construção cognitiva, mas também uma reflexão dos desejos, atitudes emocionais e interação com os outros. Acrescenta também que a imagem do corpo não se constitui apenas de fatores patológicos, mas que os eventos diários também contribuem para sua construção.

A imagem corporal não se trata de uma imagem no sentido próprio da palavra, inclui imagens e representações mentais, mas não se reduz a isso. Não é também um espelho fiel de nosso corpo ou um simples resultado de nossa familiarização com ele tal qual é. Cada pessoa elabora a seu modo a imagem de seu próprio corpo, acentuando ou modificando as diferentes partes em função dos mecanismos de sua personalidade e de todas as suas vivências passadas e presentes. A imagem corporal não é apenas consciente, é construída também em grande parte tomando como referência o corpo de outras pessoas. Constitui uma unidade adquirida gradualmente que pode ser alterada e destruída. Implica em um esforço contínuo para dar estrutura a algo dinâmico. Tratando-se de um organismo como um todo, uma alteração em uma parte levará a alteração de toda a imagem corporal, visto que esta resulta de novas relações consigo mesmo e com os outros (KOLCK, 1987).

A imagem corporal é como o indivíduo se vê, como percebe seu corpo e a integração das partes constituintes, como se relaciona com os outros através do próprio corpo, como se sente em relação a ele, como espera que os outros o vejam e como lida com a imagem que os outros tem a respeito dele, ou seja, suas percepções sociais, emocionais e físicas em relação ao próprio corpo (KOLCK, 1987; SILVA; MATTOS, 1996; BARROS, 2005). Esta percepção do próprio corpo, segundo Schilder (1999), sofre a influência de três fatores, que juntos compõem a imagem corporal: o fisiológico (mecanismos neurológicos), o psicológico (estrutura libidinal) e o social (influências do ambiente externo).

Para Sudeen apud Souto, C. (1999, p.22) a imagem corporal é:

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A imagem corporal é percebida segundo o julgamento que o indivíduo faz de si mesmo. Segundo Souto, C. (1999), o indíviduo percebe sua imagem de forma positiva ou negativa de acordo com a correspondência que ele faz entre o que ele percebe e o que gostaria de perceber.

O conceito de imagem corporal tem sido utilizado em estudos de enfermidades e situações da vida que, direta ou indiretamente, afetam a forma, função e aparência do corpo. Qualquer perturbação ou mudança orgânica pode levar a uma alteração na imagem corporal do indivíduo, o qual, frente a estas mudanças pode apresentar mecanismos de enfrentamento inadequados para lidar com os sentimentos gerados por estas transformações, podendo então surgir um distúrbio de imagem corporal (SOUTO, C., 1999).

Após a cirurgia de retirada do tumor mamário, a mulher se depara com uma mudança abrupta de seu corpo e terá então que reformular a imagem corporal que construiu durante toda a vida. A pessoa, ao perder parte de seu corpo, apresenta modificações em seu modelo postural, alterando assim toda a mobilidade do organismo (SCHILDER, 1999). A amputação de qualquer parte do corpo é traumática, seja ela externa ou interna, pois produz uma mudança radical na aparência e conseqüentemente na imagem corporal, que terá que ser reajustada a esta nova realidade (FERREIRA; MAMED, 2003).

Os padrões impostos pela sociedade e incorporados pela pessoa tornam-a suscetível ao que os outros vêem como defeito, levando-a a concordar que ficou diferente do que deveria ser. As mulheres que passam pela mastectomia revelam a necessidade de recuperar o espaço corporal perdido e referem-se à cirurgia plástica como possibilidade, reconhecendo que a imagem de um corpo perfeito já não existe mais (FERREIRA; MAMED, 2003).

Em diversos estudos com mulheres que passaram pelo câncer de mama demonstra-se a presença de alteração da imagem corporal e sua relação com a sexualidade e qualidade de vida da mulher. Em um trabalho realizado por Rodrigues et al. (2000), a respeito da sexualidade de mulheres mastectomizadas pode-se observar que muitas delas referem mudanças negativas em relação à sexualidade e à vida sexual relacionando-as a alterações na imagem corporal.

Em outro estudo, realizado por Ferreira e Mamed (2003), com 10 mulheres mastectomizadas, observou-se alteração da imagem corporal das mesmas. As mulheres relatavam ter sido tirado um pedaço do corpo o que as levava a o perceber com estranheza.

1.4 Dança e dança do ventre

A dança teve origem na pré-história; era utilizada como forma de expressão e comunicação entre os homens pré-históricos muito antes da fala e da escrita (ORDENE apud PETO, 2000). Era e ainda é realizada em momentos importantes da vida, como por exemplo as danças religiosas, funerárias, danças de guerra, macabras e também as dramáticas e eróticas (ELLMERICH, 1964).

A expressividade se materializa através dos movimentos corporais organizados em seqüências e de experiências que transcendem o poder das palavras e da mímica. É um modo de existir, representa corporalmente a magia, a religião, o amor, a morte e a vida cotidiana (GARAUDY apud PETO, 2000). A dança está no ser humano, em qualquer um de nós há dança, somente é necessário desenterrá-la e compartilhá-la. Ela não deve ser um privilégio daqueles que se dizem dotados, mas sim pertencer a todos os homens (FUX, 1983).

Hoje em dia a dança tem uma tendência a ser vista somente como um meio de entretenimento, desprovida de conteúdos e mensagens culturais que possam transformar a vida e o convívio em sociedade (PETO, 2000), porém é muito mais do que isso, ela nasce da necessidade de expressão e comunicação com o transcendental. É um dos raros momentos em que o homem se conecta à sua totalidade: corpo, espírito e coração (GARAUDY apud PETO, 2000). Ela dá origem ao conhecimento do corpo, de si próprio e da relação corpo-psique (CASTRO, 1992).

Segundo Fux (1983, p.37):

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A expressão corporal e a criação são próprias do homem e instintivas, seja qual for o seu nível cultural e condição física, a necessidade de mover-se nos pertence e quanto mais incentivada mais nos engrandecerá como pessoas (FUX, 1983).

Quando crianças temos a necessidade instintiva de mover-nos porque é através do corpo que vivenciamos e demonstramos nossos sentimentos. À medida que crescemos e temos que assumir papéis sociais nosso corpo tende a perder cada vez mais o instinto natural de expressão e a graça, devido aos tabus criados pela própria sociedade, por tanto é importante que reencontremos esta graciosidade e expressão reprimida para fazer com que o corpo volte a ser um instrumento de comunicação (FUX, 1983; LOWEN,1991).

Segundo a Teoria do Movimento proposta por Laban (1978), a dança é baseada na linguagem do movimento e expressão não verbal, utilizando-se de estímulos internos ou externos para expressar idéias, sensações, sentimentos ou pelo simples, e fundamental, prazer de movimentar-se. Os movimentos devem mover todo o corpo, não exigindo precisão, para que não se perca a individualidade e expressão mais profunda contida. A dança tem como base fazer com que a pessoa descubra formas de mover-se e expressar-se através do próprio corpo. Mais do que precisão é necessário expressão e sentimento em cada pequeno movimento corporal.

Em um relato de experiência da vivência da dança com um grupo de pessoas em tratamento psiquiátrico, realizado por Castro (1992), pode-se observar que a dança estimula a criatividade, o desenvolvimento da auto-imagem e da autoconfiança dos pacientes e também despertou a vontade do autocuidado e um novo contato com os próprios corpos, assim como a diferenciação e expressão de sensações.

A dança do ventre tem sua origem na mais antiga das civilizações, a dos Sumérios. Estava ligada aos ritos de fertilização em homenagem às deusas que protegiam as águas, as terras, as mães e os filhos. Eram realizados rituais para a deusa Inana, deusa do amor e da alegria, a qual também tinha o poder sobre a morte. Estes rituais eram dirigidos por sacerdotisas que cantavam, declamavam poesias exaltando as virtudes da deusa e dançavam de forma erótica, vestindo panos esvoaçantes e transparentes. Os rituais serviam também para a preparação física e psicológica das meninas para as funções sexuais e maternais, pois é repleta de movimentos pélvicos, que trabalham a musculatura profunda da pelve, responsável pela sustentação das vísceras abdominais e do feto no ventre materno durante a gestação. E também possui movimentos suaves de braços e mãos e da parte superior do tronco, que despertam a sensualidade e delicadeza da mulher. Os movimentos são inspirados na natureza, na delicadeza dos animais, na leveza das folhas caindo das árvores (PENNA, 1993).

Abrão e Pedrão (2005) em um estudo com mulheres praticantes de dança do ventre concluiram que a dança melhora a auto-estima, o auto cuidado, diminui a timidez, além de influenciar no relacionamento sexual, pois desperta a sensualidade. As mulheres relataram também aumento da criatividade e relaxamento do corpo, permitindo que este se movimente com mais graça e suavidade.

Objetivos

Objetivos Gerais

Verificar e avaliar a contribuição da dança do ventre com a imagem corporal de mulheres que realizaram cirurgia da mama devido ao câncer de mama.

Objetivos Específicos

Verificar como a mulher representa o seu corpo nas relações consigo mesma e como ela percebe, interage e comunica-se com ele após o câncer de mama, assim como a contribuição da dança do ventre com estas percepções.

Método

O estudo foi realizado no Instituto Paulista de Cancerologia, situado na Avenida Angélica, 2503, 1º andar, no Bairro Santa Cecília. A escolha deste Instituto para a realização do trabalho se deu pela imensa preocupação de todos os profissionais em oferecer o melhor no que se refere à vida para os pacientes empenhando-se em promover a saúde e a qualidade de vida, além de trabalharem com uma equipe multiprofissional muito bem integrada oferecendo ao paciente desde o acompanhamento médico e fisioterapêutico até a orientação nutricional e espaço de convivência.

Participaram do estudo 6 pacientes com idade entre 39 e 65 anos, sendo que uma desistiu de participar dos encontros após a primeira aula relatando estar se sentindo indisposta devido à quimioterapia, sendo então excluída dos resultados e discussão, restando 5 pacientes. Todas do referido instituto e convidadas a participar pela equipe de psicologia. Os critérios de inclusão foram ter sido submetida a alguma cirurgia da mama devido ao câncer de mama, liberação do médico para realizar atividade física e interesse e disponibilidade para participar das aulas.

Após a seleção das participantes foram esclarecidos os objetivos do estudo e preenchidos o termo de consentimento livre e esclarecido e declaração da participação voluntária na pesquisa e autorização do uso de imagem (ANEXOS 1, 2 e 3).

Inicialmente foi feita a coleta de dados demográficos e informações gerais sobre o histórico da doença; descoberta do câncer da mama, tipo de cirurgia realizada, data da cirurgia, realização de reconstrução da mama, complicações pós-cirúrgicas; tratamentos complementares pré e pós cirúrgicos e atuais, como quimioterapia, radioterapia e hormonioterapia; e hábitos de vida diária como, prática de atividade física e dança (ANEXO 4).

Para avaliar as pacientes foi utilizado o método qualitativo, através de entrevista semi estruturada, realizadas no primeiro e último encontros. A entrevista inicial foi aplicada e gravada pela pesquisadora com acompanhamento de uma psicóloga do Instituto e posteriormente analisada. As perguntas feitas foram:

  • 1-Como você se sentia com seu corpo antes da cirurgia?

  • 2-Como você se sente com o corpo atual?

  • 3-Qual a imagem que você tem de seu corpo hoje?

  • 4-Como está sendo para você se relacionar com as outras pessoas?

  • 5-Como você acha que as pessoas te vêem? O que você faz?

  • 6-Você tenta esconder, você disfarça?

As entrevistas foram transcritas e constam nos ANEXO 5, 6, 7, 8, 9.

Foram também realizadas filmagens da primeira, e última aula, durante uma improvisação livre das alunas para que elas próprias pudessem observar os resultados em relação à técnica e expressão corporal, seguida de relato escrito da experiência vivenciada. Foi solicitado que relatassem as sensações experimentadas durante a aula, assim como, as dificuldades e facilidades na realização dos movimentos (ANEXO 10 e ANEXO 11).

Para a realização do estudo foram utilizados: um gravador, uma filmadora, um aparelho de som , músicas para relaxamento e músicas árabes, assim como instrumentos de percussão árabe, pandeiro e snujs, e véus.

Foram realizados 8 encontros, um por semana, de uma hora e meia cada, nos quais trabalhamos a consciência corporal através de relaxamentos e exercícios com movimentos específicos da dança do ventre. Exceto o primeiro e último encontros, que foram agendados para apresentação, esclarecimentos, preenchimento dos termos e entrevista individual.

As aulas foram baseadas na busca do feminino, da sensualidade e do autoconhecimento, no alongamento e fortalecimento muscular, dando grande enfoque à cintura escapular. Eram sempre iniciadas com exercícios de relaxamento e consciência corporal, seguidos de alongamentos, dança do ventre, e momento livre de improvisação, no qual cada uma tinha a oportunidade de criar e se expressar sem intervenção da professora.

No último encontro foi realizada novamente uma entrevista, feita pela pesquisadora e acompanhada por uma psicóloga do Instituto, utilizando outro roteiro de perguntas semi-estruturadas. As perguntas realizadas para esta segunda entrevista foram:

1- Após as aulas de dança do ventre algo mudou em relação às suas percepções anteriores?

2- Hoje como você se sente em relação ao seu corpo?

3- O que foi mais fácil e mais difícil pra você durante as aulas?

Estas segundas entrevistas também foram transcritas e constam como ANEXO 12,13,14, 15 e 16. Os nomes das pacientes foram trocados a fim de preservar-lhes a imagem.

Resultados e discussão

3.1 CARACTERIZAÇÃO DA POPULAÇÃO EM ESTUDO

Das 5 pacientes participantes do estudo 3 eram casadas, 1 separada e 1 solteira (FIGURA 1). Todas tinham filhos, exceto a solteira, variando de 1 a 4 com média de 2 filhos cada. A idade média das participantes foi de 48,8 anos, sendo a mais nova com 39 e a mais velha com 65 anos. Dentre elas 4 trabalhavam fora e uma era aposentada. Em relação à dança 2 já haviam tido alguma experiência e 3 nunca haviam feito nenhum tipo de dança (FIGURA 2), nenhuma delas havia tido experiência anterior com a dança do ventre e apenas 3 delas realizavam no momento algum tipo de atividade física.

Figura 1. Estado civil das mulheres entrevistadas. São Paulo, 2007

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Fonte: Pesquisa de campo.

Figura 2. Dança antes do tratamento entre as mulheres entrevistadas. São Paulo, 2007.

Monografias.com

Fonte: Pesquisa de campo.

Quanto ao câncer, 2 procuraram atendimento devido à percepção de nódulo no auto-exame e 3 descobriram na realização de exames periódicos. O tempo médio entre a descoberta do câncer e o início do estudo foi de 31 meses, sendo o menor tempo de 10 meses e o maior de 68 meses e o tempo médio entre o diagnóstico do câncer e a realização da cirurgia de 3,3 meses, variando de 15 dias a 8 meses (FIGURAS 3 e 4).

Figura 3. Tempo entre o diagnóstico e início deste estudo entre as mulheres entrevistadas. São Paulo, 2007.

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Fonte: Pesquisa de campo.

Figura 4. Intervalo entre o diagnóstico e a cirurgia das mulheres entrevistadas. São Paulo, 2007.

Monografias.com

Fonte: Pesquisa de campo.

Quanto à cirurgia, 2 realizaram mastectomia, sendo que 1 fez também a histerectomia na mesma cirurgia devido à possível metástase e 3 quadrantectomia, sendo 2 da mama direita e três da mama esquerda (QUADRO 1). Todas as pacientes deste estudo obtiveram informações sobre a cirurgia previamente.

Das 5 mulheres em questão 1 realizou quimioterapia antes da cirurgia, após a cirurgia 4 realizaram radioterapia, 2 quimioterapia e 3 hormonioterapia. Atualmente 1 realiza quimioterapia, 3 hormonioterapia e uma já recebeu alta médica. Em relação à reconstrução da mama 2 não realizaram, uma a fez com prótese de silicone pós-expansor, 1 na própria cirurgia, de retirada do tumor com retalho miocutâneo do músculo grande dorsal e 1 diminuiu a mama contralateral a fim de deixá-las simétricas, também na própria cirurgia (QUADROS 1 e 2).

Quadro 1. Informações sobre a cirurgia das entrevistadas. São Paulo, 2007.

Tipo de cirurgia

Complicações pós-cirúrgicas

Reconstrução da mama

Tipo de reconstrução

Mastectomia E

NÃO

Expansor na mesma cirurgia

Prótese de silicone

Mastectomia E + histerectomia

NÃO

Não

__________

Quadrantectomia D

NÃO

Na própria cirurgia

Retalho miocutâneo do m.grande dorsal

Quadrantectomia D + biópsia E

NÃO

Não

___________

Quadrantectomia D

NÃO

Na própria cirurgia

Redução da mama contralateral

Fonte: Pesquisa de campo

Quadro 2. Terapias associadas utilizadas pelas entrevistadas. São Paulo, 2007.

Paciente

Antes da cirurgia

Após a cirurgia

Atualmente

1

Não

Hormonioterapia

Hormonioterapia

2

Não

Quimioterapia + radioterapia

Quimioterapia

3

Quimioterapia

Radioterapia

Hormonioterapia

4

Não

Quimioterapia + radioterapia

Hormonioterapia

5

Não

Radioterapia

_____________

Fonte: Pesquisa de campo.

No decorrer das aulas 4 das mulheres participantes faltaram em uma das aulas, sendo cada uma em aulas diferentes e apenas uma participou de todas as aulas.

Obtivemos um grupo bem heterogêneo para o trabalho composto por mulheres de diferentes idades, diferentes estados civis e tipos de cirurgias, assim como um tempo entre a descoberta e o início deste trabalho bem variado o que nos proporcionou uma imensa riqueza de histórias, percepções e vivências do câncer e proporcionou a elas uma maravilhosa troca de informações e partilha de sentimentos.

3.2 ANÁLISE QUALITATIVA DAS NARRATIVAS

As narrativas após serem lidas exaustivamente em leituras verticais e horizontais foram desmembradas em categorias analíticas de acordo com os fatos mais relevantes, tanto as iniciais quanto as finais. A divisão em categorias analíticas reúne pontos fundamentais para a interpretação das narrativas, pois compreendem exatamente o objeto da pesquisa na fala das depoentes. Foi preciso sutileza e envolvimento com as percepções para captar as mensagens e verdades de cada uma. As categorias iniciais foram: histórico do câncer da mama, tratamentos pré e pós-cirúrgicos, conhecimento da técnica, reconstrução da mama, estigma, percepção corporal e relacionamentos. E as categorias finais: consciência corporal, percepção corporal, dança, relacionamentos, sensualidade e sexualidade.

3.2.1 SITUANDO O LEITOR: Um breve resumo de cada história

História 1

Dália Maria

Casada, 47 anos, secretária executiva. Descobriu o câncer aos 45 anos. Realizou a mastectomia e reconstrução após expansor. Atualmente faz hormonioterapia. Descobriu o câncer de mama em exames de rotina, em um mês realizou a mastectomia. Quanto à reconstrução acha que está boa, "que é uma coisa que dá pra lidar bem". Recebeu bem o diagnóstico do câncer, chegou a cogitar para o médico a retirada das duas mamas para evitar recidiva, o qual achou demasiado agressivo e desnecessário. Antes da cirurgia se sentia bem o corpo, depois relata que está bem também, "Tem dias que mais, tem dias que menos..." Se sente um pouco acima do peso devido à hormonioterapia. Teve muito apoio do marido nesta trajetória.

História 2

Flora

Separada, 65 anos, assistente social aposentada. Descobriu o câncer em 2005 em exames periódicos. Realizou mastectomia e histerectomia na mesma cirurgia, não fez a reconstrução da mama. Atualmente realiza quimioterapia. Após receber o diagnóstico preferiu não acreditar e esperando um milagre foi fazer um tratamento natural durante 6 meses, quando resolveu operar. Está aguardando liberação do médico para fazer a reconstrução. Antes das cirurgias estava se sentindo um pouco acima do peso, após as cirurgias sente-se desconfortável em relação ao abdômen, que se encontra protuso. Relata que a histerectomia a incomoda mais que a mastectomia. Após a cirurgia não teve nenhum relacionamento amoroso e também não pretende ter. Estuda Yoga.

História 3

Nour

Casada, 51 anos, advogada. Descobriu o câncer de mama em 2005 em exames de rotina. Realizou quadrantectomia com reconstrução feita com retalho miocutâneo do músculo grande dorsal na mesma cirurgia. Atualmente realiza a hormonioterapia. Logo que recebeu o diagnóstico iniciou a quimioterapia fazendo a cirurgia 8 meses depois. Antes da cirurgia relata que se sentia satisfeita com o corpo. Após a cirurgia reclama de estar um pouco acima do peso, o que a incomoda. Logo após a reconstrução estranhava a falta do mamilo, porém hoje já se acostumou, não a incomoda mais. O marido sempre deu apoio e tentava animá-la. O apoio dele foi fundamental para que ela superasse os medos e a dor da perda. Em relação às outras pessoas não se preocupa com o que elas pensam a seu respeito.

História 4

Íris

Solteira, 39 anos, professora. Descobriu o câncer de mama em 2006 através do auto-exame. Realizou quadrantectomia após 15 dias da descoberta juntamente com uma biópsia da outra mama, sem reconstrução. Atualmente realiza hormonioterapia. Antes da cirurgia se sentia bem em relação ao corpo. Agora, após a cirurgia, acha que: "A cura física, ela é mais rápida...Só que...esse processo de ter passado pelo câncer, tem um estigma muito pesado..." Não quis fazer a reconstrução por que: "Uma coisa é uma coisa e outra coisa outra coisa". Primeiro queria resolver o problema, a parte estética podia ficar para depois e até o momento não pensava em fazer a reconstrução, pois a diferença entre as mamas é bem pequena. Acha que "uma coisa que permeia isso tudo é a sexualidade...hoje ela é mais difícil." Devido à questão da mama, sente certo receio, porém acredita que conforme conheça alguém não vá ser tão difícil. Acredita que os homens continuam a vendo como antes do câncer. Após a cirurgia ainda não teve nenhum relacionamento.

História 5

Margaridah

Casada, 42 anos, agente de turismo. Descobriu o câncer de mama em 2001 através do auto-exame. Em um mês realizou a quadrantectomia juntamente com diminuição da mama contralateral para manter a simetria. Já recebeu alta de todos os tratamentos. Gostaria de colocar prótese de silicone nas duas mamas para aumentar o tamanho, mesmo já as tendo grandes, pois acha muito bonito mama grande. O resultado da cirurgia foi bom, porém pretende fazer uma correção na cicatriz da mama que foi reduzida. Logo após a cirurgia tinha receio de mostrar a mama para o marido, porém ele sempre a apoiou e a ajudou a superar estes medos. Hoje em dia está bem, porém às vezes ainda tem certo receio: "...às vezes eu não quero tirar (o soutien)...na minha cabeça eu choco um pouquinho...Eu vivo tranqüila, normal. Mas assim, às vezes bate."

3.2.2 NARRATIVAS INICIAIS: A descoberta de uma perda

A descoberta de um câncer não é algo fácil de lidar devido ao medo da morte e da mutilação, principalmente quando falamos do câncer da mama, que para a mulher significa mais do que uma amputação, repercute em todo o seu ser, em sua auto-estima, em seus relacionamentos e em sua imagem corporal. Elas referem-se à descoberta como um susto acompanhado de sensação de impotência, como mostram alguns relatos:

"E a gente leva um puta susto, e o chão falta.",

"É o maior susto que você toma!".

A sensação de impotência por elas experimentada, segundo Ferreira e Mamed (2003), pode ser descrita pela impossibilidade de mudar o curso dos acontecimentos, por não poder mudar o fato de seu corpo ser manipulado e mutilado.

E então após o susto inicial partem sem pensar, para a busca da resolução sem nem mesmo terem tempo de compreender e assimilar a doença:

"Eu acho que foi meio no automático. Saí de um consultório e fui pra outro, já saí da masto com cirurgia previamente marcada",

"Em 15 dias eu fiquei sabendo que era câncer e fiz a cirurgia.".

E somente após algum tempo é que conseguem ter uma idéia real e então entrar em contato com seus conflitos interiores:

"E depois você começa... a ter uma idéia mais realista.".

Algumas passam antes pelo período de negação como pudemos observar no seguinte relato: "Eu estava esperando um milagre...Eu preferi não acreditar...É aquela coisa de auto-engano.".

Outras direto para a aceitação: "Eu estou bem. Vamos em frente.".

As mulheres também fazem referência ao estigma do câncer, como um fator que interfere diretamente na aceitação e na forma de lidar com a doença, pois o câncer ainda hoje carrega o peso de doença fatal, de sentença de morte, como observamos nos seguintes relatos:

"Agente parece que não quer acreditar, mas pela...Acho que pela história de que câncer é uma doença fatal...",

"...O câncer era uma sentença de morte...Nós fomos criados, na minha geração, assim...é o fim...é mais difícil pra a gente assimilar ...que as coisas mudaram e que tem tratamento."

Quanto à cirurgia para retirada do tumor tanto as mulheres que realizaram a mastectomia quanto as que fizeram somente quadrantectomia independente da idade percebiam-se mutiladas e se referiam à perda de pedaços percebendo seu próprio corpo com estranheza, ou seja, pude concluir que independente do tipo de cirurgia realizado e da idade, a mulher se sente mutilada e apresenta alteração em sua imagem corporal. Diferente do que se observa na literatura, que mostra que mulheres submetidas à mastectomia apresentam sentimentos mais negativos em relação ao corpo e maiores alterações psicológicas que as submetidas a cirurgias conservadoras (SCHAIN apud MALUF et al., 2005). Os dados aqui observados também vão contra outros dados publicados por Conde et al. (2006) no qual ele relata que mulheres mais jovens vivenciam maior estresse emocional e maior dificuldade de adotar atitudes positivas em face do diagnóstico expressando maior preocupação com a auto-imagem, quando neste estudo observamos que o fato de lidar melhor com a auto-imagem não tem a ver com a idade, mas sim com o estado civil. As mulheres casadas apresentaram maior preocupação com a imagem que os maridos teriam delas, levando a um maior estresse emocional.

É a partir da cirurgia que a mulher toma real conhecimento do papel que a mama tem no contexto corporal e sociocultural.

"Assusta na hora que a gente olha a primeira vez, que está faltando um pedaço."

"É, a gente sente que tem alguma coisa faltando."

"Eu perdi um órgão do feminino que é de nutrição."

Pude perceber que muitas vezes durante os discursos a mama cria vida própria o que demonstra uma desapropriação do corpo, a mama passa a não fazer mais parte do corpo, se personifica e ao mesmo tempo leva o foco da atenção para si, tirando-o do restante do corpo fazendo com que a atenção maior fique na parte que já não existe mais levando à não percepção do restante do corpo sadio.

"Às vezes endurece um pouco o mamilo, aí você fala: Opa! Está vivo! E o outro você fala: Humm, cadê o outro?"

A mulher passa a dar mais atenção à mama que teve o câncer e ao tratamento que para o resto do corpo se perdendo de si mesma.

"...dois anos da minha vida fiquei me cuidando e a disposição de terapias. E a hora que você tem alta você fala: - Ué! E agora? Você leva um susto."

Em contrapartida para algumas o câncer foi um caminho para a auto-análise e mudança de atitudes, para um olhar mais integral de si mesma. Um maior cuidado porém devido a uma vivência desagradável, o câncer de mama e não um olhar prazeroso de se cuidar para si. Foucault apud Ferreira e Mamed (2003), também observou este cuidado das mulheres com o corpo com a visão de corpo frágil que necessita de cuidados e não mais de um cuidado prazeroso por amor a ele. Este cuidado mais integral do corpo e mudanças de atitudes também podem demonstrar uma forma de fuga da doença, para não ter que se olhar e se perceber após as alterações geradas pelo câncer levando assim o foco de atenção para outras partes do corpo.

Um fato relevante é que as mulheres participantes quando falam a respeito de seus sentimentos e percepções em relação ao câncer discursam em segunda pessoa ou no plural, você e a gente, para fazerem referência ao eu, o que comprova a fuga do eu e demonstra uma necessidade de compartilhar a dor:

"Você sempre leva um choque."

"...A gente sente que tem alguma coisa faltando."

Ao perceberem seu corpo, sua imagem alterada algumas mulheres referem-se à reconstrução como uma possibilidade de recuperar o espaço corporal perdido e assim retornar a sua imagem corporal anterior. Fato que também foi observado por Ferreira e Mamed (2003), no qual as mulheres analisadas também se referem à cirurgia plástica como forma de recuperar a imagem corporal. Cantinelli et al. (2006) aponta que a reconstrução tem um impacto positivo sobre a saúde mental e qualidade de vida e que quanto antes for realizada menor será o impacto psicológico vivenciado pela paciente.

"Estou na expectativa de fazer a reconstrução."

"O Dr. Falou pro meu marido que tinha que levar um cirurgião plástico, se não ia mexer comigo, com minha auto-estima."

Enquanto algumas mulheres tiveram a necessidade de vivenciar a perda, não querendo fazer a reconstrução imediata e até o início do estudo não tinham certeza se gostariam de fazer um dia:

"Uma coisa é uma coisa e outra coisa outra coisa. Primeiro eu acho que eu tinha que ver o que era isso e tratar isso. E a parte estética a gente vê depois."

Contudo, a reconstrução, embora todas tenham sido muito bem feitas com o mínimo de cicatriz e o máximo de simetria, não preenche o espaço da mama perdida. Muitas vezes elas se referem ao resultado da reconstrução como bom e ao mesmo tempo como sendo algo que não lhes pertence, algo estranho ao corpo, porém possível de se adaptar, o que comprova que a adaptação à modificação corporal se dá de forma gradual. O que também foi relatado por mulheres mastectomizadas participantes de um estudo realizado por Ferreira e Mamed (2003). A mulher que sofre uma mutilação repentina da mama, assim como a amputação de qualquer outro órgão precisa de um tempo para que seu eu incorpore e aceite essa mudança como parte integrante de si, pois a imagem corporal é dinâmica e reconstruída constante e incessantemente conforme os acontecimentos diários de nossa vida, o que pode ser observado quando elas relatam não sentirem necessidade de reconstruir o mamilo.

"Nos primeiros dias eu achava meio estranho olhar a minha mama e não ver o bico, o mamilo. Mas agora eu já me acostumei... faz de conta que já nasci assim."

Para minha surpresa, uma das mulheres do estudo, praticante de Yoga, que havia realizado a histerectomia juntamente com a mastectomia e sem reconstrução, revelou maior incômodo em relação à histerectomia que à mastectomia referindo-se à flacidez abdominal como um fator importante em relação à sua imagem corporal. O que revela, para ela, uma maior importância dos órgãos internos que os externos em sua imagem corporal, ou seja, o que ela sente é mais forte do que aquilo que ela vê.

O ganho de peso corporal foi um fator muito citado, as mulheres quando questionadas sobre como se sentiam com seu corpo antes da cirurgia e após, relatavam que antes estavam satisfeitas com o corpo e após a cirurgia relataram estarem se sentindo acima do peso, o que as incomoda, interferindo em sua auto-estima. Em um estudo realizado por Fobair apud Cantinelli et al. (2006) examinou-se esta questão da imagem corporal relacionada à sexualidade e observaram que metade da população de 546 mulheres mastectomizadas haviam experimentado ao menos 2 problemas relacionados à imagem corporal, sendo que os maiores problemas de imagem corporal estavam relacionados entre outros fatores ao ganho de peso corporal.

Quanto às relações interpessoais elas afirmam que o relacionamento com amigos após a descoberta do câncer ressaltou-se através do apoio dado durante a difícil caminhada. As mulheres casadas demonstraram preocupação quanto à imagem que os maridos teriam delas após a cirurgia relatando medo de rejeição e vergonha da mama operada achando-se inferior ao que deviam ser, à imagem prévia que tinham. Porém todas tiveram grande apoio do cônjuge, o que foi fundamental para a recuperação e perda dos receios, os quais elas relatam serem somente delas. Os maridos não demonstraram em momento algum estranheza ou desdém. Elas próprias é que sentiam medo devido à alteração percebida em sua imagem corporal. Este receio foi vencido, segundo elas, com participação fundamental dos maridos, que sempre apoiaram e respeitaram o tempo de adaptação de cada uma sem deixar que elas se afastassem deles neste período. Segundo Conde et al. (2006) fica sob a responsabilidade do cônjuge proporcionar suporte emocional adequado à mulher. Relata que mulheres satisfeitas com seus parceiros referem melhor estado psicológico.

Pude observar também que é mais difícil para a mulher iniciar um relacionamento após uma cirurgia mutiladora de mama que manter um relacionamento que já existia e no qual ambos passaram juntos pela dor do câncer e pela perda da mama, pois num relacionamento que passa por esta fase ambos superam juntos os medos e conflitos enquanto para se iniciar um relacionamento após estes acontecimentos surgem novos medos e novos conflitos. Sendo assim, tanto num relacionamento que já existe quanto em um que será iniciado após o câncer de mama fica clara a participação fundamental do companheiro para que a mulher supere seus medos e tabus.

"Meu marido é uma pessoa super legal...é mais fácil pra mim por causa disso...ele foi uma pessoa muito importante."

"...Ele tirou aquela coisa de receio meu."

Dentre as mulheres entrevistadas apenas duas não haviam tido relações sexuais após a cirurgia da mama, sendo uma solteira e uma separada. Contudo ambas relataram estar se sentindo bem em relação a si mesmas. Uma relatou estar fechada para este tipo de relacionamentos, estar buscando outras coisas, outro sentido para a vida. E a outra relatou que, por ainda estar se adaptando à nova imagem evitava este tipo de relacionamento, porém conforme encontrasse alguém interessante acreditava que não seria muito difícil este envolvimento, principalmente em relação ao toque na mama.

"...Hoje ela é mais difícil (a sexualidade)...eu evito um pouco...por essa questão da mama...".

Concluí nesta primeira análise que independente da idade, profissão, estado civil, tipo de cirurgia, reconstrução da mama ou não, as mulheres percebem uma alteração negativa em sua imagem corporal, tanto em relação à como se vêem quanto a como se sentem e como acham que os outros as vêem, referindo-se ao corpo como faltando pedaço e o sentindo com estranheza. Também demonstram receio quanto ao companheiro a perceber com estranheza gerando o medo de rejeição, medo do próprio toque na mama e medo de mostrar a mama.

3.2.3 SITUANDO O LEITOR: Fazendo a história

História 1

Dália Maria

Relatou melhora em relação à consciência corporal e aumento da sensualidade o que a levou a se sentir melhor com ela mesma. A consciência corporal adquirida a leva a se perceber melhor e a perceber mais a sua sensualidade em todos os momentos. Notou que por ter aumentado a auto-estima o relacionamento com o marido também se modificou. Ela o percebe mais carinhoso e atencioso. E observa: "Se eu estou melhor comigo mesma eu acho que isso também irá refletir na minha relação com os outros." Se sentiu mais desinibida, inclusive durante as relações sexuais. Relata que a dança trás alegria. Irá realizar um novo exame devido a um nódulo detectado na ressonância magnética. Gostaria de ter retirado as duas mamas na cirurgia para não ter mais que passar por este tipo de preocupação.

História 2

Flora

Observa que a sensibilidade corporal foi mais aprofundada com a dança. Achou as aulas muito divertidas e alegres, a dança lhe deu um pouco de paz neste momento que viveu (morte do ex-marido). Em relação à histerectomia acha que a dança a ajudou, a fez perceber que: "Não é porque os órgãos não estão aí que eu não vou ter a energia boa e eu posso trabalhar isso." Descobriu que tinha medo de tomar consciência do abdômen: "Parece que descongestionou a área. Parece que eu ficava com medo, na verdade eu ficava sim com medo...então parece que está aliviando por esta consciência do abdômen mesmo." Gostou muito de fazer as improvisações.

Está se sentindo mais livre. Acha que "A dança está dentro de nós...É só despertar... Todos nós somos dançarinos."

História 3

Nour

Notou mudança em relação à sua sensualidade, em relação a ela mesma, ao próprio corpo o que influenciou na relação com o marido, porque se sentindo mais sensual automaticamente ela fica mais sensual para ele. Ela passou a prestar atenção em partes do corpo que não notava, que não mexia antes se percebendo mais sensual. Sentiu-se mais desinibida e confiante. Notou também uma diminuição do desconforto na relação sexual causado pela secura vaginal decorrente da menopausa química. Gostou muito das improvisações. E diz sobre as aulas: "Foi uma surpresa gratificante."

História 4

Íris

"Eu acho que a dança foi um caminho para o reencontro da Íris." Através da dança relata que se reencontrou, que passou a se perceber melhor e com isso notou coisas que não notava antes, como a diferença entre as mamas: "Eu acho que essa diferença é maior do que eu via." , o que acha interessante, pois é um sinal de que está se olhando com mais atenção. E agora demonstra vontade de corrigir a diferença das mamas. Descobriu seus medos e os enfrentou iniciando um relacionamento no qual superaram juntos os seus receios em ralação à mama. Percebeu-se mais sensual e mais mulher o que refletiu na sua sexualidade. Inclusive passou a perceber movimentos da dança que utiliza sensualmente, sem querer, durante a relação sexual aumentando o prazer. O que mais gostou da dança foi o fato de todas as mulheres participantes estarem ali por algo em comum que não era o amor pela dança, mas sim o amor pela vida após terem passado por um câncer.

História 5

Margaridah

Após a dança se percebeu mais sensual tanto na dança quanto no mover-se em ações do dia-a-dia, até mesmo no falar, se sentindo mais amante de si mesma, com maior auto-estima. Quanto à relação com o marido não teve tempo de notar se houve diferença devido à tensão que passou nos últimos dias (surgiu um nódulo na mama e foi necessário fazer punção para análise, que deu negativa). Achou muito interessante a dança no Instituto. Diz: "É uma terapia. Pena que na época que eu fiz a cirurgia não tinham estes trabalhos aqui."

3.2.4 NARRATIVAS FINAIS: O reencontro

"... a dança foi um caminho para o reencontro da Íris."

A dança leva a um reencontro com o eu através de movimentos corporais que levam à exploração e sensibilização do corpo (FUX, 1983), o que é notável após apenas 6 aulas de dança do ventre. A dança do ventre as levou a um contato íntimo com o corpo levando-as a perceberem sensações que antes passavam despercebidas.

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Todas as mulheres participantes relataram uma melhor consciência corporal. Afirmam ter percebido partes do corpo e movimentos corporais que não tinham consciência assim como despertaram sentimentos e sensações ocultos como o medo e a sensualidade. Como o reencontro da Íris que através da dança despertou-se para si, defrontou-se com seus medos e percepções enfrentando-os e solucionando-os. Ela afirma :

"Eu acho que essa diferença (entre as duas mamas) é maior do que eu via."

Na entrevista inicial ela relatou que a diferença entre as mamas era pequena e que achava que não seria necessária a reconstrução. Na entrevista final apontou uma diferença nesta percepção referindo vontade de fazer algo para que esta diferença se minimize. Esta nova percepção demonstra a maior consciência corporal e percepção de si.

A dança despertou-as para a sua totalidade: espírito, corpo e coração (GARAUDY apud PETO, 2000), o que levou a um diálogo com o corpo permitindo que elas se explorassem mais como pessoa e como mulheres. Novas percepções que foram vistas com surpresa e entusiasmo.

Outra grande descoberta foi a da Flora, que entrou em contato com seus medos despertando-se para uma nova percepção corporal:

"Parece que descongestionou essa área (pelve e abdômen). Parece que eu ficava com medo, na verdade eu ficava sim..."

"Estou me sentindo assim, mais livre."

Relata em relação ao abdômen após a histerectomia. A consciência da pelve a permitiu entrar em contato com seu corpo e perceber seu medo de mover e sentir a parte que sofreu alteração possibilitando que ela a trabalhasse e superasse esse medo aprofundando sua consciência do corpo e assim melhorando sua imagem corporal.

A dança do ventre explora além da consciência corporal. É uma dança que através da consciência corporal leva à sensualidade. Todas as mulheres participantes relataram com grande ênfase esta sensualidade, que não é uma sensualidade para os outros, mas sim para o eu, que vem de um encontro com o eu e se mostra para os outros. Mas que tem início no eu. A sensualidade que vem de dentro para fora.

"...Não é uma sensualidade assim, de mostrar o corpo, mas uma sensualidade de se expressar..."

"A minha sensualidade , em relação a mim mesma e ao meu corpo..."

Fato que também foi notado em estudo realizado com mulheres que frequentavam uma academia de dança do ventre em pesquisa realizada por Abrão e Pedrão (2005).

Esta sensualidade é fruto da melhor consciência corporal e maior percepção de si como um todo. O reencontro com o eu leva a novas percepções que através da dança se traduzem em sensualidade e que vão repercutir na maneira de agir e consequentemente na maneira como os outros me vêem o que irá interferir diretamente nas relações interpessoais, principalmente falando das relações amorosas e sexuais.

Este discurso pode parecer um tanto redundante e óbvio, mas o assunto tratado também é óbvio e redundante, pois o reencontro de si mesmo é um fato extremamente redundante. Como me reencontrar comigo mesmo se eu mesmo já me pertenço? Contudo algumas vezes nos perdemos tentando fugir de fatos que não queremos encarar ou mergulhando em fatos que deveríamos entender e relevar. Sendo assim o foco deste estudo foi despertar estas mulheres para estas percepções que não querem olhar ou resgatá-las daquelas em que estão mergulhadas trazendo-as de volta para si, ou melhor dizendo, levando-as a uma visão integral do eu sem fugas ou mergulhos.

Segundo Castro (1992, p.27): "A volta ao corpo implica um trabalho para que o corpo se desafogue e se desengasgue e possa tomar a iniciativa de selecionar e usar somente aquilo que lhe convier, se o quiser."

Outro assunto a ser analisado é a sexualidade, que tem relação direta com a imagem corporal segundo Rodrigues et al. (2000) que em um estudo a respeito da sexualidade de mulher mastectomizada notou que estas relacionavam a imagem corporal à própria sexualidade. Se a mulher não se sente a vontade e feliz com seu corpo não se sentirá a vontade com o parceiro. É natural que a mulher que passou por uma cirurgia de extirpação de tumor mamário sinta medo e angústia quando falamos em relação sexual, pois ela sofreu uma mudança abrupta de uma parte do corpo extremamente valorizada na mulher, um símbolo de feminilidade, e leva um tempo até que ela se acostume e incorpore essa mudança.

Nesta fase a compreensão e apoio do parceiro são fundamentais para que ela se sinta segura e amada, independente de sua imagem corporal. E a partir do momento que ela se sente bem, bonita e sensual o parceiro também a verá bonita e sensual. A dança do ventre trouxe esta percepção para as mulheres. Elas se sentiram melhores com elas mesmas, se sentiram mais sensuais e notaram mudanças na relação com o parceiro.

Elas estão mais seguras e desinibidas inclusive durante a relação sexual o que levou a maior prazer e satisfação durante a relação. A descoberta da pelve e de movimentos desconhecidos também interferiu positivamente nas relações sexuais. Descobriram movimentos sensuais que passaram a utilizar, conscientemente ou não, durante a relação sexual proporcionando maior prazer e melhor desenvoltura.

"Os movimentos de quadril durante a relação são diferentes agora..."

O desconforto causado pela secura vaginal decorrente da menopausa química também foi minimizado através destas novas percepções.

"...Eu notei que ficou menos dolorido...Não tive mais tanto desconforto."

O que pode ter acontecido devido à maior consciência da pelve que aumenta a percepção das sensações durante o ato sexual e/ou devido à mulher estar se sentindo mais sensual, mais sexualmente atraente e com mais desejo de entrega ao parceiro.

A dança também foi um caminho para o enfrentamento do medo de ter uma relação após a cirurgia da mama, levando uma das mulheres a perceber este medo, compreendê-lo e superá-lo, através da autoconfiança e melhora da imagem corporal adquiridas com o maior conhecimento do corpo.

"Antes a sexualidade era de uma maneira muito prazerosa...e isso eu estava com medo, agora, depois da cirurgia...Estava com medo do toque, de dor, de não sentir a mama...com medo da reação dele de me ver, de me perceber desse jeito.",

"Comecei a pensar, talvez, a me perceber mais como mulher, em perceber mais sensualidade, me observar depois da dança."

A partir do momento que ela se redescobriu como mulher abriu-se um novo horizonte de percepções e possibilidades. Ela permitiu -se então se conhecer, se observar e ser observada.

Souto M.(2003, p.99) ressalta que:

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E nos leva a concluir que a sexualidade tem maior relação com a imagem corporal, com como a mulher encara o processo do câncer de mama e da mutilação do que propriamente com a idade e tipo de cirurgia.

As mulheres se referiram à dança como uma forma de entrar em contato com corpo, mente e sentimentos, aumentando a percepção de si mesmo. Todas apreciaram o projeto assim como os resultados. A dança lhes trouxe paz e relaxamento, além dos outros benefícios já citados. Um fato que as deixou a vontade e criou certa cumplicidade foi que elas tinham em comum não o amor pela dança, mas o amor pela vida e a luta contra um câncer. O momento mais especial para elas durante as aulas foi o de improvisação, no qual elas podiam criar e se expressar sem a preocupação de estar certo ou errado, buscando não a perfeição, mas o sentimento de cada gesto, de cada nota musical.

Tentei durante as aulas que elas se sentissem o mais livre possível para se expressar corporalmente, evitando corrigir-lhes os movimentos para que eles não perdessem a graça e emoção do momento, deixando que elas mesmas pouco a pouco fossem aperfeiçoando a técnica sem perder a graciosidade. O mais importante não era a perfeição da técnica, mas sim a emoção do momento e o encontro consigo mesmo que o momento proporcionava.

Elas se referem ao trabalho como:

"Foi uma surpresa gratificante."

"Dá um pouco de paz..."

"Foi um prazer inenarrável participar do projeto."

Também apontaram como um ponto muito positivo o fato de um instituto onde todas estão acostumadas a ir para tratar uma doença se proponha a oferecer este tipo de atividade para as pacientes. Esta proposta tira o foco da doença levando para a saúde, para a qualidade de vida dos pacientes. Transforma o Instituto em um local não só de tratamento de uma doença, mas em um local de prazer, de alegria, de convivência, de vida.

"Eu acho que a dança está dentro de nós...A Dança de Shiva; Shiva dança e bate o tambor, que é o ritmo do universo...Todos nós somos dançarinos."

Conclusão

A mulher que passa por um câncer de mama sofre alteração de sua imagem corporal, pois além da mutilação física há uma mutilação emocional, devido à mama estar relacionada à feminilidade da mulher e à maternidade, passando a perceber com estranheza seu próprio corpo, vendo-o mutilado e sentindo-se inferior ao que acredita que deveria ser, o que repercute em seus relacionamentos e na qualidade de vida.

Após a perda da mama algumas das mulheres desapropriaram-se de si mesmas, personificando a mama o que as fez retirar a atenção de todo o restante do corpo sadio deixando de perceber-se como um todo, corpo, espírito e coração.

O ganho de peso corporal também foi um fato importante citado em relação à imagem corporal, pois as mulheres referem estar sentindo-se acima do peso, o que interfere negativamente na imagem corporal.

A dança do ventre levou a um reencontro com o eu de cada uma, levando-as a perceberem sentimentos e sensações que passavam despercebidos, como o medo e a sensualidade, possibilitando que os compreendessem e interpretassem. A dança as despertou para sua totalidade levando a um diálogo com o corpo permitindo que elas se explorassem mais como mulheres, levou-as a uma maior consciência corporal e maior percepção de si mesmas como um todo. Novas percepções que levaram ao despertar da sensualidade.

Muitas mudanças se deram com a dança do ventre, elas se sentiram mais desinibidas, mais confiantes e principalmente mais sensuais. Mudanças estas que estimulam uma melhor imagem corporal e influenciam direta e positivamente na sexualidade e na qualidade de vida.

Ressalto que a participação dos médicos e das psicólogas foi de grande valia neste trabalho o que comprova que quando se trata de pacientes com câncer de mama é extremamente benéfico para estas e para o sucesso do trabalho uma equipe multiprofissional, tratando-a como um todo, corpo e psique, pois o corpo e a psique dependem um do outro. Sendo assim, somente é possível a reabilitação do corpo se houver a reabilitação da psique, assim como também só é possível a reabilitação da psique se houver a reabilitação corporal, um depende do outro para sua integridade. Nós como profissionais da saúde devemos então, nos unir e trabalhar em conjunto para que possamos prestar um atendimento integral ao paciente a fim de proporcionar-lhe melhor qualidade de vida.

Referências bibliográficas

Partes: 1, 2, 3, 4


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